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Nas entrelinhas de “Lavoura Arcaica”
Na Estante
24 set 2016 | Por Jornalismo Júnior

Antes de tudo, é preciso elucidar aqui que Lavoura Arcaica não é uma obra comum. Longe disso, é sem igual na literatura contemporânea brasileira. Publicado em 1975, o livro faz parte do pequeno conjunto de obras de Raduan Nassar, escritor ganhador do Prêmio Camões 2016.

Permeada de simbologia e referências externas, a história é narrada em primeira pessoa, sendo refratada através da mente de André, personagem principal e que desencadeia toda a problemática da história. Ao fugir de casa sem dar explicações para a família, André é procurado pelo irmão mais velho, Pedro, que tenta a todo custo convencê-lo a voltar. A partir deste ponto do livro é que o leitor, junto com Pedro, começa a tomar conhecimento do que se passa com André e do que motivou sua partida.

Parte de uma família que vive sob rígidas regras e costumes e sem encontrar uma maneira de dar voz às suas angústias, prefere isolar-se do convívio de todos, não colaborando inclusive no plantio e sustento da casa. Uma das formas de escape que encontra é o prazer sexual, que quase sempre encontra sozinho em meio a natureza ou num casebre abandonado. Porém, o estopim da tragédia familiar que marca o livro acontece quando André se descobre perdidamente atraído pela irmã, Ana, e quando ambos consumam esta paixão numa relação sexual incestuosa.

Quando se dá conta do ocorrido, Ana parece se arrepender e tenta se redimir em fervorosas orações. André, contudo, implora a todo custo o amor da irmã, prometendo-lhe mudar radicalmente seu comportamento com a família e esforçar-se para ser melhor, contanto que Ana lhe corresponda. Percebendo que esta não voltaria atrás em sua decisão, André foge de casa e de tudo o que acontecera ali.

A partir deste ponto do livro é narrada a volta de André para a casa junto com Pedro. Em talvez um dos pontos mais altos da narrativa, o protagonista, na noite em que chega em casa, trava uma discussão com o pai, que é tido como a autoridade e modelo da família. Tenta traduzir em palavras sua angústia e inconformidade com a maneira como a família é regida, mas o pai pouco parece, ou ao menos tenta, compreender.

Apesar de ter regressado, André continua a não pertencer àquela família. Por fim, acaba ainda naquela noite aliciando seu irmão mais novo, Lula, quando por um segundo enxerga nos olhos dele os olhos de Ana.

No dia seguinte a tragédia se encerra, quando na festa de recepção que a família faz para André, Ana aparece dançando enfeitada com acessórios profanos que o irmão trouxera dos dias que passara fora de casa. Pedro, já não suportando mais guardar o segredo diante daquela cena, revela ao pai todo o ocorrido. Neste momento, o pai mata Ana e subentende-se que este morre também logo em seguida.

Lavoura Arcaica é uma obra permeada de segredos que em um primeiro instante ocultam-se do leitor, exigindo deste uma grande abstração que lhe permita fazer associações com outras obras, em especial com os textos bíblicos. As referências ao antigo testamento estão presentes em toda a obra, através da figura do filho pródigo, do pastor e suas ovelhas e da ordem que rege a família, fortemente alicerçada em princípios bíblicos que se manifestam até mesmo nas refeições, em que se partilha o pão entre todos na mesa.

Por fim, o autor acaba não disatando diversos nós da narrativa e da cabeça do leitor, deixando uma insolúvel dúvida de tudo o que realmente se passou. Afinal, até que ponto não fora tudo isso simples fruto da imaginação de André?

Por Taís Ilhéu
taisilheusouza@gmail.com

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