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Fórum 360 Live: a dificuldade da bola laranja se manter na pandemia
ARQUIBANCADA
22 maio 2020 | Por Lucas Zacari (lucas.zacari@usp.br) e Rebeca Alencar Leme (rebs.alencar@usp.br)

Após o grande sucesso do Fórum 360 Basquete, ocorrido no ano passado, o Fórum 360 Live deste ano teve que se adaptar ao cenário de pandemia e, assim, repassar suas atividades para o meio digital. O evento teve, nos dias 4 e 11 de maio, painéis sobre a esfera mercadológica dos esportes e sobre as Olimpíadas de Tóquio, respectivamente. 

No dia 18, o Arquibancada foi convidado para acompanhar o painel “Basquete: Cenário e Futuro”, envolvendo a volta da bola laranja às quadras e os desdobramentos nesse período de isolamento social. Mediada por Everaldo Marques, narrador dos canais Globo, a conversa teve uma escalação estrelada: “Magic” Paula, campeã mundial e prata olímpica; Marcelinho Machado, tricampeão Pan-Americano e pentacampeão da NBB (Novo Basquete Brasil); Anderson Varejão, pivô da seleção brasileira e ex-jogador do Cleveland Cavaliers e Golden State Warriors; e Raul Neto, armador do Brasil e do Philadelphia 76ers.

 

Como os astros estão lidando com a pandemia fora da quadra?

É praticamente consenso que esse é um momento para se refletir sobre a vida. Paula conta que pensa em voltar a morar em Piracicaba, São Paulo, para poder ter uma melhor qualidade de vida. Marcelinho concorda sobre a melhoria na vida e ressalta que a situação faz com que seja necessária, e quase obrigatória, essa mudança no pensamento.

Já nos Estados Unidos, Varejão e Raulzinho explicitam que existe uma preocupação imensa com os familiares no Brasil e que, apesar do relaxamento em relação ao isolamento dos norte-americanos, os atletas ainda possuem receios sobre a doença: “Eu fico sempre ligando, conversando com meus pais. Já se passaram dois, três meses e as pessoas tendem a relaxar, e aí que vive o problema”, aponta o pivô da seleção. 

Em um segundo momento, Everaldo Marques pergunta aos participantes se eles haviam descoberto habilidades nesse período. Varejão brinca que, com o nascimento de sua filha, descobriu que tem facilidade para cuidar de crianças.

Marcelinho, Paula e Raulzinho, por sua vez, aprimoraram seus dotes culinários: enquanto o ex-jogador diz que faz churrasco toda a semana para sua família, a medalhista olímpica está aprendendo a cozinhar, e o armador fala que a prática dessa atividade ajuda a dispersar a mente: “É gostoso, você para de pensar em vírus, em basquete, então tem sido meu passatempo”.  

Perguntados pela equipe do Arquibancada se eles estavam acompanhando as reprises de jogos históricos que estão sendo transmitidas na televisão, Marcelinho, que trabalha como comentarista do SporTV, diz que se interessa em assistir. Brinca, ainda, que é legal poder comentar jogos próprios, apesar de certa decepção: “(sobre o jogo Brasil e Austrália, pelas Olimpíadas de Londres) Eu pedi que passasse, porque era a volta à competição. Mas eu não lembrava que tinha jogado tão mal!”. O jogo foi apertado mas, no fim, a seleção brasileira venceu os australianos por 75 a 71.

Eles ainda refletiram sobre as derrotas nas Olimpíadas de 2012 e 2016 e que essa última, por ser no Brasil e contra a Argentina, foi a pior: “Um jogo praticamente ganho, uma bola ‘espírita’ da zona morta acabou levando pra prorrogação e acabamos ficando fora. Por causa desse jogo, nem fomos pra segunda fase”, relembra Raulzinho, que participou de ambas as campanhas.

