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O cigarro de palha virou hipster, mas já foi caipira

O palheiro como tendência entre os millennials e pós-millennials

JPRESS
17 fev 2020 | Por Emylly Alves (emylly@usp.br)

É tarde da noite quando João, de camisa azul e calça jeans, chega com o violão pendurado no ombro e ocupa um lugar na mesa. Em pouco tempo, ele começa a dedilhar canções da música popular brasileira, como um convite ao canto. Então, Lucas acompanha o violão sentado em um cajón, instrumento de percussão em formato de caixa, e Rodrigo com seu pandeiro. Enquanto isso o restante do grupo segue o ritmo com a cabeça ou tamborilando os dedos contra a borda da mesa.

 

Nem Marlboro nem Dunhill

Ao chegar da madrugada, com cerveja suficiente no estômago de todos, o canto é interrompido pelo play na caixinha de som JBL. O grupo de amigos sai para pitar palheiro na área externa. O maço começa a passar pelas mãos e as volutas vem na mais prosaica normalidade.

O cigarro de palha é conhecido vulgarmente como palha, pó ronca ou paiol, é composto basicamente por um punhado de tabaco envolvido por palha de milho, podendo haver pequenas modificações nesses dois componentes. Do tradicional ao cravo e canela, passando pelo de cereja, o de chocolate e o mentolado, muitos são os sabores do palheiro. Vendidos já enroladinhos, com um minúsculo elástico compondo o produto, o cigarro de palha tem sua graça.

O palheiro era uma forma menos comum e, até certo ponto, romantizada de consumo de tabaco. Era associado aos caipiras do interior que levavam uma vida sossegada. Imaginados sentados na porta de suas casas tocando viola, pitando paiol e esperando a vida passar. Mas a realidade é que o trabalho do campo é duro e as condições de vida são muito difíceis. O palheiro foi substituído pelos cigarros industrializados. Nesse panorama, parecia que a prática de fumar paiol estava destinada à extinção.

O velho cigarro de palha não está na boca dos caipiras, mas na boca de um  grande número de jovens de classe média urbana. O cigarro tradicional ainda é muito procurado, mas a moda do momento é o cigarro de palha. O palheiro ganha espaço entre dois públicos distintos: os que tentam parar com o cigarro industrializado e os que estão dando as primeiras pitadas no cigarrinho de palha. Por não ser consumido em regiões urbanas há muitas décadas, pouco se divulgou sobre as consequências do cigarro de palha. Algumas pessoas defendem que, apesar de continuar sendo nocivo à saúde, possui menos fatores químicos.

Na tentativa de dimensionar o volume de jovens que estão aderindo à nova tendência, o Ibope — Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística — realizou um levantamento que mostra que o consumo de palha aumentou 30% no Brasil, passando de cerca de um milhão de pessoas em 2017 para 1,3 milhão em 2018. Os estados de Minas Gerais, São Paulo e Goiás juntos somam 75% do consumo de palheiro. É palpável quando se observa o movimento do comércio em torno do produto: antes vendido em tabacarias, hoje é possível encontrá-lo em postos de combustível e também em pequenos comércios e mercearias.

Nos últimos anos, observa-se fenômeno semelhante em diversos países como Estados Unidos, Nova Zelândia e Noruega, onde são comercializados os roll-your-own cigarettes. Esta forma de consumo chega a representar 50% das vendas na Noruega e 30% na Nova Zelândia.

 

Cigarros de sobremesa

Com cinzeiro à mão para as bitucas e cinzas, o universitário João teve o primeiro contanto com o palheiro há um ano. À época, com dezoito anos de idade, aprendeu as peripécias de pitar o paiol com um amigo, que serviu como tutor nessa prática. Ele descobriu qual dos lados do palheiro deve ser acendido, quais fumos são mais agradáveis e à enrolar os cigarros.

— Também consumo os cigarros tradicionais. E, sinceramente, não sei por qual tenho preferência. Mas o palheiro apaga toda hora e exige um certo ritual para degustá-lo. Acredito que isso faz com que eu fume menos — afirma.

Apesar de nunca ter tentado reduzir o consumo ou parar de fumar, o estudante não se considera dependente. João aproveita os intervalos da sua dupla rotina de faculdade e trabalho para pitar o tradicional cigarro de palha.

— O palheiro ajuda a reduzir o estresse — explica. Sempre depois do almoço, é possível vê-lo puxando o maço e acendendo seu cigarro de sobremesa.

 

Tradição de família

Rodrigo viu seu avô pitar palheiro desde a infância. Com o canivete à mão, que Rodrigo carrega consigo atualmente para todos os lugares, o avô cortava e picava o fumo de corda e o enrolava na palha seca. 

Seguindo o costume, Rodrigo começou a fumar palheiro aos dezessete anos e tem preferência por ele aos cigarros convencionais. Hoje, com dezenove anos, é mais adepto aos paióis industrializados. 

— Eu fumo todo dia, mas a questão é que passo o dia inteiro com um único cigarro de palha — afirma.

Rodrigo compartilha o hábito com sua atual namorada, que é menor de idade.

— Ela já fumava palheiro antes de mim, mas o consumo dela aumentou depois do início do relacionamento — explica.

 

Fumo de corda

Lucas foi um fumante precoce, em certo momento sua história se confunde com a história de seus cigarros. Inclusive, enquanto responde à entrevista, conserva um entre os dedos. 

Do seu período de aprendizado, guarda a lembrança nítida de ficar ao lado de sua tia-avó enquanto ela fumava para sentir o cheiro do cigarro. 

— Sempre gostei do cheiro e do sabor. Achava elegante fumar. A primeira vez que senti o cheiro do palheiro foi algo de-li-ci-o-so — justifica.

Seu primeiro paiol fumado foi aos quinze anos de idade. Lucas diz que fumar é um modo de se socializar com outros jovens em festas:

— Fica muito mais fácil. Até oferecer o isqueiro é uma forma de puxar assunto.

Ele costuma comprar o fumo de corda e a palha separadamente, enrolando os seus cigarros pessoalmente.

— Eu gosto de tradições. Picar o fumo é uma tradição —  afirma. 

Aficionado por história, explica a origem do costume. Ele diz que, no século 16, os mendigos de Sevilha, na Espanha, que não tinham dinheiro para comprar os já tradicionais charutos, enrolavam em tiras de papel o conteúdo das pontas descartadas nas ruas. Dois séculos depois, o hábito havia se espalhado por todo o planeta.

Lucas também consome o rapé: tabaco e outras ervas e cinzas de árvores moídas e transformadas em um pó fino e aromático que é inalado. Ele assume ser um fumante viciado, mas afirma que fumar é muito bom. E conclui categoricamente:

— Eu espero fazer isso até o final da minha vida. 

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