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O boicote dos jogadores da NBA e seu posicionamento político
ARQUIBANCADA
13 nov 2020 | Por João Timm (joaotimm@usp.br)

No dia 11 de março, a National Basketball Association (NBA) foi a primeira grande liga esportiva a paralisar suas atividades em função da pandemia do coronavírus. Minutos antes do início do jogo entre Oklahoma City Thunder e Utah Jazz, a liga adiou a partida após o jogador do Jazz, Rudy Gobert, testar positivo para o vírus. Inicialmente seria apenas a transferência de datas dos jogos, mas horas depois o comissário da liga, Adam Silver, anunciou sua suspensão total.

A partir desse dia já se iniciaram as especulações sobre quando e como seria o retorno da NBA, afinal dias e semanas tornaram-se meses de paralisação. Porém, em maio, o debate, que antes era protagonizado pela liga e profissionais de saúde, passou a ser liderado por outro agente: os jogadores, motivados pelo assassinato de mais um homem negro pela polícia.

No dia 25 de maio, George Floyd morreu asfixiado após um policial ajoelhar em seu pescoço por 8 minutos e 46 segundos ininterruptos. Iniciou-se uma convulsão social nos Estados Unidos. Protestos tomaram todo o país e o mundo enquanto o emblemático coro de Black Lives Matter (Vidas Negras Importam) retornava com vigor à boca do povo.

No mesmo período, foi apresentada uma proposta de retorno aos jogos da NBA: reunir os times em Orlando, na Flórida, nos hotéis dos Parques Disney, onde ficariam isolados por quase três meses; a chamada “bolha”. Os jogadores, por sua vez, que são em sua grande maioria — 81,1% — negros, começaram a se questionar se deveriam aceitar a proposta, afinal não queriam que a atenção e o debate público saísse dos protestos contra a brutalidade policial.

Após dias de discussão entre a liga e a National Basketball Players Association (NBPA), houve um acordo. Para que os jogos pudessem ser retomados chamando atenção para os protestos, nas quadras estaria impresso Black Lives Matter, enquanto os jogadores, na parte de trás de suas camisas, poderiam escolher uma mensagem para escrever próxima a seus nomes — “vote”, “diga seus nomes” e “quantos mais” são algumas de uma lista de mensagens aprovada entre a NBA e a NBPA. Assim, foi decidido que os jogos seriam retomados.

Imagem da quadra da “bolha” em Orlando, com os dizeres ”Black Lives Matter” [Imagem: Reprodução/Twitter @malika_andrews]

Um total de 22 times (13 da Conferência Oeste e 9 da Leste) chegaram em Orlando no final de julho para disputar as vagas nos playoffs, e os atletas seguiram seus posicionamentos. Levantavam o assunto dos protestos durante coletivas de imprensa, traziam mensagens nas roupas, mantinham-se sempre ativos nas redes sociais e, talvez a imagem mais emblemática, ajoelhavam durante o hino nacional, fazendo referência ao ex-jogador de futebol americano Colin Kaepernick e seus protestos.

No fim de agosto, porém, os jogos foram paralisados novamente. Danilo Castro, ex-jogador de basquete e comentarista da NBA na Band, conta que os jogos foram paralisados como uma manifestação contra “a morte de pessoas negras de forma violenta pela polícia, entre outros casos de racismo”. E acrescenta, “mortes que poderiam ter sido evitadas e que começaram a acontecer com frequência nos Estados Unidos”.

No dia 23 daquele mês, em Kenosha, no estado de Wisconsin, Jacob Blake foi baleado em suas costas por policiais, intensificando a revolta da sociedade e, consequentemente, dos jogadores. Três dias depois, minutos antes de sua partida contra o Orlando Magic, no primeiro round dos playoffs, os jogadores do Milwaukee Bucks decidiram não sair do vestiário em protesto. Eles divulgaram um depoimento exigindo a responsabilização dos policiais envolvidos, também dizendo que se sentiam particularmente afetados por Milwaukee estar a apenas 65 km de Kenosha.

O que os Bucks começaram se espalhou pela liga. Todos os jogos do dia foram boicotados. Meses de protesto levaram os jogadores até seu limite e culminaram em uma decisão que poderia muito bem ser chamada de greve. Mas 2020 não é um ano inédito se tratando de manifestações políticas por parte de atletas da NBA.

