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Melancolia em romances fictícios
CINÉFILOS
14 nov 2020 | Por Sebastião Moura (sebastiaomoura42@usp.br)

O filósofo grego Aristóteles, em sua obra Arte Poética, ao defender a superioridade da Tragédia como formato teatral, descreve catarse como uma experiência de purificação das emoções, em que, ao entrar em contato com a representação de sentimentos na linguagem artística, a plateia é capaz de liberar os seus próprios sentimentos.

Séculos depois, o médico Josef Breuer usaria o mesmo termo para descrever o processo pelo qual, sob hipnose, seus pacientes eram capazes de falar sobre acontecimentos traumáticos e, por meio dessa verbalização, aliviarem suas angústias. Estabelecendo, assim, as primeiras descobertas a partir das quais Sigmund Freud desenvolveria a psicanálise.

É evidente como, historicamente, as artes dramáticas estiveram intimamente conectadas com a emotividade humana, servindo, inclusive, como uma ferramenta para encarar partes especialmente difíceis dessa sensibilidade.

A reação emocional provocada pelo cinema, assim como qualquer forma de arte narrativa, parte em termos básicos da empatia. De acordo com a teoria estética da Einfühlung (uma palavra alemã que significa “sentir com”), a empatia não é simplesmente o compartilhar do sentimento do outro (nesse caso, um personagem), mas a forma como os diferentes componentes estéticos de uma obra  – o texto, a performance, a trilha sonora, a iluminação – se combinam para catalisar na audiência uma reação emocional que parte de sua própria subjetividade.

Aquilo que sentimos ao entrar em contato com uma obra cinematográfica parte de um lugar bastante pessoal da nossa própria experiência de mundo, se construindo a partir de uma série de sensações com as quais o público está familiarizado.

Juno (Ellen Page) e Mark (Jason Bateman) assistindo um filme em Juno [Imagem:Reprodução/ Fox Searchlight Pictures]

Mas, ao mesmo tempo, o cinema também é precisamente o oposto disso. De fato, um dos maiores atrativos dessa mídia é o potencial de levar aquele que assiste a mundos completamente diferentes do seu. Através da ficção, abre-se um portal para que pessoas vivenciem situações completamente extraordinárias ou simplesmente desconhecidas  – como visitar um país onde nunca esteve ou uma época em que não estava vivo para presenciar, lutar com um dragão, investigar um crime elaborado ou viver uma conturbada história de amor.

O familiar é apenas o tijolo a partir do qual o cinema constrói uma experiência. Um pouco como os extratores no longa A Origem (Inception, 2010), que usam detalhes de memórias para criar sonhos completamente novos, cineastas usam a linguagem cinematográfica (composta de uma combinação de texto, imagem, som, música e performance) para estimular micro sensações universais, combiná-las e exagerá-las, de forma a criar na imaginação do espectador uma lembrança de algo que nunca aconteceu.

Nisso reside a magia do cinema: a combinação de uma série de elementos íntimos e familiares em algo essencialmente alienígena.

Esse produto imaginário, feito intrinsecamente de emoção, em alguns de seus melhores exemplares, captura a pluralidade da subjetividade humana no modo em que contém sentimentos conflitantes, ou até contraditórios. Como as esferas de memória multicoloridas do final de Divertida Mente (Inside Out, 2015), alguns dos filmes mais interessantes são marcados pela multiplicidade paradoxal de afetos que os constituem. Eles são obras que nos atraem por motivos que vão além de pura diversão, podendo inclusive cativar nosso interesse justamente pelo desconforto que nos causam, exemplificando a relação complexa que temos com a arte.


Memórias base com múltiplas emoções de Divertida Mente [Imagem: Disney Wiki/ Reprodução]

Namorados para Sempre (Blue Valentine, 2010) é um desses. A sacada genial do filme é fazer com o romance aquilo que O Irlandês (The Irishman, 2019) faria com o filme de máfia quase dez anos depois: acompanhar os personagens por mais tempo do que o convencional para o gênero e explorar uma realidade crua e genuinamente trágica nesse epílogo.

