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Uniforme para quem? A sexualização de atletas no esporte

Olimpíada de Tóquio reacende debate sobre o direito de escolha de vestimentas femininas em competições esportivas

Guarda-roupa
21 ago 2021 | Por Mariana Carneiro (marianacarneiro@usp.br) e Maria Vitória Faria (mvitoriafaria@usp.br)

A Olimpíada de Tóquio 2020, encerrada no dia 8 deste mês, bateu recorde de participação feminina, com as mulheres sendo 48% do total de atletas, segundo o Comitê Olímpico Internacional, e mais uma vez colocou em evidência as diferenças entre os uniformes utilizados nos jogos de modalidades masculina e feminina. É o caso de esportes como ginástica, vôlei e handebol de praia, nos quais os trajes deixam os corpos das mulheres mais à mostra do que seus correspondentes masculinos .

A discussão sobre o padrão de vestimenta ganhou força com a apresentação da seleção alemã de ginástica nas classificatórias, na qual as atletas vestiram macacões que cobriam as pernas, ao invés de collants. A ginasta Sarah Voss já havia utilizado trajes semelhantes no Campeonato Europeu de Ginástica, em abril de 2021. Em entrevista à emissora pública ZDF, a esportista conta que é um ato em protesto contra a sexualização das ginastas, além de enfatizar como se sente mais confortável com o corpo coberto. Com esta medida, ela afirma que espera incentivar outras atletas que preferem competir dessa forma mas que não utilizam o modelo de uniforme longo por ser pouco comum, ainda que não seja proibido. 

 

Mulheres no esporte: Sarah Vossa, mulher branca, loira, vestida com macacão vermelho e branco, com a cabeça para baixo e pernas estendidas lateralmente em salto acrobático de ginástica artística.

A atleta Sarah Voss, precursora do movimento de mudança nos uniformes na seleção alemã, nas classificatórias da ginástica artística. [Imagem: Reprodução/Instagram/@sarah.vossi]

Por trás do collant

A professora estadunidense Emily Wughalter, em 1979, cunhou o termo pedido de desculpas feminino (female apologetic, no inglês), a respeito da importância social e convencional sobre as roupas das atletas. De acordo com Wughalter, é socialmente aceito que o universo desportivo é masculino e que, ao inserir-se nele, uma mulher precisa equilibrar-se e trazer à tona sua feminilidade. As roupas coloridas, brilhantes e justas, que geralmente deixam grande parte do corpo à mostra, assim como a utilização de maquiagem, são mecanismos, segundo a professora, utilizados para afastá-las da masculinidade e, durante muito tempo, do lesbianismo e do feminismo, movimentos vistos socialmente como distantes do feminino usual.

As mídias sociais também contribuem para reforçar esse estereótipo ao promoverem maior visibilidade de atletas que se encaixam nos padrões normativos, o que garante contratos com marcas esportivas, como analisado por Elizabeth Hardy, pesquisadora que atualizou os estudos de Wughalter.

Mulheres no esporte: mulher branca, jovem, com collant vermelho e dourado, braços esticados para trás, apoiando uma bola dourada nas costas, e perna direita estendida para cima

Maria Azevedo em uma de suas apresentações de ginástica rítmica, com a bola. [Imagem: Arcevo Pessoal]

Ter a possibilidade de escolher entre deixar o corpo à mostra ou não, para a ginasta rítimica Maria Eduarda Azevedo, é fundamental. Ela conta que, em seu esporte, embora seja possível optar por uniformes curtos ou longos, deixar as pernas e os braços de fora ajuda nas apresentações pelo atrito físico com a bola, com os bastões ou com as fitas. Durante a puberdade, ela se recorda de amigas ficarem constrangidas com os collants pela mudança corporal. “Sinto desconforto só quando estou naqueles dias em que tenho que usar absorvente e não fica muito confortável, mas não vejo outra saída por conta da necessidade do collant ser desse jeito, por precisar do atrito “, diz Maria.

A maquiagem, trazida por Wughalter como mecanismo de feminização e infantilização das atletas, não é um problema para a ginasta paranaense, uma vez que é obrigatória a utilização de uma maquiagem mais simples, sem haver necessidade de carregar o rosto. 

Contudo, mesmo sem uma experiência pessoal desconfortável durante seus treinos ou competições, Maria diz perceber uma sexualização maior na ginástica artística do que na rítmica, e acredita que as roupas compridas, como as utilizadas pelas ginastas alemãs, não atrapalhariam no desempenho desta modalidade.


O sexismo nas quadras

A discussão sobre a sexualização das atletas se estende a diversos outros esportes. Durante a Competição Europeia de Handebol de Praia de 2021, o time feminino norueguês foi multado em 1,5 mil euros (cerca de 9,2 mil reais) por vestir shorts ao invés dos tradicionais biquínis exigidos no esporte. Inconformada com a atitude europeia, a cantora norte-americana Pink manifestou seu repúdio nas redes sociais e se dispôs a pagar a multa para as atletas, pois entende esse movimento como necessário para mudar uma cultura machista. Segundo regras da Federação Europeia de Handebol, as vestimentas não poderiam ultrapassar 10 centímetros de largura lateral.

 

Mulheres no esporte: 12 mulheres brancas, com tops vermelhos e shorts azuis (exceto as três do centro, que têm o uniforme totalmente azul), abraçadas umas às outras pelos ombros.

