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Invasão Campineira: a Briga de Vizinhos na Capital
ARQUIBANCADA
01 maio 2016 | Por Jornalismo Júnior

Por Rafael Castino

Pacaembu, domingo, dia 3 de junho de 1979. Um clássico entre alvinegros e alviverdes leva cerca de 40 mil torcedores ao mais popular estádio paulista. Não é um Corinthians e Palmeiras. Campinas, a cidade do futebol naquela época, chega a capital com o mais popular derby do interior: Guarani contra Ponte Preta. Com o maior público já registrado no clássico, a Invasão Campineira virou história.

“O mais importante que precisamos lembrar é que naquela época Campinas era conhecida como a capital do futebol, os dois times eram espetaculares, ambos com diversos jogadores da seleção brasileira”ressalta Flávio Prado, jornalista esportivo, em entrevista sobre o clássico. “O Guarani era o atual campeão brasileiro e a Ponte, por sua vez, havia sido vice campeã do campeonato Paulista de 1977, as brigas entre esses times eram lá em cima”.

Todo clássico tem seu peso, é um campeonato à parte, diriam os especialistas e apaixonados por futebol. Mas naquele momento este peso era ainda maior, o Derby Campineiro havia virado atração. Além dos ótimos elencos que iriam se enfrentar, a rivalidade estava mais aflorada do que nunca, o Bugre não queria jogar no campo da Macaca e vice-versa. Por conta dessas discussões, a Federação Paulista de Futebol (FPF), contrariando a ordem do governo de economizar gasolina devido a uma crise no abastecimento, optou pelo Pacaembu, um campo neutro onde se disputaria a partida.

(Foto: Gazeta Esportiva)

(Foto: Gazeta Esportiva)

Em princípio, ambas as torcidas não concordaram com tal escolha e durante a semana que antecedeu o confronto ouviu-se muito falar de boicote. O que aconteceu realmente foi o contrário, com medo de seu rival não aderir ao movimento proposto, dias antes do jogo houve uma enorme procura por vans e fretados que pudessem levar ambas as torcidas até o Pacaembu,como conta o jornal O Estado de São Paulo em sua edição no dia do jogo.

Odair Alonso, jornalista, conselheiro e torcedor do Bugre presente no jogo fala sobre essa mobilização: “O departamento social do Guarani organizou uma das maiores caravanas da história do clube. Saíram ônibus, centenas de ônibus em direção a São Paulo. Mas eles não davam conta. Muitas peruas também foram alugadas, táxis e carros particulares também seguiram para a Capital paulista.”

Para evitar possíveis confrontos, a Polícia Militar armou uma operação onde as caravanas iriam sair respectivamente de seus estádios, algo que não acontecia normalmente, já que a concentração antes de partir para jogos fora da cidade era no centro de Campinas. Além disso, cada torcida percorreu um trajeto distinto – os Bugrinos foram pela Anhanguera e os torcedores da Macaca  pela recém inaugurada rodovia dos Bandeirantes.

“Uma das coisas mais marcantes foi no trajeto entre Campinas e São Paulo, olhando até onde se poderia enxergar os ônibus enfileirados e as bandeiras na janela. Dentro, aquela festa com muito samba e músicas de incentivo a Macaquinha”, destaca Abílio Carlos Silva, ilustre torcedor da Ponte e assíduo frequentador das caravanas, que estava presente naquele e em outros diversos jogos.

O bugrino Odair ainda completa sobre a chegada ao Pacaembu: “Foi apoteótica. Mais parecia um jogo entre Palmeiras e Corinthians, pois muita gente de São Paulo se interessou pela partida e também compareceu, afinal se tratava de um grande clássico, um dos maiores jogos da época. Eu mesmo vi muita gente com camisa de Palmeiras, São Paulo, Portuguesa, Santos e Corinthians misturada entre as duas torcidas campineiras. Parecia mentira… Era definitivamente a glória para Guarani e Ponte, numa fase de ouro para o futebol campineiro”.

O Jogo de Cinco Torcidas, assim denominado pela  Folha de S.Paulo do dia 3 de junho daquele ano, terminou com um placar de 2×0 para o Guarani, com gols de Capitão e Zenon. “Infelizmente saímos derrotados – conta o ponte pretano Abílio – mas a alegria da massa era contagiante”.

“Não havia o censo nacional, o campeonato brasileiro era recente. Não tinha globalização ou internet, eram poucas as televisões e o deslocamento era difícil […] Por isso, o regional era o que havia mesmo, a referência dos times era literalmente a do seu vizinho, os estádios do Guarani e da Ponte, na cidade de Campinas, distam coisa de dois quilômetros um do outro. Então, era necessário vencer, ainda mais quando essa briga de vizinhos estava ocorrendo na capital”, conta o jornalista Flávio Prado.

“Muitos desses jogadores que disputaram o clássico foram para grandes equipes. Muitos para a Seleção Brasileira. Ficou para os torcedores a lembrança de um dia inesquecível, um derby no Pacaembu!”, concluiu Odair Alonso, o vitorioso torcedor do Guarani.

Após a partida, a comemoração dos alviverdes de Campinas pendurou por toda a viagem de volta, as mesmas caravanas que invadiram a capital e tomaram o Pacaembu agora retornavam para sua cidade, onde iriam se concentrar no popular Largo do Rosário e dar início a festa que se estenderia por toda aquela noite de domingo.

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COMENTÁRIOS
Helton C. Wanderley
Para a matéria fechar com chave de ouro, faltou ficha técnica da partida.
14 maio 2016
 
Abílio Carlos Silva
Ficou nota dez porque vivi este momento inesquecível
05 maio 2016
 
Angela Maria Flório Guerra Vieira Pereira
Bom texto, parabéns
04 maio 2016
 
Dionisio Guerra Vieira Pereira
por ser o primeiro post, jornalista Rafael C.Florio, parabéns. Dionisio Guerra Vieira Pereira
04 maio 2016
 
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