Em O Irlandês, o diretor Martin Scorsese retrata Frank Sheeran (Robert De Niro) e os outros personagens pelos momentos tradicionais de uma trama de máfia: a iniciação, as provações e traições. Mas, mesmo depois de os conflitos externos que regem a história serem resolvidos, a câmera continua seguindo os  personagens à medida que envelhecem, acabam presos ou internados e morrem.

No seu auge, mostrado nos primeiros atos do longa, o personagem de De Niro e aqueles ao seu redor detiveram poder sobre as vidas de várias pessoas, impondo sua vontade por meio da violência e da política. No fim de sua vida, abandonado pela sua família por causa de todas as coisas terríveis com as quais se envolveu, a única escolha relevante que resta a Frank é escolher o modelo do caixão em que será enterrado.

Terminar O Irlandês deixa o espectador com um gosto ruim na boca e em um estado de reflexão sobre a mortalidade e a futilidade das ambições terrenas. É poderoso.

Robert de Niro em O Irlandês [Imagem: Reprodução/Netflix]

Já em Blue Valentine, o enredo segue o desenrolar de eventos que culminam na separação do casal Cindy (Michelle Williams) e Dean (Ryan Gosling). A atmosfera geral do filme é pesada e angustiante, envolvendo a audiência no clima sufocante que representa o estado deprimente e amargo da relação dos dois.

As cenas do presente são intercaladas com flashbacks de cinco anos antes, quando os dois se conheceram e se casaram. O contraste entre os dois momentos, o início e fim do relacionamento, é visto principalmente nos diálogos e na performance da dupla principal, na linguagem corporal e na comunicação entre os dois, e intensifica o impacto da tristeza envolvida no rompimento.

Existem semelhanças com Antes da Meia-Noite (Before Midnight, 2013), conclusão da Trilogia Before de Richard Linklater. Apesar de os filmes de Before em geral terem um tom drasticamente positivo (e não concluírem com uma separação), Before Midnight compartilha alguns temas de degradação de um casamento com Blue Valentine.

E há algo de indiscutivelmente diferente em rever Antes do Amanhecer (Before Sunrise, 1995), primeiro filme da trilogia, em que os protagonistas Jesse (Ethan Hawke) e Celine (Julie Delpy) se conhecem, depois de se ter assistido ao terceiro filme.

Os momentos românticos entre os dois, já cativantes da primeira vez, ganham um significado ainda mais especial quando vistos com o conhecimento de o que aquele relacionamento vai se tornar no futuro. Não só isso, um olhar atento para pequenos elementos do primeiro encontro, diálogos e atritos banais à primeira vista, pode até encontrar as sementes de conflitos que tomariam maior proporção mais à frente. Para alguém que goste do filme, a sensação de assistir Before Sunrise pela primeira vez é como se apaixonar. Mas a sensação de vê-lo em retrospecto é de nostalgia.

O efeito alcançado em Blue Valentine, com a justaposição de passado e presente, é uma fusão em que o deleite de Cindy e Dean se apaixonando e o desgosto deles passando a ressentir um ao outro se diluem em uma melancolia que permeia a obra. Cada gesto belo do passado se torna agridoce quando comparado à frieza com que eles se tratam no presente. O diálogo, o flerte e o sexo entre eles mais jovens só tornam mais dolorosa a gritante falta de sintonia a que eles chegaram no casamento.


Michelle Williams (Cindy) e Ryan Gosling (Dean) em Blue Valentine [Imagem: Reprodução/Paris Flmes]

Além do puro impacto, também funciona em um nível simbólico: de certa maneira, o constante embate entre uma memória de quando as coisas eram melhores e a dura realidade do que elas se tornaram ilustra bem a inércia emocional e a relutância em sair da zona de conforto que mantém relacionamentos falidos sustentados por uma conexão frágil com uma afinidade que já se foi.

*Capa: [Imagens: dos filmes Antes do amanhecer (Warner Bros), Antes da meia-noite (Diamond Films) e Namorados para Sempre (Paris Filmes)]

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O Cinéfilos é o núcleo da Jornalismo Júnior voltado à sétima arte. Desde 2008, produzimos críticas, coberturas e reportagens que vão do cinema mainstream ao circuito alternativo.
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