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Como as vacinas revolucionaram a história da humanidade
História da Ciência
08 jul 2020 | Por Victoria Borges (victoriarborges@usp.br)

As vacinas são a forma mais segura e eficaz de proteção contra doenças. A partir da introdução de substâncias derivadas de agentes infecciosos no organismo, elas estimulam os glóbulos brancos (células de defesa do corpo) a produzir anticorpos para aquela doença específica, sem que haja manifestação dos sintomas. Assim, caso a pessoa entre em contato com essa doença no futuro, o corpo rapidamente reconhecerá o patógeno – ou seja, o causador da doença – e o destruirá. A realidade é que a utilização de imunobiológicos para a prevenção de doenças teve grande impacto na história da humanidade e, principalmente, da saúde coletiva.

Primordialmente, as vacinas eram feitas com o próprio agente infeccioso, extraído diretamente dos doentes e atenuado ou inativado em laboratório, de forma que ainda produzisse resposta imunológica em pessoas sadias sem que elas efetivamente adoecessem. Após processos de aperfeiçoamento, passaram a ser fabricadas com fragmentos dos patógenos (como as proteínas do envelope do vírus), também capazes de despertar uma reação imunológica no organismo, mas sem que a doença pudesse se manifestar. As vacinas mais modernas, por fim, são produzidas com base no DNA ou RNA do agente, utilizando a  recombinação genética. O desenvolvimento de técnicas mais aprimoradas para a confecção de novas vacinas garante ao processo de imunização maior segurança e eficiência.

 

O histórico de sucessos das vacinas

Foi na segunda metade do século 18 que o termo “vacina” apareceu pela primeira vez. Derivado de Variolae vaccinae, nome científico da doença conhecida como “varíola das vacas”, surgiu em meio às observações do médico britânico Edward Jenner – que, ao notar a baixa incidência da varíola no meio rural, pressupôs que o contato prévio dos indivíduos daquela região com o vírus bovino levava a respostas imunológicas do organismo, evitando manifestações mais graves da doença. Isso porque o vírus da varíola bovina é muito parecido com o vírus da varíola humana. “Essa é a base da proteção, pois o sistema imune, ao responder ao vírus bovino, gera uma memória imunológica que também é capaz de neutralizar o vírus humano”, explica o professor de microbiologia Armando Ventura. Após alguns anos de experimentações, a hipótese de Jenner mostrou-se verdadeira: em 1798 foi oficializada a descoberta da vacina contra a varíola e, em 1980, a doença já estava erradicada em todo o planeta.

Mas não só à extinção da varíola se restringe o sucesso das vacinas.  Outras doenças consideradas epidêmicas por milhares de anos também foram reduzidas em toda as partes do mundo – algumas foram, inclusive, eliminadas completamente de países e continentes. A poliomielite e o sarampo são exemplos de enfermidades que assolaram a humanidade por muito tempo e hoje, em locais onde a cobertura vacinal foi efetiva, são consideradas raras. Atualmente elas são os principais alvos de planos de erradicação de doenças da Organização Mundial de Saúde (OMS), já que ambas possuem ampla disponibilidade de vacinas eficientes ao redor do planeta. “Se houver um esforço global suficiente para levar a uma cobertura vacinal que impeça a transmissão, em tese, teríamos também a erradicação dessas doenças”, disse Ventura.

Com a vacinação, também foi possível obter a queda das taxas de fatalidade das mais diversas doenças infectocontagiosas. A OMS estima que as vacinas evitam de dois a três milhões de mortes por ano e, principalmente quando relacionadas à redução da mortalidade infantil, elas são grandes protagonistas: no passado, contrair determinadas doenças que hoje são completamente evitáveis (como o sarampo, a caxumba, a difteria, a rubéola e a varicela) era como um ritual de passagem da infância – e sobreviver a elas, um desafio. “As vacinas podem ser listadas entre os avanços científicos que mais salvaram vidas na humanidade”, diz o médico sanitarista Claudio Maierovitch.

A “imunização de rebanho” (ou “imunização coletiva”) é outro aspecto vantajoso da vacinação, pois ajuda a proteger indiretamente os indivíduos que, por algum motivo, não podem ser vacinados. Quanto mais altos os índices vacinais, menos pessoas ficam suscetíveis ao contágio – e portanto, à transmissão – da doença, reduzindo a circulação dos vírus e bactérias pela população. “Se muita gente estiver imune à doença, a chance de alguém que tenha a infecção ter contato com aquele que não tem imunidade é pequena. Quando ninguém está imune, essa chance aumenta”, explica Claudio. É por isso que a decisão de adesão às vacinas afeta a população como um todo e não apenas o indivíduo.

Mas os benefícios das vacinas vão além das melhorias na saúde da população: elas também exercem grande impacto na economia, uma vez que é muito mais barato e vantajoso prevenir doenças do que tratá-las. Algumas enfermidades deixam sequelas irreversíveis – como cegueira, surdez e deficiências físicas – e impedi-las por meio da vacinação evita que o sistema de saúde seja sobrecarregado. “As doenças impõe custos econômicos de medicamentos, cuidados, tratamentos e internações, que podem ser evitados caso existam programas de imunização eficientes”, explica o cientista político e historiador Gilberto Hochman. Além disso, a diminuição da mortalidade pode também ser convertida em ganho de produtividade, já que as chances de uma pessoa viver mais – e de forma mais saudável – são maiores quando ela está imunizada. A soma desses diferentes fatores garante maiores ganhos econômicos.

 

Para além das seringas

O sucesso das vacinas é histórico, mas para que ele tenha sido – e continue sendo – possível, foram necessários alguns esforços. Em primeiro lugar, podemos dizer que o desenvolvimento de técnicas para a produção das substâncias imunobiológicas em larga escala foi um fator determinante para a ampliação do acesso às vacinas pela população. “Uma coisa é produzir uma vacina dentro de um laboratório, em pequenas quantidades, outra é produzir milhões de doses”, diz Claudio. 

Outro aspecto fundamental destacado pelo médico foi a implantação de laboratórios de fabricação de vacinas em diversos lugares. Hoje, temos importantes fábricas em vários países, e isso contribui para que a distribuição das vacinas seja ainda maior por todo o mundo. “Não basta ter a tecnologia, é preciso que ela seja implantada efetivamente em fábricas e em lugares a que a população possa ter acesso”, conclui.

Claudio também fala sobre o desenvolvimento de programas públicos de imunização por praticamente todos os governos do mundo. Com o apoio da OMS, eles definem a maneira como utilizar cada tipo de vacina, para qual parcela da população elas são indicadas, a agenda e os calendários de vacinação. Também cuidam da produção ou aquisição das vacinas, além da distribuição delas pelo país e da organização dos serviços responsáveis por receber a população a ser vacinada. Esses programas, junto com boas estratégias de comunicação e informação, garantem que o alcance das vacinas seja ampliado.

Junto a isso, Gilberto Hochman também ressalta a importância de pensar as vacinas dentro do todo e não somente como o único elemento num sistema de saúde coletiva. Se a imunização não estiver em conjunto com uma atenção básica de saúde e de vigilância epidemiológica, ela se torna apenas item que contribui para o declínio das doenças, mas não minora outros problemas diretamente associados a elas, como a subnutrição e a falta de saneamento básico.

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