 

A segunda metade do século XX

A primeira das grandes participações de jogadores de basquete em eventos de relevância política aconteceu já no fim da década de 1960. Em 64, o astro do boxe Cassius Clay havia mudado seu nome para Muhammad Ali após converter-se ao islamismo, e três anos depois recusou-se a servir o exército americano na Guerra do Vietnã. Tendo ignorado sua convocação, Ali foi processado e condenado, mas recebeu uma oferta de acordo: ele seria inocentado caso aceitasse realizar exibições de boxe para os soldados.

Após a oferta dessa resolução do processo, foi organizado o Cleveland Summit, uma reunião com os mais famosos atletas negros de diferentes esportes da época que, liderados pelo ex-jogador de futebol americano Jim Brown, tentariam convencer Ali a aceitar o acordo. Porém, ao invés do acordo ser assinado, o pugilista conversou com os atletas e os convenceu de sua posição, e todos os reunidos acabaram declarando apoio a Muhammad Ali.

Entre os participantes estavam dois jogadores de basquete: Bill Russell, que estava às vésperas de se aposentar e hoje é o maior campeão da história da NBA, com 11 títulos; e o universitário Lew Alcindor, que mais tarde viria a mudar seu nome para Kareem Abdul-Jabbar e terminaria a carreira como maior pontuador da história da liga profissional.

Ambos os ex-atletas continuam sua atividade política até os dias de hoje. Bill Russell foi introduzido ao Hall da Fama do basquete em 1975, porém se recusou a receber seu anel pois não queria ser o primeiro atleta negro a receber a honraria, acreditava que outros deveriam entrar antes dele. O multicampeão com o Boston Celtics veio a receber seu anel apenas em 2019, em uma cerimônia privada. Enquanto isso, Abdul-Jabbar assinou uma coluna no Los Angeles Times no dia 30 de maio deste ano — cinco dias depois do assassinato de George Floyd — discorrendo sobre o cenário político social do país, entitulada “Não está entendendo os protestos? O que você está vendo são pessoas que foram levadas ao limite”.

Ainda assim, Russell e Abdul-Jabbar eram uma minoria na época: poucos jogadores se arriscavam a expôr suas opiniões para além do basquete. Em 1972, em uma entrevista à revista Black Sports, o então armador do New York Knicks, Earl Monroe, ao ser questionado sobre a manifestação dos atletas, contou que “existem vários jogadores que querem fazer diversas coisas, mas eles não estão em um lugar que possibilite isso”. “O público tem que entender que, se eu sou um jogador profissional de basquete, e eu não tenho muitas opções do que fazer além de jogar basquete, eu vou ter que fazer escolhas para tentar manter meu emprego, como ficar calado”, continuou.

O exemplo mais célebre dessa atitude ocorreu no ano de 1990, quando Michael Jordan, um dos maiores astros do esporte mundial, recusou-se a declarar apoio à candidatura de Harvey Gantt ao Senado. O candidato do Partido Democrata, negro, que fundamentava sua campanha na luta pela igualdade racial, estava concorrendo pelo estado da Carolina do Norte, onde o jogador fez faculdade. Quando questionado sobre o motivo de não apoiar o político, Jordan respondeu que “republicanos também compram tênis”, referindo-se à sua icônica marca Air Jordan.

Essa situação não se encaixa exatamente no descrito por Monroe, visto que o emprego de Jordan nunca esteve ameaçado por ele ser o melhor jogador da liga, mas apenas por uma possível queda nas vendas de sua linha de tênis. Kareem Abdul-Jabbar, em 2015, falou sobre como enxergava a atitude de MJ: “Você não pode estar com medo de perder vendas de tênis se seus direitos civis e humanos estão em risco” — o candidato que concorreu contra Gantt, e venceu, teve uma carreira política marcada por acusações de racismo. “Ele escolheu o comércio ao invés da consciência. Foi uma decisão infeliz por parte dele, mas ele tem que viver com isso”, completou Abdul-Jabbar.

 

The Decision e o posicionamento dos jogadores

A partir dos anos 90, a NBA teve um grande desenvolvimento econômico em função da popularização da liga em diversos países do mundo. Muito por causa de Michael Jordan, era tarefa difícil encontrar alguém que não conhecesse seu nome ou os de outros astros do basquete. E os atletas também foram beneficiados por essa popularização: com mais dinheiro entrando no mercado, seus contratos, tanto com os times, quanto com marcas em busca de publicidade, também aumentaram.

