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Garota-ranho e a crítica da realidade com pitadas de mistério
Na Estante
15 out 2018 | Por Jornalismo Júnior

Imagem: Companhia das Letras

Garota-ranho. Um título meio estranho que não dá para imaginar o que vai acontecer na história. E, de fato, não dá pra prever. Com um enredo convidativo e, no mínimo, curioso, Bryan Lee O’Malley, Leslie Hung e Mickey Quinn criam uma história em quadrinhos que dialoga com a realidade e, ao mesmo tempo, com o inimaginável.

A protagonista, Lottie Person, é uma jovem adulta de cabelos verdes sedosos, dona de um blog de moda em que ela publica seus looks para os milhares de seguidores. Se tem um evento, a blogueira comparece e posta seu traje maravilhoso. Bem, ela acredita que ELA é maravilhosa. Mas, a sua vida é totalmente fantasiosa, como se só a Lottie dos estilos magníficos ou na linguagem da internet, “tops” existisse, como se uma vida baseada em likes fosse a sua essência. E, na verdade, a moça de cabelos verdes vive problemas na sua rotina longe das redes sociais.

Um deles, e por isso o título intrigante, é que Lottie tem uma séria alergia que faz com que seu nariz escorra secreção o popular ranho de forma descontrolada, levando ela a fazer um tratamento que faz com que sua aparência e isso quer dizer sua vida esteja nos conformes. Mas, quando um outro médico assume o seu caso e a oferece um remédio alternativo, a sua normalidade começa a ter reviravoltas.

Outra dificuldade que a influencer enfrenta é sobre as suas amizades, que por sinal, são com outras blogueiras. Algumas delas dão a entender que compartilham de uma vida de aparências também, mas o real problema transmitido é a superficialidade desses relacionamentos. São amigas de like e unha, onde a pauta dos encontros é sobre o perfil de outras blogueiras e de como elas não as outras são grandiosas nas redes sociais. A dona do nariz que escorre até tolera esses laços, afinal ela precisa de amizades.

E como é a Garota-ranho longe de tudo isso? Solitária e com dilemas pessoais. Talvez a única pessoa que a escute é sua estagiária, que ela troca de tempos em tempos. Além disso, seu relacionamento com o namorado foi por água abaixo e ele está com uma das estagiárias que Lottie nunca ligou e dispensou. Com tudo isso e mais um pouco, a protagonista acaba tendo uma espécie de fuga da realidade pelas vias digitais, como já dito. Porém, quando ela vai a um café, conhece uma outra garota que ela apelida de Coolgirl e que vira a sua best friend. Juntas, vão à uma noitada e, Lottie, tendo uma crise na sua alergia, mata ela… Não! Ela não fez isso. Ou fez? Nem ela sabe ao certo. E nesse momento, a trama ganha ares de sobrenaturalidade que vão se fortificando no final da HQ.

O que torna essa história ainda mais atrativa é o jeito que a linguagem é utilizada. Termos usados na internet são introduzidos para melhor contextualizar a rotina da influencer. E mais: causando a sensação de superioridade o que se mostra uma farsa , quando se apresenta pela primeira vez uma personagem, existe uma ficha feita por Lottie descrevendo quem é aquela pessoa; uma espécie de perfil. Contudo, o apogeu é a forma como a dupla personalidade de Lottie Person a blogueira e a ranhenta dialogam com as situações no mesmo quadrinho. Quando isso acontece, a “verdadeira” tem suas falas fora dos balões, dando a entender que são pensamentos. Em dados momentos, as letras aparecem em tons de verde, lembrando a cor do catarro da Garota-ranho.

Com uma forte crítica implícita ou nem tanto assim sobre a futilidade que as redes sociais transferem às pessoas e vice-versa, esta HQ tem a capacidade de envolver seu leitor através das falas e dos traços, fazendo com que cada sensação consiga ser passada aos olhares que deslizam nos quadrados. E, fazendo menção ao bom suspense, os mistérios só serão desvendados em uma continuação. Até lá, quem sabe a Garota-ranho ainda estará vivendo em seu país das maravilhas, com fotos, curtidas, looks, bajulações e tentativas de fugir dos problemas reais.

Por Pedro Ezequiel
pedroezequiel36@gmail.com

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