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Medicina indígena: na história e ainda presente
História da Ciência
29 jul 2020 | Por Beatriz Hermínio (beatrizherminio@usp.br)

Animais, montanhas, plantas, rochas e astros são parte constituinte da Natureza. A esta, grafada com a primeira letra maiúscula, atribui-se uma interioridade e consciência próprias, e seus entes são tratados como sujeitos capazes de agir de forma intencional. Tal concepção dos povos indígenas sobre a natureza reflete seus processos de cura; não apenas o reconhecimento de plantas medicinais e de ervas curativas, mas a forma como esses povos percebem, diagnosticam e tratam uma doença: a chamada medicina indígena.

Essa medicina parte de um pressuposto holístico (que busca compreender os indivíduos como um todo) de conexão entre corpo, natureza e o mundo espiritual e, portanto, a quebra das conexões gera um desequilíbrio. Desse modo, as mazelas que acometem uma pessoa não são pensadas em uma dicotomia entre corpo e alma, sendo que, para algumas tradições, a origem da doença está no adoecimento da cabeça. É claro que existem traumas que vêm de uma fatalidade exterior, mas, para essas culturas, grande parte das doenças começa em um nível subjetivo. 

Nessa medicina tradicional, não há um especialista equivalente ao médico da medicina ocidental convencional, de modo que os cuidados podem ser executados por diferentes pessoas. No Brasil, porém,  o maior representante é o pajé ou xamã. O pajé realiza o contato com o mundo espiritual: em muitas tribos, isso é feito através da fumaça de cigarro e cachimbo ou por meio do sonho, que  permite transcender barreiras e se conectar a outros níveis de consciência. Os tratamentos das doenças envolvem restrições alimentares, uso de substâncias vegetais em forma de chá, fumaça, pó ou vapor e palavras encantadas que visam fortalecer a pessoa doente e não deixá-la vulnerável a ataques espirituais.

 

O contato europeu através da colonização

Quando pensamos na existência de povos pré-colombianos e as particularidades de cada um, estamos falando de povos que remetem ao cultivo de conhecimentos ancestrais e que, através de observações empíricas, criaram uma farmacopeia de medicamentos, ou seja, um conjunto de informações relativas ao uso farmacêutico dos remédios baseados em ervas com virtudes terapêuticas, milenarmente adaptadas ao uso humano. 

Por outro lado, a medicina europeia na época do início da colonização era agressiva ao organismo, consistia em purgantes e vomitivos e utilizava elementos mágicos e religiosos, como pedras preciosas e diversos outros rituais. Enquanto para os indígenas a doença poderia significar parte de uma alma que foi retirada da pessoa doente, para o colonizador, representava o fruto de um pecado dessa alma. As técnicas curativas nativas da América representaram uma contribuição importante para a medicina europeia, a qual expressava a sobrevivência de uma tradição dogmática e uma aplicação da tradição galênica. A partir do século 16, a medicina indígena despertou o interesse dos colonizadores no Brasil e na América em geral, sendo a autora original de grande parte das informações registradas pelos naturalistas sobre a fauna e a flora.

A professora do Departamento de Antropologia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Joana Cabral de Oliveira, aponta que plantas importantes na nossa vida contemporânea foram domesticadas por populações pré-colombianas, como tabaco, pimenta, batata, mandioca e abóbora, e que pesquisas recentes demonstram que o processo de domesticação do milho foi iniciado na Mesoamérica e finalizado por povos amazônicos. De forma similar, são diversas as substâncias com propriedades medicinais que surgiram de conhecimentos indígenas e foram incorporados à medicina ocidental; algumas delas listadas pela antropóloga:

 

  • Curare: mistura de sumos vegetais. Foi a base para que os cientistas conhecessem o alcaloide D-Tubocurarina, a partir do qual foi desenvolvido nosso principal anestésico. Um dos importantes conhecimentos indígenas é o dos venenos, com paralisantes musculares usados nas pontas de flechas de caça, pois atuam bloqueando a passagem de estímulos neuronais às fibras musculares. A  D-Tubocurarina é usada para produzir o relaxamento necessário  para realizar entubações, entre outros usos anestésicos.

 

  • Ayahuasca: bebida feita da mistura de duas espécies herbais Banisteriopsis caapi e Psychotria viridis – que se combinam. Uma possui uma molécula que atua nas enzimas responsáveis por decompor o princípio ativo contido na outra. Sem a junção das duas, o efeito não se produz. É uma bebida utilizada em diversos contextos ritualísticos, religiosos e médicos do mundo Ocidental Moderno. Diversos alucinógenos do Novo Mundo usados em rituais foram fundamentais nos estudos de neurociência e psiquiatria.

 

  • Quina: folhas de quina, Cinchona ledgeriana, usadas por populações indígenas para aplacar febres altas. O princípio ativo contido na espécie, a quinina, já foi utilizada no tratamento da malária e arritmias cardíacas. 

 

  • Substâncias estimulantes: Guaraná (Paullinia cupana), Coca (Erythroxylum coca) e o Cacau (Theobroma cacao) apresentam uso cotidiano para diminuição da fadiga mental e corporal. No caso da Coca, também atua nos sistemas respiratório e circulatório, com efeitos benéficos para enfrentar grandes altitudes. 

