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45ª Mostra Internacional de SP | ‘O Atlas dos Pássaros’

Longa de Olmo Omerzu traz uma reflexão tragicômica sobre a alta sociedade

CINÉFILOS
04 nov 2021 | Por Mariana Carneiro (marianacarneiro@usp.br)

A moralidade e as relações de um CEO multimilionário são temas do longa O Atlas dos Pássaros (The Bird Atlas, 2021), da República Tcheca. A comédia dramática foi destaque no Festival de Karlovy Vary.

Ivo Rona (Miroslav Donutil), rico dono de uma multinacional, é internado com problemas no coração pouco após perceber que havia algo de errado em sua empresa. Seus filhos, interessados em tomar as rédeas da companhia para si, logo descobrem que algum funcionário havia desviado uma alta quantia em dinheiro da corporação. Outra revelação — ainda que menos impactante para os herdeiros, que assim como o pai, pouco se importavam com a união familiar — foi a existência de diversos contatos de amantes, salvos com o nome de pássaros, no celular de Ivo.

Os dois filhos de Ivo e seu genro, à direita. [Imagem: Divulgação/Endorfilm]

Os dois filhos de Ivo e seu genro, à direita. [Imagem: Divulgação/Endorfilm]

Esse não é o único elemento em O Atlas dos Pássaros que referencia seu título: aves de espécies variadas também participam do longa como coadjuvantes, comentando as situações vividas pela família Rona ou declamando máximas anticapitalistas entre uma cena e outra.

A primeira fala de um pássaro no filme vem de um pombo que, pousado na janela do patriarca, profere que vale muito mais a pena ser pobre e livre do que rico. A cena, inesperada, teria um maior impacto se não voltasse a se repetir, mas as intermissões de aves são constantes e desconexas. Um único pombo se opondo ao sistema econômico não incomodaria, mas é difícil manter o interesse nas contínuas frases de efeito sobre desigualdade social, fragilidade das relações e até mesmo aquecimento global que surgiam aleatoriamente durante o filme. 

Ainda assim, o enredo se desenrola de maneira cativante. A investigação dos desvios avança e recai sobre Marie (Alena Mihulová), tímida contadora que saiu de férias sem dar explicações. Ivo, agora recuperado — ainda que desmaie sempre que alguém menciona o desfalque sofrido pela empresa —, decide ir atrás da funcionária para confrontá-la.

Cena de Ivo, seus filhos e Marie investigando o sumiço do dinheiro.  [Imagem: Divulgação/Endorfilm]

Cena de Ivo, seus filhos e Marie investigando o sumiço do dinheiro. [Imagem: Divulgação/Endorfilm]

A personalidade egocêntrica do protagonista também exerce um papel central em O Atlas dos Pássaros. Inconformado com o desastre em sua vida profissional, Ivo parece não se importar com o impacto de suas ações na vida dos outros, e deliberadamente toma decisões que o isolam. A subtrama de Marie, no entanto, é mais interessante do que qualquer episódio na vida do milionário. A tocante atuação de Mihulová potencializa a solidão e alienação, em grande parte causadas por Ivo, atribuídos à personagem.

O Atlas dos Pássaros é uma obra melancólica e, de sua própria maneira, engraçada. Definitivamente há algo de tragicômico na história de um homem rico que, após dedicar sua vida inteira aos negócios, desprezar a família e colocar a própria saúde em segundo plano, se vê em meio a um caos causado por suas próprias atitudes. Talvez os pássaros representem o exato oposto — não possuem nada, estão livres para voar e conseguem ver os problemas que Ivo escolhe ignorar. Ou talvez eu esteja me esforçando demais para encontrar algum sentido em pássaros falantes.

Esse filme faz parte da 45ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Para mais resenhas do festival, clique na tag no final do texto. Confira o trailer: 

*Imagem de capa: Divulgação/Endorfilm

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