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Festival Na Janela, dias 23 e 24/05
Eu Fui
29 maio 2020 | Por Equipe Sala33

Entre os dias 21 e 24 de maio, foi organizado pela editora Companhia das Letras o evento Na Janela: Festival de não ficção. A programação consistiu em bate-papos online com autores do gênero. O festival foi uma oportunidade de discutir diversos assuntos relevantes com escritores renomados. Confira a segunda parte da cobertura realizada pelo Sala33:

 

Dia 23:  “Cultura popular e repressão”, com Laura Mattos e Adriana Negreiros

Por Mateus S. Dias

"Cultura popular e repressão", conversa com Laura Mattos e Adriana Negreiros [Imagem: Reprodução/YouTube - Cia das Letras]

“Cultura popular e repressão”, conversa com Laura Mattos e Adriana Negreiros [Imagem: Reprodução/YouTube – Cia das Letras]

O terceiro dia do Na Janela, um festival de literatura de não ficção da Companhia das Letras começou às 15 horas do dia 23 de maio, e teve a presença das jornalistas Laura Mattos e Adriana Negreiros. O tema da mesa foi “Cultura Popular e Repressão”, e a conversa foi mediada por Thiago Amparo.

Laura contou um pouco do seu livro Herói mutilado: Roque Santeiro e os bastidores da censura à TV na ditadura. Ela falou sobre as inspirações da novela Roque Santeiro e sobre a construção do mito, assunto importante na atualidade. A jornalista ainda contou sobre a censura que a peça de teatro, e posteriormente a novela, sofreu durante a Ditadura Militar.

Já Adriana falou sobre seu livro Maria Bonita: Sexo, violência e mulheres no cangaço. Ela comentou sobre a imagem mitificada de Maria Bonita como guerreira e destemida, quando na verdade estava inserida num cenário extremamente opressor. Ela ressalta que Maria era sim transgressora, entretanto por outros motivos.

A conversa foi finalizada aproximando os acontecimentos dos livros com a atualidade, e Laura mencionou a censura em projetos como o “Escola sem partido”. O debate não durou mais que uma hora e foi extremamente atraente. Se resumida em uma palavra, mitificação seria a mais propícia.

 

Dia 23: “Feminismos”, com Djamila Ribeiro e Heloisa Buarque de Hollanda

Por Aline Novakoski

"Feminismos", com Djamila Ribeiro e Heloisa Buarque de Hollanda [Imagem: Reprodução/YouTube - Cia das Letras]

“Feminismos”, com Djamila Ribeiro e Heloisa Buarque de Hollanda [Imagem: Reprodução/YouTube – Cia das Letras]

Nesta mesa do Festival foram abordados os feminismos existentes, e que são focos das pesquisas das convidadas. Djamila Ribeiro é mestre em filosofia política pela Unifesp, colunista do jornal Folha de São Paulo e autora de três livros — dentre eles Quem Tem Medo do Feminismo Negro?. Heloisa Buarque de Hollanda é coordenadora da Universidade das Quebradas e do Programa Avançado de Cultura Contemporânea da UFRJ, além de autora de muitos livros, como Explosão Feminista. A mesa teve moderação da jornalista e colunista Giulliana Bianconi. Apesar de não conhecer as autoras pessoalmente, elas se deram muito bem, trazendo um tom leve para a mesa.

A conversa partiu da trajetória das autoras e do poder delas de traduzir seus estudos para a sociedade. Heloísa afirma ter feito o processo ao contrário do habitual: ela começa a estudar o feminismo nos anos 1980, e então entra para a militância. Já Djamila tinha pais militantes e desde pequena aprendeu muito sobre o anti-racismo. Ela conheceu a Casa de Cultura da Mulher Negra da região onde vivia e teve contato com o feminismo negro, iniciando seu ativismo bem antes da academia. Ambas autoras pontuam o quanto foi difícil estudar mulheres quando chegaram na academia — nem em estudos franceses se estudava Simone de Beauvoir.

Giuliana traz a conversa para a atualidade quando pergunta sobre a nova cara da universidade. As entrevistadas têm um consenso de que se está muito longe do ideal, porém a mudança está sendo significativa. O foco do que a academia acha que deve ser estudado se altera. Djamila afirma que o papel das feministas negras mais presentes tem mudado as coisas dentro da universidade, assim como o estudo de feministas latinas — porém, destaca o fato de os docentes formarem uma massa de maioria branca e masculina, o que dificulta muito as coisas. Heloísa pontua que a própria Djamila está fazendo a diferença na geração atual, e também aponta o problema de que as mulheres negras ainda têm de se provar três vezes mais do que as brancas para serem minimamente ouvidas.

Finalizando, as três falam sobre a questão do feminismo não atingir todas as mulheres. Evidenciam que ainda há muitas falhas que dificultam a criação de pontes entre as mulheres e bloqueiam o acesso de diversas vozes, excluídas pelas pautas feministas. A perda da visão que essas mulheres estariam agregando ao feminismo é muito maléfica, pois elas extrapolariam a visão acadêmica do movimento e trariam a ancestralidade de volta a ele.

 

Dia 23: “Histórias negras”, com Flávio Gomes e Wlamyra de Albuquerque

Por Filipe Albessu Narciso

"Histórias negras", com Flávio Gomes e Wlamyra de Albuquerque [Imagem: Reprodução/YouTube - Cia das Letras]

“Histórias negras”, com Flávio Gomes e Wlamyra de Albuquerque [Imagem: Reprodução/YouTube – Cia das Letras]

Na quarta mesa do evento Festival Na Janela, da Companhia das Letras, foi abordada a questão das histórias negras que constroem o Brasil. Mediado por João José Reis, autor de Rebelião escrava no Brasil, a mesa contou com a participação de Flávio dos Santos Gomes, um dos organizadores do livro Dicionário da Escravidão e Wlamyra R. de Albuquerque, doutora em História Social da Cultura pela Unicamp. Os três, inclusive, já possuíam certa intimidade entre si, o que atribuiu à mesa uma sensação semelhante a uma roda de conversa.