 

Sobre os conhecimentos medicinais indígenas apropriados pela medicina ocidental, Lavinia Santos Oliveira, enfermeira doutora em saúde pública e coordenadora de Recursos Humanos do Projeto Xingu, comenta: “Infelizmente, esse histórico não é respeitoso, porque os conhecimentos indígenas que geraram medicamentos e técnicas usados em ampla escala no mundo nunca foram devidamente devolvidos para os indígenas, seja em crédito de propriedade intelectual, seja pela patente e compensação financeira”. 

À lista de substâncias medicinais, ela acrescenta o maracujá, com efeitos sedativos e, como um caso mais recente, o medicamento Captopril. Neste caso, a pesquisa do remédio originário do veneno da jararaca foi sugerida a um professor da Universidade de São Paulo que pesquisava enzimas hipertensoras por um indígena da etnia Terena, seu assistente. A medicação foi patenteada por um laboratório norte-americano e é vendida no mundo todo.

Quanto à quina, seu uso pelos indígenas em território peruano permitiu o tratamento da malária aos jesuítas, que promoveram a difusão da casca dessa árvore americana pela Europa, no século 17. Já no século 19, o alcaloide quinina foi isolado por cientistas europeus e, então, holandeses passaram a contrabandear sementes para aclimatar na antiga ilha de Java. Isso levou, em meados do século 20, ao fim da exportação de quina das regiões americanas  e a um domínio do mercado mundial pelos novos exportadores. O uso da quina pelos Incas é notório, bem como das propriedades da coca.

“O interesse da ciência ocidental em recortar e empobrecer os sistemas de cura-doença indígenas transforma os conhecimentos segundo nossos interesses e protocolos epistemológicos”, comenta Joana. Essa visão resulta em um modo essencialmente exploratório de encarar a natureza e os saberes nativos.

Uso do rapé, composto de ervas e cascas de árvores medicinais, por indígenas Huni Kuin. A substância é comumente disseminada fora do contexto de uso indígena. Foto: Gustavo Miranda.

Uso do rapé, composto de ervas e cascas de árvores medicinais, por indígenas Huni Kuin. A substância é comumente disseminada fora do contexto de uso indígena. Foto: Gustavo Miranda.

 

Relação com a medicina ocidental

Muitas doenças trazidas para as Américas pelos colonizadores, como a gripe e o sarampo, não tinham correspondência nem tratamento na medicina indígena, sendo necessária a intervenção da medicina ocidental. Desde 1999, a Fundação Nacional do Índio (Funai) constitui o Subsistema de Saúde Indígena do SUS (SASISUS), que criou Distritos Sanitários Especiais Indígenas, os DSEIs, para garantir a atenção básica de saúde em seus territórios. Neste subsistema, está garantido o diálogo e a troca entre os sistemas médicos, em uma relação de complementaridade. No Projeto Xingu da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), por exemplo, os pajés têm livre trânsito no Hospital Universitário e participam do planejamento terapêutico dos pacientes, informa Lavinia.

A enfermeira adiciona que o atendimento à saúde de indígenas está garantido por lei desde 1999, mas foi uma política tardia de reparação ao direito à saúde por parte das populações indígenas que consta na Constituição de 1988. A profissional ainda reforça a importância dos cursos de formação que reconhecem diferentes maneiras de produzir saúde, relativas a especificidades culturais, e informa que o princípio de equidade faz parte do Sistema Único de Saúde (SUS), mas ainda não é realidade. Destaca-se aqui a diversidade da medicina indígena, com a presença de cerca de 305 etnias no Brasil, de acordo com censo 2010 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

É evidente que populações indígenas são alvo de violentos processos de expropriação e invasão territorial, e, com isso, estão suscetíveis às epidemias. A presença de povos indígenas orgulhosos de suas culturas e línguas reflete a resistência frente à violência praticada desde os tempos da colonização.

 

Contínua produção de conhecimento indígena

Algo fundamental é compreender que não estamos diante de povos que são simples repositórios de saberes sobre a flora, a fauna e as paisagens que habitam; “se só conseguimos enxergar os outros pela utilidade que eles prestam a nós, a nossa cegueira não é casual, é uma cegueira construída em um processo de apagamento de dívidas que temos com os conhecimentos indígenas”. Segundo Joana, não é por acaso que a história do desenvolvimento de um anestésico importa menos do que o produto em si.

Conhecimentos que possibilitaram a domesticação de espécies, a elaboração de sumos vegetais com princípios ativos e a própria biodiversidade amazônica – conforme apontado pela antropóloga, estudos de ecologia e arqueologia evidenciam que a diversidade da floresta se deve aos modos de vida e ocupação pré-colombianas, sendo a Amazônia em boa parte uma floresta antrópica – são conduzidos por um espírito investigativo que acompanha essas populações na produção de novos saberes.

A criação de uma enciclopédia em língua nativa pelos Matsés – tribo amazônica do Brasil e do Peru – é um exemplo de transmissão e de proteção do conhecimento, bem como a presença da língua guarani mbya em duas Terras Indígenas da cidade de São Paulo. Povos que desenvolvem seus conhecimentos e suas línguas como um modo de manter vivo o cultivo dos saberes ancestrais existem e resistem ao apagamento cultural.

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