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“Free Spirit” – entre o eu e o outro, a inquietude
Escuta Aí
08 maio 2019 | Por Sala 33

Por Gabriela Caputo

gabrielacaputo@usp.br

“Diga que você não pode mais lidar comigo / Apenas diga que não me quer”, é o primeiro desabafo que Khalid canta em Free Spirit, com sua suave voz e muita alma envolvida. Intro, canção que abre o álbum, logo chama atenção por sua melodia crescente e ultra-produzida e pela sinceridade na letra que traduz uma mente confusa e hesitante. Já nessa faixa, o cantor apresenta uma síntese temática que guiará todas as outras 16 canções: as dificuldades de se relacionar, primeiramente com o outro, e então, com sua própria pessoa.

Khalid Donnel Robinson se destacou no cenário musical em 2017, com o single Location, e não parou mais de produzir. Aos 21 anos, já acumula ótimo histórico de posições nos rankings da Billboard e cinco indicações ao Grammy (2018). Os singulares vocais de Khalid, calmos, mas que revelam uma enxurrada de sentimentos complexos, e a mistura de R&B e Pop são elementos base dessa receita que deu muito certo. No entanto, o fato de cantar sobre experiências universais é o que mais explica seu grande sucesso entre o público de sua faixa etária – a chamada Geração Z.

O turbulento amor jovem, as conexões incertas e as dificuldades na comunicação não são temas novos para os fãs de Khalid. Em American Teen (2017), seu primeiro disco, o estadunidense já os tomava como narrativa para seus versos, tão simples e tão certeiros. Conhecemos um Khalid se divertindo, ainda numa vibe colegial, cercado de amigos e novos relacionamentos. As melodias mais animadas de algumas canções se destacam quando misturadas com o restante das músicas, de sons mais melancólicos. Mesmo com o contraste, ao longo das 15 faixas, o disco torna-se cansativo – o que se repetiria também em Free Spirit.

Em 2018, Khalid lançou um EP intitulado Suncity, com sete faixas  que apontavam a transição para uma fase mais adulta de sua música. Um dos destaques é a canção de mesmo título, uma parceria com a cantora Empress Of, que trás uma sonoridade latina e versos em espanhol. Outras duas faixas de destaque, ambas singles, Better e Saturday Nights, foram reaproveitadas no atual trabalho.

Finalmente, em 2019, depois de alguns hits e variadas parcerias, como Billie Eilish e Shawn Mendes, chega a vez de Free Spirit se apresentar para o público, com promessas de um Khalid mais maduro nas letras e sonoridade. A proposta, no entanto, acaba decepcionando um pouco, pois o disco se estende por melodias e sentimentos que, se inicialmente interessantes, tornam-se exaustivos. No fim das contas, não há grandes novidades, e a originalidade do rapaz acaba se perdendo no meio de grandes produções, como os produtores Stargate, Disclosure e John Hill.

Depois de Intro, que finaliza com o eu-lírico atestando as dificuldades de continuar um relacionamento conturbado que talvez fosse melhor nunca ter acontecido, é a vez de Bad Luck, e de Khalid revelar sua solidão: Ninguém realmente fala sério quando eles estão desejando que você fique bem / Eu não tenho ninguém para ligar, ninguém / E as pessoas só te amam quando estão precisando de sua riqueza”.

Clipe de Talk [Imagem: Vevo]

My Bad é uma faixa neutra, de melodias um pouco tediosas e rapidamente esquecida diante das próximas. Combinados, os singles Better e Talk formam uma das melhores sequências do disco. São envolventes e destoam das demais músicas, ao mesclar a tranquila voz de Khalid com recursos eletrônicos mais enérgicos.

O álbum se desenrola alternando entre faixas mais envolventes, como Right Back e Hundred, e outras lentas e melancólicas – algumas até dispensáveis -, como Don’t Pretend e Paradise. Em Hundred, Khalid se afasta novamente da temática amorosa para focar em sua saúde mental e em sua experiência solitária: Todo mundo quer um favor, todo mundo precisa de mim / Mas eu estou muito ocupado tentando lutar contra todos os meus demônios”.

Na sequência, Outta My Head, parceria com John Mayer, é uma boa surpresa. Os vocais e a sonoridade característica de Mayer combinam muito com as de Khalid, e resultam em uma faixa envolvente. A música título, Free Spirit, por sua vez, é outro dos pontos altos do álbum. O dilema entre pertencer ao outro ou pertencer a si marcam a letra, notadamente no verso final, quando Khalid deixa de usar o plural e assume sua individualidade.

Twenty One, Bluffin, Self, Alive e Heaven soam como se estivessem apenas preenchendo espaço. As letras marcadas pelas reflexões profundamente pessoais não conseguem convencer, e a sensação é de repetição. Vale destacar, no entanto, a letra de Self, parte crucial dos desabafos do jovem cantor, que faz um questionamento importante sobre os padrões de masculinidade na sociedade, ainda que sem muito aprofundamento: “Sempre tive um pequeno problema com auto-reflexões / Agora, minha emoção pura faz de mim menos homem?”. O disco fecha com a excelente Saturday Nights, outra música reaproveitada do EP Suncity.

O saldo final é neutro. Ainda que utilizando como pedestais as mesmas temáticas de seu primeiro disco, em Free Spirit a solitude é uma novidade, com o cantor explorando também o intrapessoal. Khalid fala sobre se sentir perdido, ao passo que tenta dar conta de toda uma dimensão dentro de si. Fica evidente nas composições que o estadunidense se percebe, ao mesmo tempo, sufocado em uma vida de cobranças constantes e abandonado, rodeado por ditos amigos que só aparecem quando é conveniente. O mundo da fama pode ser cruel para todos, mas, principalmente, para aqueles que ainda tentam se encontrar como indivíduos, antes de artistas. É importante que Khalid seja sincero sobre sua saúde mental, relatando sua ansiedade e outros problemas – não só para se manter são, mas para que muitos outros jovens possam se identificar e, talvez, encontrar um refúgio na música.

[Imagem: Charles Reagan Hackleman/ACL]

Apesar de algumas qualidades, escutar o disco de uma só vez não deixa escapar a sensação de circularidade. Pouco parece ter mudado desde American Teen. As mesmas coisas são ditas diversas vezes com palavras diferentes, e os pertinentes sentimentos acabam se tornando genéricos. Em sua crítica para o Pitchfork, Alphonse Pierre afirma que “Khalid parece perfeito para uma época em que algumas das músicas mais populares são populares porque se encaixam nas playlists do Spotify destinadas, exclusivamente, a serem usadas como ruído de fundo”. De fato, é essa a sensação deixada por Free Spirit: música de fundo.

A promessa de um álbum mais maduro não é cumprida em sua totalidade. Há mais melancolia, que sugere certo amadurecimento em relação ao eu-lírico adolescente e divertido do primeiro álbum. Algumas músicas são boas e, outras, realmente muito boas. Mas, no conjunto, Khalid não inova, não arrisca. O disco cansa, e o que antes parecia inovador, agora é mais do mesmo. Não há dúvidas de que Khalid tem um futuro promissor pela frente, mas talvez o curto período entre suas produções tenha sido obstáculo para que o cantor entregasse um trabalho mais coeso e surpreendente.

 

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