João Reis iniciou sua mediação pedindo para que os participantes discorressem sobre seus temas de pesquisa. Wlamyra sempre teve curiosidade por festas de rua e, por essa razão, um dos capítulos de sua tese de doutorado aborda especificamente essas festividades e sua importância racial no período da abolição. Flávio, por sua vez, enfatizou seus estudos na questão dos quilombos. O mediador então perguntou sobre as relações entre historiografia e lugar de fala, questionamento a que Flávio teve uma excelente resposta ao alertar para o possível uso desses termos. Para ele, esse conceito não deve limitar, submeter o historiador negro à tratar apenas da marginalização e da escravidão ao invés de ser livre para pesquisar sobre qualquer tema de sua vontade.

Também foi debatida a questão da divulgação de estudos dos pesquisadores para um público mais amplo, caráter que ambos concordam ser extremamente relevante e que gostariam de intensificar. Dentre as perguntas dos espectadores, surgiram temas como a questão do racismo no mercado editorial e o combate ao negacionismo histórico. Wlamyra e Flávio deslumbraram a todos com seus conhecimentos e reflexões imprescindíveis para melhor compreender a historiografia e a questão negra. Unidos a João Reis, os três desenvolveram o tema com maestria, produzindo uma experiência marcante para seu público.

 

Dia 24: “Biografias brasileiras”, com Lira Neto e Mário Magalhães

Por Filipe Albessu Narciso

"Biografias brasileiras", conversa com Lira Neto e Mário Magalhães [Imagem: Reprodução/YouTube - Cia das Letras]

“Biografias brasileiras”, conversa com Lira Neto e Mário Magalhães [Imagem: Reprodução/YouTube – Cia das Letras]

A quinta mesa do evento teve como foco a produção de biografias brasileiras. Ela foi mediada por Karla Monteiro, jornalista que irá publicar a biografia de Samuel Wainer, fundador do jornal Última Hora, e também contou com a participação do grande Lira Neto, biógrafo de nomes como Getúlio Vargas e Castello Branco além da ilustre presença de Mário Magalhães, autor do livro vencedor do Prêmio Jabuti de melhor biografia com sua obra publicada pela própria Companhia das Letras no ano de 2012, Marighella: O guerrilheiro que incendiou o mundo.

As primeiras questões tratadas foram o modo de produção de uma biografia e qual a importância dela para a memória nacional. Lira enfatizou que a biografia é um gênero transgressor ao desconstruir a imagem mítica de figuras históricas. Ele também deu enfoque à importância da recuperação da narrativa, às definições de macro e microhistória, e ao fato de que a produção biográfica é um projeto caro. Mário, que passou nove anos produzindo a biografia de Marighella, complementou defendendo que a biografia jornalística é reportagem e paixão, pois a comoção é um elemento crucial nessas obras.

A partir dessas definições primárias, Karla Monteiro perguntou se a história de Marighella ainda representa, num mundo pós Guerra Fria, o “perigo vermelho” da época e sobre o assassinato moral de figuras trabalhistas e nacionalistas como Getúlio, Jango e Lula. Dentre as dúvidas do público surgiu a questão da relação entre biografia e a análise do poder, e a diferença entre biografar indivíduos vivos e já falecidos. A mesa foi extremamente elucidativa e fundamental para compreender tanto a história do Brasil do século XX quanto a crise política vigente. Karla, Lira e Mário se destacaram não apenas como biógrafos, mas também como detentores de um conhecimento imprescindível para a atualidade.

 

Dia 24: “Sonhos para adiar o fim do mundo”, com Airton Krenak e Sidarta Ribeiro

Por Luanne Caires

"Sonhos para adiar o fim do mundo", com Airton Krenak e Sidarta Ribeiro [Imagem: Reprodução/YouTube - Cia das Letras]

“Sonhos para adiar o fim do mundo”, com Airton Krenak e Sidarta Ribeiro [Imagem: Reprodução/YouTube – Cia das Letras]

A última mesa do festival, realizada às 17h do domingo e mediada pela jornalista Carol Pires, teve como tema “Sonhos para adiar o fim do mundo”. Os convidados foram o neurocientista Sidarta Ribeiro, autor do livro O oráculo da noite, e o líder indígena e ativista socioambiental Ailton Krenak, autor dos livros Ideias para adiar o fim do mundo e O amanhã não está à venda

A conversa começou abordando a importância da arte de sonhar para ressignificar memórias, promover reflexões e fortalecer vínculos de afeto. De forma breve e bem-humorada, os convidados comentaram questões históricas e experiências de vida relacionadas aos sonhos, com ênfase na valorização de múltiplos saberes para sua compreensão. 

A mesa também discutiu a pandemia de Covid-19 e o quadro político brasileiro. Nesse ponto, o tema pareceu se aproximar mais dos pesadelos, como os próprios convidados destacaram. Carol Pires apresentou a imaginação política como forma de superar contextos problemáticos e construir novos cenários possíveis, reflexão complementada por Ailton e Sidarta, que ressaltaram o papel da experiência onírica e das tradições ancestrais para ampliação de horizontes. 

Após um tema pesado, a conversa seguiu por rumos mais leves. Os convidados discutiram maneiras de fortalecer a experiência dos sonhos no cotidiano, assim como a influência de tradições ancestrais para recuperar o cuidado com a natureza e com a humanidade. A íntegra do encontro, bem como das outras mesas, está disponível no canal da Companhia das Letras no Youtube.

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