Uniforme que resultou na penalização da equipe norueguesa de handebol feminino na Competição Europeia de Handebol de Praia de 2021. [Imagem: Reprodução/Twitter/@NORhandball]


Algo similar ocorre no vôlei de praia, que teve seus uniformes femininos e masculinos bastante comparados durante a Olimpíada de Tóquio — enquanto as atletas competiam vestindo biquínis, o time masculino estava autorizado a vestir shorts mais compridos.

Fernandinha Ferreira, que conquistou o ouro olímpico no vôlei feminino de quadra durante a Olimpíada em Londres, em 2012. [Imagem: Reprodução/Wikimedia Commons]

Embora o uniforme curto possa ser benéfico em determinadas situações — durante temporadas de muito calor, por exemplo, ou para atletas que se sintam mais confortáveis vestindo-os — a falta de outras opções é o que incomoda as jogadoras. Assim como Maria Eduarda, a voleibolista Fernandinha Ferreira reforça a importância da liberdade de escolha da vestimenta: “A atleta deveria poder optar. Às vezes a menina não quer jogar de biquíni. Elas deveriam ter o direito de escolha”.

Os uniformes do vôlei de quadra, modalidade na qual Fernandinha jogava, apresentam mais opções. Segundo a atleta, os times podem escolher jogar com shorts curtos, longos, ou até mesmo shorts saia. A conquista de uniformes diversos, no entanto, é algo relativamente novo no esporte. Pouco mais de 20 anos atrás, ainda na década de 1990, a Federação Internacional de Vôlei determinou que atletas deveriam vestir “macaquinhos”, peças únicas compostas por shorts curtos, em competições oficiais. Na época, as voleibolistas brasileiras ironizaram a situação e compararam seus uniformes aos figurinos de Carla Perez, dançarina do grupo de pagode É o Tchan

O desconforto das atletas com as vestimentas levou o time brasileiro a ser multado pelo uso de uniformes muito largos no Mundial de 1998, situação similar à recente polêmica no handebol de praia. “A gente se ralava bastante, machucava, mas eu nunca tinha nem me questionado sobre outras opções. Depois começamos a jogar de shorts, e no início era até estranho, mas confesso que depois eu preferi. Ele era mais confortável, e não tem que se preocupar se tá aparecendo o bumbum, a calcinha”, conta Fernandinha, que iniciou sua carreira no vôlei profissional ainda na época em que os uniformes curtos eram regra nas quadras.

 


Dois pesos e duas medidas 

Por outro lado, a exposição do corpo feminino no esporte também está sujeita a críticas. Recentemente, a bicampeã paralímpica Olivia Breen compartilhou em suas redes sociais que, durante o Campeonato Inglês de Atletismo, uma árbitra questionou o comprimento da sunga esportiva que usava por considerá-la “muito curta e inapropriada”. A atleta rebateu, afirmando que a vestimenta foi desenvolvida especialmente para competições, e indagou se um homem seria criticado da mesma forma.

O incidente explicita a pressão estética sofrida por mulheres no esporte, que são julgadas por mais do que apenas seu desempenho em suas modalidades. Ainda em seus estudos sobre o pedido de desculpas feminino, a professora Elizabeth Hardy abordou o fato de que, na Olimpíada de 2016, a cobertura do vôlei de praia feminino parecia focar mais no corpo das atletas do que no esporte em si. Em competições, a performance de feminilidade é tão incentivada quanto a performance esportiva, e as atletas devem dominar ambas as habilidades para alcançar a excelência. Além de treinar o físico, a preparação para campeonatos exige acertar o comprimento adequado de suas vestimentas e a quantidade de maquiagem. O mesmo não ocorre com esportistas homens, que têm menos requisitos de aparência considerados como critérios.

 

Uniformes masculinos e femininos exigidos na Competição Europeia de Handebol de Praia de 2021, lado a lado. [Imagem: Reprodução/Federação Norueguesa de Handebol]

 

A nadadora Maria Lenk, primeira brasileira a participar de uma Olimpíada, em 1932.[Imagem: Reprodução/Wikimedia Commons]

Segundo Hardy, o controle das vestimentas femininas resulta da necessidade das competições em conquistar mais espectadores e garantir lucro, o que é feito por meio do apelo visual. A ação reforça a ideia patriarcal de que o papel social da mulher é de exposição de uma boa aparência e, indiretamente, estimula a mentalidade de que o esporte é uma atividade masculina. Por séculos, a participação em competições esportivas foi reservada a homens. Foi somente no ano de 1900, após diversos protestos, que as mulheres conquistaram o direito a competir nas Olimpíadas — apenas no tênis e golfe, esportes considerados adequados ao feminino por não possuírem contato físico —, e sem poder receber medalhas. Até então, a concepção do evento ia ao encontro do pensamento do francês Pierre de Coubertin, considerado o criador dos Jogos Olímpicos na Modernidade, que, à época, expôs quão indecente acreditava ser a participação feminina nos esportes, uma vez que elas deveriam destinar suas forças ao cuidado com os filhos. A primeira aparição feminina brasileira, inclusive, foi apenas em 1932, ano em que as mulheres conquistaram o direito ao voto no país.

Embora a inclusão feminina nos esportes tenha sido tardia, principalmente nas Olimpíadas, o movimento atual de posicionamento na decisão sobre o que vestir empodera e influencia outras atletas a defenderem o que lhes garante uma melhor experiência no esporte — seja manter os trajes como são, seja modificá-los. 

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