Arremesso de Nocioni que levou o jogo para a prorrogação [Imagem: Reuters]

As chances de retorno da NBA em 2020

O cenário da NBA durante e pós coronavírus também foi pauta do Fórum 360

[Imagem: Divulgação/NBA]

Devido às complicações causadas pela pandemia de COVID-19, a maior liga de de basquete profissional da América do Norte teve suas atividades suspensas por tempo indeterminado desde março deste ano. Mas Varejão conta que os Estados Unidos já estudam uma possível retomada gradual da rotina regular no país e, diante disso, Raulzinho completa que a NBA está indo pelo mesmo caminho.

A notícia, entretanto, não é tão bem recebida por eles. O ex-jogador do Cleveland, hoje com 37 anos, revela que há a preocupação com o preparo físico, pois, mesmo mantendo os treinos em casa, o rendimento e o ritmo não são tão proveitosos. Em seu caso, ele atribuiu tal fato  à idade avançada e também à falta de acompanhamento por parte de um condicionador físico, sem saber se está executando os exercícios corretamente: “Quanto mais velho, mais difícil é para entrar em forma, entender as dores, se readaptar ao dia a dia dos treinos”, ele conta.

Os jogadores também falaram sobre como é lidar com questões psicológicas diante da possibilidade  de a temporada de 2020 continuar seguindo com os jogos. Raul e Anderson concordam que estão com medo de voltar às quadras. Dizem ainda que a falta de parâmetro dos adversários e a “cilada da internet”, em que todos parecem estar tendo treinos produtivos, colaboram ainda mais para isso. 

Ainda sobre este assunto, Marcelinho adiciona que a pressão dessa possibilidade também é a responsável pelo desequilíbrio no desempenho dos atletas em jogo. Ele aponta que provavelmente serão necessários meses de treinamento para compensar os prejuízos do isolamento social e, consequentemente, a NBA deve retornar com níveis mais baixos de performance. Paula completa o tópico posicionando-se a favor do cancelamento definitivo da temporada, dizendo que, ao cogitar permanecer com o campeonato, a liga não pensa nos atletas. 

Ao ser questionado por Everaldo, Raulzinho revela que a notícia sobre o retorno dos torneios já tem circulado entre os outros jogadores e foi recebida por opiniões diversas. Porém, a maioria é contra, mesmo com a possível diminuição dos salários em cerca de 25%: “Não é que querem que termine, mas a maioria não se sentiria confortável voltando para a temporada agora, sem um remédio, sem uma vacina, sem nada que lhes dê segurança”, completa. 

Sobre isso, Varejão observa que a liga pode se manter financeiramente sustentando-se nos bastidores. Contudo, questiona o quão benéfico essa possível retomada da temporada será para o basquete, uma vez que esse esporte caracteriza-se por seu intenso contato com o público, mas garante que, se o campeonato certificar-se das condições de segurança necessárias para isso, irá voltar. 

Por fim, Raul conclui que a decisão final não é dos jogadores, entretanto, mesmo com o prejuízo financeiro, acredita que a NBA não irá colocar seus jogadores em risco.

 

A dificuldade no basquete brasileiro

Se mesmo uma liga forte e geradora de enormes quantias como a NBA terá problemas, o que será da brasileira? É nessa pergunta que a discussão sobre os impactos do coronavírus no basquete do Brasil foi pautada.

A NBB, liga masculina de basquete, decretou o fim da temporada sem um campeão. Já a LBF, Liga de Basquete Feminina, que estava no começo das atividades anuais, declarou a suspensão das partidas até, no mínimo, 20 de junho.

Paula apresenta que ocorrerá um agravamento de cortes, tanto de salários quanto de pessoas dos clubes, algo que, pela crise que já existia, estava em curso. Everaldo relembra que o dinheiro investido, com o qual os clubes se sustentam, são designados a partir do que sobra das despesas das empresas. “A gente está em um momento em que todo o recurso que estiver disponível vai ser concentrado no foco do negócio”, aponta o narrador.

