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O último arremesso do título e a celebração de uma dinastia
ARQUIBANCADA
19 maio 2020 | Por Beatriz Sardinha (biagsardinha@usp.br)

Basquete não é um esporte fácil e não há zebras inexplicáveis. A extensa temporada regular, com oitenta e dois jogos, e a forma pela qual os playoffs são montados, com confrontos no estilo “melhor de cinco” e “melhor de sete”, não permitem que times duvidáveis avancem muito na competição. Tornar-se campeão da National Basketball Association não ocorre por acaso.

 Conquistar a liga mais de uma vez já significa um êxito quase imensurável para o basquete. E o que dizer de um time que é campeão seis vezes em um intervalo de oito anos? É algo quase extraterrestre. Quase tão extraterrestre quanto o Mean Team enfrentado por Michael Jordan e os Looney Tunes no filme animado Space Jam (1996). 

Mas não há nada de extraterrestre aqui, apenas a dinastia do Chicago Bulls, protagonizada por Jordan, só mais um atleta humano. E é justamente o fato de o atleta ser humano que torna a quantidade de conquistas assustadoras.


A temporada do sexto título 

A série O Último Arremesso (The Last Dance, 2020) feita em parceria pela ESPN e a Netflix traz mais detalhes desse time histórico que marcou uma geração.

Mas por que a série escolheu focar na campanha do sexto título e não dedicar um documentário à temporada histórica do Bulls da campanha 72-10? Embora a período de 97/98 não tenha sido a melhor versão do time de Chicago, ela resgata antigos problemas e mostra a última consagração da dinastia.

A temporada 97/98 da NBA adquiriu um tom dramático desde o seu início. O general manager uma espécie de diretor executivo Jerry Krause, almejava uma reconstrução do time, acreditando que muitos jogadores do atual elenco multicampeão, exceto Michael, não estariam mais no ápice de suas performances. Mudanças extremas como as que Krause queria alterariam completamente o time, e o tiraria da corrida pelo título. As declarações do dirigente eram problemáticas pois reforçavam atritos recorrentes ao longo dos últimos sete anos da dinastia 

A renegociação de contrato com o ala Scottie Pippen era um dos exemplos. Um “robin” de extremo luxo para qualquer time da NBA, Pippen tinha estatísticas excelentes: foi o segundo maior cestinha em rebotes e minutos jogados, além de ser o jogador com mais assistências e roubos de bola. 

Porém, tinha apenas o sexto salário do time e o 122º salário da NBA baixíssimo para um jogador do seu nível. Scottie era extremamente desvalorizado, ainda mais pelo alto rendimento que ele manteve durante os anos da dinastia. 

No segundo episódio da série, Jordan afirma que o considera “o melhor companheiro de time que já tive”. O agravante do problema envolvendo Pippen foi que essa desvalorização perdurou por muitos anos e era incompatível com o alto desempenho constante do atleta durante os cinco títulos anteriores.

No início da temporada 97/98, Pippen deixou de tratar uma lesão que poderia ter sido resolvida no intervalo entre temporadas, ficando ausente durante o começo turbulento da campanha. Ao fazer isso, o jogador buscou mostrar sua importância para o time e barganhar com a direção do Bulls para conseguir um contrato melhor.

Jogadores do Chicagos Bulls

Michael Jordan, Dennis Rodman e Scottie Pippen [Imagem: Record.pt]

 A gota d´água foi o anúncio de que Phil Jackson não seria o técnico da temporada seguinte, momento em que se iniciaria a reformulação. Como não havia maneiras de escapar da situação instaurada, Phil Jackson, bicampeão pelo histórico Knicks da década de 1970 e conhecido por suas abordagens e interações particulares e originais com jogadores, intitula a temporada 97/98 do Bulls de the last dance, traduzida como “a última dança”. O treinador queria que seus jogadores aproveitassem aquele momento, pois seria o último para aquele time. 

A apreensão daquele início de temporada não envolvia apenas o nome de Phil Jackson e de Scottie Pippen. A afirmação de Krause mudou tudo. Quando Michael Jordan foi questionado pela imprensa sobre a saída de Phil, o superstar disse que não aceitaria ser treinado por outra pessoa. A partir desse ponto, começam os questionamentos se aquela seria também a última temporada de Jordan. 

Após a conquista do sexto título, tentou-se uma prorrogação de contrato com Phil Jackson. Porém, as insistentes declarações afirmando, desde o começo da temporada, que aquela seria a “última dança” desfizeram as chances para que aquele time se juntasse novamente e fosse para a próxima temporada almejando o heptacampeonato.

 

A série

A série apresenta a complexa teia de personagens envolvidos na instituição Chicago Bulls. Além disso, uma das intenções claras da produção é evidenciar que Michael Jordan é, indiscutivelmente, o melhor de todos os tempos. De certa forma, o passar dos anos nos fez esquecer um pouco da dominância que MJ (apelido popularmente usado para falar de Michael) tinha na liga. Digo isso principalmente para pessoas como eu, que nasceram depois de 1999 e não têm a real dimensão do feito do Bulls. 

Pessoas dessa geração sabem que “Michael Jordan é o melhor de todos”, mas a série permite que elas se aproximem não só da figura do astro, mas como também daquele Bulls ganhador de seis títulos. Provavelmente muito desse distanciamento em relação à persona de MJ apareça pois o ex-jogador é atualmente o acionista majoritário do time Charlotte Hornets. Assim, Michael não é tratado da mesma forma que ex-jogadores ilustres como Shaquille O’Neal, Magic Johnson, Charles Barkley e tantos outros que tem, atualmente, uma presença midiática bem maior que a de Jordan. 

