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Observatório | O fenômeno dos sommeliers de vacina

ESCOLHA POR DOSES DE FABRICANTES ESPECÍFICOS PODE PREJUDICAR O AVANÇO DA IMUNIZAÇÃO E ADIAR O CONTROLE DA PANDEMIA

Corpo e Mente
04 jul 2021 | Por Eduarda Ventura (eduardaventura@usp.br) e Mariana Carneiro (marianacarneiro@usp.br)

Coronavac, Pfizer, AstraZeneca e Janssen. A grande variedade de vacinas disponíveis no Brasil trouxe esperança para uma melhora no quadro da pandemia, que, em pouco mais de um ano, causou meio milhão de mortes no país. O lento processo de vacinação ganhou possibilidade de avanço com a chegada de doses de diferentes fabricantes, essenciais para alcançar a imunização em massa. No entanto, em meio à desinformação e fake news,  a busca por doses de marcas específicas tomou conta das principais cidades brasileiras: são os “sommeliers de vacina”, como ficaram conhecidos nas redes sociais.

Os motivos para a seleção de vacinas de determinados fabricantes são variados. Para João*, estudante de medicina em São Paulo, o receio com o nível de eficácia da Coronavac e os possíveis efeitos colaterais da AstraZeneca o levaram a procurar pela vacina da Pfizer. 

“Eu fui em cinco postos no total, em três dias diferentes. Ainda que eu acredite que todas as vacinas sejam boas, elas possuem diferenças e existem prós e contras para cada uma. Como muitas pessoas não se importam em escolher, eu acho que não tem nada de mais em procurar a que você quer. A gente escolhe até carro, que não é tão importante”, afirma.

A vacinação no Brasil segue a passos lentos. Portanto, a escolha pelo fabricante da vacina pode atrasar ainda mais o processo [Imagem: Reprodução/Freepik]

Qual o problema em buscar vacinas específicas?

Especialistas acreditam que a prática atrasa o calendário de vacinação no país, e reforçam que todas as vacinas são seguras e eficazes. Carla Souza, especialista em imunologia pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), afirma que vacinas de qualquer fabricante previnem a forma grave da doença. “Acredita-se que, no mínimo, 70% da população deve estar vacinada para o controle do COVID-19. Logo, não é admissível deixar de se vacinar quando não há doses de determinado fabricante”, completa a médica.

A redução nos números de casos, internações e mortes são outras evidências claras da eficácia das vacinas. Para a especialista, essa melhora foi perceptível: “Hoje, com a maioria dos idosos vacinados, eles se tornaram minoria nas UTIs de Covid”. A vacinação em massa dessa faixa etária, por exemplo, resultou em uma queda de 77% nas internações de idosos na Bahia entre os meses de março e junho, segundo dados da Secretaria de Saúde do estado.

 

Se as diferenças entre as eficácias gerais das vacinas são tão grandes, elas não devem ser levadas em consideração?

Quando a eficácia das vacinas é analisada, os resultados detalhados, além dos gerais, podem mudar as perspectivas: a CoronaVac, por exemplo, comumente colocada como menos eficaz do que as outras, se mostrou 100% eficaz nos casos moderados e graves, e 78% eficaz nos casos leves da COVID-19, segundo dados do Instituto Butantan. 

Isso significa que, se as duas doses são aplicadas de forma adequada, aumenta o potencial de queda no número de internações pela doença. Atualmente, nenhuma vacina apresenta 100% de eficácia, não somente contra a COVID-19, mas contra qualquer outra doença. Esse fator, somado às novas variantes do vírus que surgem, explicam porque as mortes não zeram, mesmo após a vacinação. 

Além da proteção individual através da vacinação, as medidas de proteção, como máscaras e o distanciamento social, devem ser mantidas até que a maior parte da população esteja vacinada, para que a chamada “imunidade de rebanho” seja alcançada. Até lá, não há garantia de que os vacinados não possam ser vetores do Coronavírus, ou seja, transmissores da doença para outras pessoas que ainda não tomaram a vacina e que, por sua vez, podem apresentar sintomas graves. 

 

As vacinas foram desenvolvidas às pressas? 

A Dra. Carla explica que “a pandemia trouxe a necessidade de uma vacina pronta mais rápido do que o usual, mas a tecnologia e estudos já em andamento garantiram a segurança e liberação para uso emergencial”. Além disso, todos os fabricantes distribuídos no Brasil foram aprovados pela Anvisa, órgão vinculado ao Ministério da Saúde que executa o controle sanitário no país. 

Sobre os efeitos colaterais, após a vacinação, as reações mais comuns incluem dor ou sensibilidade e inchaço no local da injeção, febre baixa e dor no corpo, segundo a Sociedade Brasileira de Imunizações. Também são comuns situações de fadiga e calafrios, de acordo com a Organização Mundial da Saúde. Contudo, esses sintomas —– que podem aparecer no momento da aplicação ou até 48 horas depois —– cessam em poucos dias e são normais, pois indicam uma resposta do organismo à vacina. 

Até o momento, a única vacina que possui contraindicações para um grupo específico é a AstraZeneca, evitada em gestantes devido à maior possibilidade de coagulação e, consequentemente, trombose. No entanto, a médica afirma que esses casos são extremamente raros e não devem ser motivo de preocupação para aqueles que não se encontram nessa condição — segundo registros da Agência Europeia de Medicamentos, apenas 0,0006% dos imunizados com a AstraZeneca na Europa apresentaram tais efeitos.

No início do mês de julho, segundo dados da Our World In Data, das 874 milhões de pessoas totalmente vacinadas no mundo, apenas 27 milhões pertenciam ao território brasileiro, [Imagem: Reprodução/Freepik]

Qual a melhor vacina?

Assim, a busca pela suposta melhor vacina encontra apoio nos mais diversos argumentos. João*, que possui 19 anos, evitou a vacina da Coronavac por desconfiar de sua baixa efetividade em jovens. “Ainda não há uma quantidade suficiente de vacinas no Brasil para reservar as melhores para cada idade. Quanto menor a idade de quem recebe a Coronavac, menor a eficiência, por exemplo”, afirma o estudante. Contudo, segundo a Dra. Carla, por mais que ainda não exista um consenso em relação à suposta maior efetividade da Coronavac em idosos — estudos são realizados com frequência, e sempre surgem informações novas — sua eficácia entre os jovens está comprovada

A procura pela Janssen, primeira vacina de dose única disponibilizada no Brasil, também virou tendência entre os Sommeliers. A necessidade de duas aplicações entre a maioria dos fabricantes é mais um desafio para a imunização no país, uma vez que diversas pessoas não voltam aos postos de saúde após a primeira administração da vacina. 

Entretanto, a segunda dose tem como intuito atingir níveis suficientes de anticorpos para a proteção contra a doença. “Se o fabricante preconiza uma segunda aplicação, é porque somente a partir dessa que se alcançará uma imunização ideal e prolongada”, finaliza a médica. 

 

*O nome sinalizado foi modificado a pedido do entrevistado.
** Imagem de capa: [Reprodução/Freepik]

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