Essa é uma questão que já está concretizando-se, mesmo distante de uma possível volta às quadras. Apesar da NBB garantir que não sofrerá a perda de patrocínios, não é o que ocorre com suas equipes. O Mogi das Cruzes, por exemplo, que já não possuía um investidor grande, teve os contratos com as empresas parceiras suspensos, dificultando a manutenção do elenco.

Marcelinho ainda lembrou que tudo que envolve o esporte vai sofrer com esse período: “Eventos, categorias de base… Não sei se a Lei de Incentivo vai continuar sendo feita da forma que ela existe hoje”, retrata preocupado o ex-capitão da seleção brasileira.

Há ainda a preocupação relativa à continuidade dos serviços sociais. O Instituto Passe de Mágica, da Paula, o M4 nas escolas, de Marcelinho, e o Instituto Anderson Varejão tiveram que suspender as ações presenciais: “A gente tá fazendo aulas virtuais pelo YouTube, mas é muito difícil a criança ficar olhando o que você está fazendo”, lamenta a ex-jogadora. As duas primeiras entidades ainda  distribuem cestas básicas para auxiliar as crianças que são beneficiadas por esses projetos.

Magic Paula também marcou presença no Fórum 360

Paula com os alunos de seu instituto: dificuldade de cenas assim no virtual [Imagem: Divulgação/Instituto Passe de Mágica]

“Arremesso final”: o basquete dentro das telas

Saindo dos impactos da pandemia no esporte, os astros também conversaram sobre o basquete no entretenimento. A série documental sobre a carreira de Michael Jordan e de seu time Chicago Bulls nos anos 90 foi lançada pela Netflix em abril deste ano, e também foi discutida pelos convidados no Fórum. Everaldo analisa um dos episódios em que Jordan fala sobre como era difícil ser ele, e com isso, questiona Varejão sobre como era, sob sua perspectiva, a vida de Lebron James, seu antigo companheiro de time e grande ídolo da NBA. O brasileiro afirma que sempre viu a pressão em cima do colega e, principalmente, o assédio da mídia, o que certamente compromete seu foco no esporte.

A respeito do sucesso da produção, Paula diz acreditar ser fruto da desmistificação do oculto, apresentando ao público o lado desconhecido do basquete a partir de seus bastidores: “Você vê que o cara nasceu para aquilo, porque qualquer outro, no lugar dele, teria desistido no meio”, ela afirma sobre a carreira de Jordan.

Já Marcelinho atribui a alta audiência ao interesse pela vida pessoal do astro, visto que suas posturas dentro e fora de quadra eram completamente antônimas. Sobre o desempenho do jogador, Raulzinho exalta seu foco, notando que Jordan sempre fez o que estava em seu alcance para vencer os jogos e enfrentar muitos dos conflitos da vida do ex-ala-armador. 

Paula ainda ressalta o trabalho de Phil Jackson, técnico dos Bulls dos anos 90, para o sucesso do time. Ela enaltece sua capacidade administrativa e ressalta o quão isso foi importante para o sucesso da equipe nas quadras, visto que, segundo ela, os atletas absorveram muito dos aprendizados com ele. Sobre a relação entre Jordan e Jackson, Varejão relembra os desentendimentos constantes entre os dois mostrados durante a série, observando que cada um deles tinha sua individualidade e não abriam mão de certos posicionamentos, mas que os resultados disso para o time foram positivos. 

“Com certeza o Michael Jordan deixou Phil Jackson liderá-lo, e ele entendeu que precisava deixar Jordan ser ele mesmo, daquele jeito que ele queria liderar seu time para ganhar.”, afirma o jogador. Ele ainda completa que, mesmo assim, o técnico conhecia muito bem os jogadores e, como ele considera isso fundamental em esportes de equipe, considera Phil Jackson um dos grandes pilares para o sucesso do time de Illinois.

A série "Arremesso Final" também foi pauta do Fórum 360

A série já conta com uma temporada completa no serviço de streaming [Imagem: Divulgação/Netflix]

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