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O fenômeno literário atingiu os meios digitais
Mundo Geek
22 dez 2016 | Por Jornalismo Júnior

Em uma pesquisa simples no Google, a busca por ‘livros de youtubers’ gera 416 mil resultados e, como primeira opção, vemos um site de livraria com o título: ‘63 livros de blogueiros e youtubers’. SESSENTA E TRÊS.

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Essa era uma realidade distante, no Brasil, se voltarmos cinco anos no tempo. Nem isso. Três anos atrás – um pouco antes de o youtuber Felipe Neto dar a largada ao gênero com seu livro Não Faz Sentido! Por trás da câmera – já seria ilógico pensar que aquelas pessoas que faziam vídeo para a internet iriam crescer tanto a ponto de terem o que escrever e, ainda, terem uma legião de fãs para comprar seus livros.

Até pouco tempo atrás, a literatura era restringida aos escritores. Se alguma celebridade quisesse que sua história fosse escrita, muitas vezes, ela contrataria uma editora ou alguém que escrevesse sua biografia. A realidade agora é outra. Os leitores querem ter o ponto de vista da própria pessoa que vivenciou, e pagam para isso.

Em números

Só para se ter uma ideia, de acordo com a Nielsen BookScan, empresa que monitora o mercado editorial, as vendas desses livros aumentaram 133% em 2016. Além disso, cerca de 33 youtubers lançaram títulos nos últimos doze meses, alguns deles mais de um.

Imagem: Divulgação/Twitter

O grande destaque de vendas vai para a Bienal do Livro 2016. De acordo com o ranking do site Publish News, o livro Tá Gravando. E agora? da youtuber Kéfera Buchmann foi o livro de não-ficção de maior destaque, com 2494 cópias vendidas. Além disso, dos dez livros infanto-juvenis mais comprados, quatro – AuthenticGames, do Marco Túlio, Segredos da Bel para meninas, da Bel, Dois mundos, um herói e De Volta ao Jogo, do RezendeEvil – eram de youtubers – e dois – O Diário de Larissa Manoela e Sinceramente Maisa – de atores que estão seguindo a mesma onda, mas daqui a pouco falaremos sobre isso.

Em 2015, quatro livros de youtubers ultrapassaram 100 mil cópias vendidas cada um: Muito Mais que 5inco minutos, da Kéfera (197.461), Eu Fico Loko, do Christian Figueiredo (137.219), Não se apega, não e Não se iluda, não, da Isabela Freitas (135.051 e 113.988, respectivamente). Para fins comparativos, um lançamento atual de um autor brasileiro contemporâneo fica em torno de 3 mil exemplares por edição.

Entenda o fenômeno

De modo geral, esses livros funcionam como diários – palavra que, inclusive, ilustra o título de muitos deles. Os youtubers escrevem o livro contando a história de sua vida. Família, amigos, amores… cabe de tudo.

O tema pode parecer simples e muitas pessoas até reclamam: “Mas o que eles têm para escrever?”. É um questionamento aceitável. O que acontece, porém, é que o público se identifica. As histórias são escritas por brasileiros, também jovens, e que passaram por coisas que muitos de seus leitores estão vivendo.

Claro que esse é um panorama geral. Há também livros de ficção, motivacionais e até livros lúdicos, com atividades para os leitores, mas esses são as exceções. O fato é que qualquer que seja o tema, ou estilo de escrita, se tem imagens ou não, os fãs não vão deixar de comprar mais um produto dos seus ídolos e é por isso que as vendas – e publicações – estão cada vez maiores.

Os contras do lançamento

Para as editoras, a venda desses livros é sempre positiva. Alguns deles podem não corresponder às expectativas, mas, mesmo assim, apresentam lucros suficientes para as companhias.

O problema vem quando o youtuber em questão não tem conhecimento nenhum sobre literatura e é convidado a escrever. A partir daí três situações diferentes podem surgir: um livro mal escrito, um só de imagens ou atividades lúdicas (O Sensacional Livro Antitédio do Lucas Rangel, como exemplo) ou um livro escrito por um ghost writer – pessoa que após uma conversa com o ‘autor’ entende seu estilo e imprime-o na literatura, mas sem revelar seu nome.

Um caso recente mostrou que essa é uma prática que realmente acontece. Em uma situação constrangedora, o youtuber Japa expôs sua ex-namorada, Maju Trindade, em seu livro Diário do Japa. Na época, ele tentou se redimir em suas redes sociais, confirmando que não havia escrito seu livro e admitindo que ‘leu quase nada’ e que ‘assim que soube mandei tirar do ar’.

A verdade é que a Internet propicia um sucesso cada vez maior às pessoas e as editoras e autores se aproveitam disso, nem sempre do modo mais diplomático.

Os prós

Artigos escritos em um passado recente, cerca de dois anos atrás, mostravam uma realidade preocupante: os jovens estavam cada vez mais distantes da literatura. E todos acreditavam ser, pelo menos em parte, pelo mesmo motivo: eles ainda não tinham sido seduzidos pela literatura. Agora, essa prática está mudando.

Imagem: Divulgação/Twitter

O maior público dos influenciadores digitais (termo que engloba youtubers, blogueiros e todas as pessoas que, de alguma forma, tem um grande número de seguidores no meio digital) são os jovens. E eles são um público ávido, que assiste, comenta, critica e compra. Assim, quando um youtuber do qual é fã, lança um livro, seu primeiro instinto é querer ter esse outro pedacinho do ídolo perto de si.

Por causa de um influencer que escreveu, então, esse leitor jovem pode ter sua primeira experiência literária e ser seduzido para esse mundo, começando a ler outros livros também.

Além do Youtube

Com o sucesso cada vez maior desse ramo, os livros vão além do site de vídeos. Não são mais só livros de youtubers que enchem as prateleiras das livrarias. Agora, também temos blogueiros (Bruna Vieira e Karol Pinheiro), cantores (Manu Gavassi, ainda não lançado) e atores (Larissa Manoela e Maísa Silva) teens, os influenciadores digitais, que entraram nesse meio.

E, devido à internet, esses influenciadores também têm um ótimo alcance. Isabela Freitas já está no terceiro livro, Bruna Vieira já lançou mais de cinco, Larissa Manoela e Maísa Silva têm os exemplares mais vendidos da literatura infanto-juvenil. Outros exemplos assim são cada vez mais comuns.

Apesar das críticas, parece que esse fenômeno está aqui para ficar. Os youtubers só crescem, as editoras não perdem a oportunidade de lucrar e os fãs, de conhecerem um pouco mais sobre seus ídolos.

Por Bruna Nobrega
brunadanobrega@gmail.com

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