A seguridade econômica não era mais uma ameaça como antes, mas, ainda assim, a influência de jogadores estava longe de ser como a dos executivos e donos de times, enquanto comentários políticos seguiam raros. O grande indicador de uma mudança nesse cenário aconteceu apenas em 2010, quando LeBron James, duas vezes eleito Most Valuable Player (MVP) e considerado por muitos o melhor jogador na época, decidiu assinar com o Miami Heat.

O anúncio foi feito em uma transmissão de 1h de duração na ESPN, intitulada The Decision, e a receita da audiência foi convertida para uma instituição de caridade. Enquanto torcedores de seu antigo time, o Cleveland Cavaliers, eram tomados pela raiva vendo a saída de seu astro, e fãs do Heat comemoravam a chegada do MVP — e a de outro all-star que chegava junto a ele, Chris Bosh, do Toronto Raptors. Aquele momento indicava uma mudança de paradigma na liga: pela primeira vez, um jogador era o grande responsável por articular uma mudança no cenário do esporte; os atletas agora tinham esse poder.

A partir daquele ano, vem sendo mais comum ver protestos por parte dos jogadores, especialmente contra a brutalidade policial e o racismo estrutural. Em março de 2012, LeBron James e o time do Miami Heat postaram uma foto vestidos todos com um moletom com capuz preto em solidariedade à família do adolescente Trayvon Martin. O jovem de apenas 17 anos foi baleado por um policial que se justificou dizendo que Martin “tinha uma aparência suspeita por usar um moletom preto com capuz”, em fevereiro daquele ano.

O caso de Trayvon Martin é hoje é símbolo da luta pela igualdade racial, pois em julho do ano seguinte ao assassinato, o policial responsável foi absolvido das acusações. Foi como resposta ao resultado do processo que nasceu a hashtag e o movimento Black Lives Matter.

Imagem publicada por LeBron James e a equipe do Miami Heat em homenagem a Trayvon Martin [Imagem: Reprodução / Twitter @KingJames]

Poucos anos depois, em dezembro de 2014, uma série de jogadores de grande nome, como Derrick Rose, Kobe Bryant, Kyrie Irving, LeBron James, entre outros, usaram camisas dizendo I Can’t Breathe (Eu não consigo respirar) antes de jogos em protesto pelo assassinato de Eric Garner. O caso ocorreu em julho daquele ano, quando ele foi sufocado por policiais que o abordaram por suspeitarem da venda de cigarros contrabandeados. Garner disse que estava cansado de ser assediado por policiais, que responderam de forma violenta e o asfixiaram — o caso foi gravado, e Eric repetiu inúmeras vezes “I Can’t Breathe”. Em dezembro, foi divulgada a decisão judicial de não processar os policiais, que reacendeu os protestos e revoltas.

 

Shut up and dribble

A partir de 2016, jogadores passaram a se posicionar de forma mais abrangente ao falar sobre o contexto político social do país após a eleição do candidato republicano Donald Trump à presidência. Nos anos seguintes, 2017 e 2018, a equipe do Golden State Warriors, que foi campeã em ambas as temporadas, não compareceu à tradicional visita dos campeões à Casa Branca. Um dos principais jogadores do time, Stephen Curry, afirmou em 2017 que não compareceria, o que fez Trump retirar o convite. No ano seguinte, o time manteve a mesma postura.

Em fevereiro de 2018, às vésperas do All Star Game, foi divulgada uma entrevista com LeBron James, do Cleveland Cavaliers — o MVP havia retornado ao time em 2014 —, e Kevin Durant, que naquele ano seria bi-campeão com os Warriors. A entrevista ganhou bastante audiência pois, além dos atletas serem considerados os dois melhores jogadores da liga, eles haviam se enfrentado nas finais da temporada anterior. Nessa entrevista, James fez duras críticas ao presidente, afirmando que ele “não entende o povo, e não dá a mínima para o povo”.

Capa da entrevista com LeBron James (esquerda), Cari Champion (centro), e Kevin Durant (direita) [Imagem: Reprodução/ YouTube UNINTERRUPTED]

No dia seguinte à publicação, o vídeo foi assunto em um noticiário no canal Fox News, no qual a âncora do programa, Laura Ingraham, criticou o posicionamento dos jogadores. Ataques ao modo de falar, questionamentos sobre a inteligência dos atletas e a conclusão de falar para James e Durant manterem-se fora de assuntos políticos ficaram condensados na última frase dita por Ingraham: shut up and dribble (Calem a boca e batam bola).

Ao ser questionado em uma coletiva sobre tais comentários, James falou que “a melhor coisa que ela fez foi me ajudar a incentivar a conscientização” e que, no melhor fim de semana da NBA, “eu posso falar sobre injustiça social e igualdade”. “Nós com certeza não iremos calar a boca e bater bola”, completou.