Essa situação acaba tornando-se irônica, porque o ídolo dos Bulls passou praticamente sua carreira inteira enquanto jogador sendo constantemente assediado pela imprensa.

Contudo, a série aborda algo muito maior que a dinastia vitoriosa do Bulls e da superestrela: ela trata de competitividade. O talento cru e o aprimoramento físico são abundantes no esporte profissional. Mas o que destaca um campeão é a sua mentalidade competitiva. Esse tema é tratado diversas vezes ao longo das temporadas esportivas mostradas na série a partir dos “embates de poder” entre os times dominantes e aqueles que desejam assumir o protagonismo na liga. 

Outro ponto positivo do documentário é não endeusar Michael. Por maiores que sejam suas virtudes, mostra-se também um lado “humano” do astro, detalhando sua pouca participação em questões políticas, seu divertimento com apostas e demais conflitos referentes a sua imagem. 

Além disso, mostra um lado mais complexo da própria mentalidade, de como Jordan queria “ganhar a todo o custo” e como isso muitas vezes levou seus companheiros ao limite, fato que, em certa ocasião, chegou a resultar em uma troca de socos. 

O traço extremamente competitivo da personalidade de Michael e sua capacidade de transmitir ambições a seus companheiros para que desempenhem um basquete de alto nível foi provavelmente o fator mais decisivo para aquele time. Em trechos de entrevistas ao longo dos episódios, seus companheiros “menos brilhantes” comentam sobre a importância que a confiança dele significava. Eles sabiam que Michael corresponderia na quadra com todo seu talento, e que precisavam tentar manter o mesmo comprometimento que MJ tinha pelo jogo.

A atmosfera produzida pela série torna-se então louvável, uma vez que para a elaboração dos episódios foi entrevistada uma variedade de fontes, desde o próprio Michael Jordan até seus companheiros de equipe, familiares, adversários e jornalistas esportivos. Essa estratégia, além de colaborar para um retrato mais fiel das versões dos acontecimentos, gera maior intimidade entre os jogadores e os espectadores. 

Há a construção de dinâmicas marcantes nos episódios e que mostram o poder do ambiente criado pela produção. Uma dessas dinâmicas envolve um dos Bad Boys de Detroit, Isiah Thomas, questionado sobre suas atitudes na final da conferência de 1991. Em seguida, Jordan é mostrado refutando a fala de Thomas. A partir dessa montagem, a série mostra visões divergentes sobre o mesmo evento, demonstrando que o embate de poder travado em quadra há muitos anos continua nos bastidores até hoje.

Outro momento sensível impactado diretamente por essa abordagem é o começo do quinto episódio, que trata do primeiro embate entre o jovem Kobe Bryant, com dezenove anos, e Michael Jordan no Jogo das Estrelas. A aparição do relato de Kobe deixa o espectador estático, embalado entre o desejo ver mais palavras do já falecido jogador e a tristeza de saber do que viria a acontecer.

Michael Jordan e Kobe Bryant

Michael Jordan e Kobe Bryant [Imagem: Epicbuzzer]

A forma dinâmica pela qual os episódios são montados é eficiente, principalmente quando utilizada como um flashback, mostrando uma história de origem ou justificativa para um acontecimento na temporada 97/98. 

O terceiro episódio, por exemplo, mostra a relevância desse artifício na apresentação de Dennis Rodman. O defensor dos Bulls certamente foi uma das figuras mais interessantes e intrigantes daquele time, principalmente pela forma compreensiva e única que o Bulls tratava as diferentes personalidades de seus integrantes. 

Os episódios têm como fundo a história da NBA, já que é quase impossível dissociar o sucesso de Michael Jordan da expansão do basquete como uma cultura urbana. Os tênis, filmes, o Dream Team, as roupas e as propagandas globalizaram a NBA. No início de 1993, a liga era transmitida para 80 países. Após o hexacampeonato, para mais de 230 países. O basquete de hoje apenas o é devido àquele time dos Bulls e a Jordan.

O Dream Team estadunidense na Olimpíada de 1992

O Dream Team estadunidense na Olimpíada de 1992 [Imagem: Andrew D. Bernstein/NBAE via Getty Images]

A tradução “Arremesso Final” não me parece a mais adequada, pois, no basquete, o arremesso final é uma situação inesperada na qual o jogador do time tem pouquíssimo tempo de jogo restante para conseguir a vitória, e não há como ter certeza sobre seu êxito. No caso, o título do Bulls de 97/98 foi decidido com o arremesso final de Michael contra o Utah Jazz. Mas, no todo, não havia incerteza. Muitos sabiam desde o começo que aquele seria o final e o desfecho dessa jornada deveria ser aproveitado. 

A única provável incerteza de quem não fazia parte daquele time era se eles se sagraríam campeões novamente. Contudo, o nível de intimidade proporcionado pela produção que acompanhou o Chicago Bulls durante a temporada 97/98 traz uma nova dimensão da atmosfera do time. E, com talvez a exceção daquele combate de sete jogos contra os Pacers de Reggie Miller, era possível sentir que essa última jornada seria de consagração, não de decepção.

O sentimento que a série traz para aqueles que amam o esporte é de extrema satisfação. Mas qualquer um que não conheça o Bulls ou aprecie basquete compreende que aquilo diante dele é singular e espetacular.

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