 

2020

Mesmo durante a paralisação dos jogos durante a pandemia, os jogadores seguiram se manifestando contra a brutalidade policial e o racismo. Diversos deles compareceram e lideraram protestos de rua exigindo justiça por George Floyd, lado a lado com o resto da população, e foram acompanhados por outras celebridades, como rappers e cantores. Com a passagem dos meses, eles passaram a usar sua plataforma para se manifestar sobre outra questão buscando uma mudança social mais imediata: as eleições presidenciais de 2020 e a repressão de eleitores negros.

Os jogadores DeMar DeRozan (esquerda), do San Antonio Spurs, e Russell Westbrook (direita), do Houston Rockets, em um protesto em junho na cidade de Compton, Califórnia [Imagem: Reprodução/Instagram @demar_derozan]

Uma série de jogadores se juntou para criar iniciativas que visavam combater a supressão de eleitores afro-americanos e incentivar os cidadãos a se registrarem para votar. A mais popular delas foi liderada, novamente, por LeBron James, que junto com atletas de diferentes esportes e outras celebridades criou a plataforma More than a vote (Mais que um voto). O projeto teve diferentes frentes de atuação: auxiliar e orientar o registro de títulos eleitorais; acertar com donos de franquias esportivas a liberação de arenas para servirem como pontos eleitorais, fornecendo um local seguro para votar; organizar transportes coletivos para levar eleitores aos locais de voto; recrutar voluntários na comunidade negra para trabalhar nos pontos eleitorais.

Ainda que essas iniciativas tenham raramente usado o nome dos candidatos, elas assumidamente apoiaram, assim como a maioria dos atletas negros, o democrata Joe Biden, que concorreu contra o presidente Trump.

A chapa de Biden e sua vice, Kamala Harris — que será a primeira mulher, e negra, a ocupar o cargo de vice-presidente — impediu a reeleição de Donald Trump à presidência. Fora os conflitos e a polarização, as eleições de 2020 foram marcadas justamente pela grande participação de eleitores: tanto o recorde de votos a um único candidato quanto o de votos vindos da comunidade negra foram quebrados.

Posicionamento político no basquete além do boicote

Homepage do site do movimento “More than a vote” [Imagem: Reprodução/morethanavote.org]

Power to the players

O boicote dos jogadores da NBA logo se espalhou pelo cenário esportivo americano. Atletas de ligas como a WNBA, MLB, NFL, NHL, MLS e WTA interromperam suas atividades, fossem elas treinos ou jogos, em suporte e solidariedade às famílias vítimas da brutalidade policial.

Na mesma noite que os jogos foram cancelados, todos os jogadores se encontraram, em uma reunião fechada à imprensa e executivos, para discutir quais seriam os próximos passos após a decisão de boicotar os jogos. A grande maioria votou a favor da retomada dos jogos, conta Castro, afinal “o mundo inteiro estava de olho no término da competição”, o que daria “visibilidade à causa estando todos juntos e atuando nesse retorno”.

Uma ação conjunta de todos os jogadores de uma liga que decidiram não jogar como forma de protesto é inédita nos Estados Unidos. Hoje, mais do que nunca, os atletas têm poder sobre o ir e vir da liga, e esse ano deixaram claro que não serão ignorados. Mas ainda que o ano tenha sido marcado pela participação no contexto político e social do país, essa participação não acaba aqui.

O comissário da NBA já anunciou que na próxima temporada as mensagens de protesto contra a injustiça racial serão tiradas das quadras e uniformes. Silver justificou a decisão por entender aqueles que dizem “eu estou do seu lado, mas quero assistir a um jogo de basquete” — mesmo que não idêntico, esse discurso se aproxima muito do que disse Laura Ingraham a respeito do posicionamento político de atletas. A atitude cria uma sensação de falsa inclusividade e suporte aos atletas, especialmente porque o anúncio veio pouco tempo antes da época na qual os contratos entre a liga e seus principais parceiros e patrocinadores são renovados.

Para além das quadras, jogadores de basquete já estão se organizando para pressionar a aprovação de uma legislação que impeça policiais de saírem impunes de casos como os de Trayvon Martin, Eric Garner, George Floyd, Jacob Blake e muitos outros. Os atletas agora estão na liderança do movimento que luta pela igualdade racial, e da mesma forma que já foram capazes de afetar as eleições, eles farão sua influência ser notada em todo o cenário político americano.

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