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O perigo do anacronismo no futebol
ARQUIBANCADA
09 jun 2020 | Por Lucas Zacari (lucas.zacari@usp.br)

Com o surgimento da Covid-19 e o alastramento da pandemia, viu-se como necessária a interrupção e adiamento dos eventos esportivos pelo mundo. As principais competições foram canceladas quase que ao mesmo tempo, mesmo com a tentativa de eventos sem presença de público (a NBA foi paralisada dia 11 de março, enquanto a Premier League e a UEFA suspenderam dois dias depois).

A aposta para manter a audiência futebolística foi a transmissão de jogos históricos. Com isso, velhas discussões sobre a qualidade das partidas e dos jogadores de décadas passadas voltaram à tona nas redes sociais, muitas vezes condicionadas pelo que se conhece sobre o futebol hoje.

 

A dificuldade na implantação das reprises 

O brasileiro é um povo que não possui uma interação tão grande com sua memória. E isso fica claro a partir do desinteresse público em conhecer o futebol de antigamente. Segundo Celso Unzelte, comentarista da ESPN Brasil e professor da Faculdade Cásper Líbero, é muito difícil emplacar sobre o passado nas redações: “Especificamente no esporte, isso não é valorizado, nem as televisões, nem as pessoas. É sempre decepcionante a gente vender um peixe de uma pauta ligada a isso”.

Contudo, com a paralisação dos campeonatos, a solução encontrada pelas emissoras para preencher a grade horária está sendo a reprise dos mais variados eventos esportivos históricos. A medida foi realizada para manter os patrocínios que essa programação possui, além de ser uma forma de manter esse entretenimento intrínseco à cultura brasileira, sendo o futebol uma tentativa de aliviar o stress que a situação da pandemia impõe.

Na opinião do jornalista e apresentador de podcasts esportivos Leandro Iamin, essas reprises já deveriam acontecer há algum tempo: “A gente tem 10 canais de TV fechada com uma programação 24 horas para preencher, é só fazer uma matemática e ver quanto espaço tem. Há, pelo menos, três canais de TV aberta com muito arquivo”. Iamin complementa: “Muita coisa escondida que, por alguma razão editorial, não vai pro ar.”

Talvez a questão editorial que barre a retransmissão esteja vinculada ao IBOPE. Esse parâmetro é essencial para a escolha da programação das emissoras. Apesar de ter sido bem recebida e impulsionada, a retransmissão da final da Copa de 2002, entre Brasil e Alemanha, teve 20,8 pontos para a TV Globo na Grande São Paulo. Mesmo com um número alto, não teve o impacto que se esperava. O empate entre Corinthians e Ituano, pelo Campeonato Paulista, foi o último jogo transmitido ao vivo antes desse período e obteve índices maiores, de 21,7 pontos.

Reprise do Penta não teve a audiência esperada

Reprise do Penta não teve a audiência esperada [Imagem: Agência AP]

Com isso, nota-se que, mesmo tendo uma audiência considerável para assisti-las, as reprises sofrem com uma certa rejeição do público, que, em muitas vezes, prefere assistir a algo inesperado do esporte, e não aquilo que já se tem conhecimento. O que é uma pena, pois o entendimento da sociedade pode ser feito a partir da análise do futebol do passado.

 

Substituições do que se conhece hoje

Um dos motivos de resistência em assistir essas reprises relaciona-se a uma diferença de como o futebol é jogado atualmente para aquele que se jogava antes. Ponta de lança tornou-se o meia-atacante e o centromédio, volante. O esquema 2-3-5 vira WM (3-2-2-3), que torna-se 4-2-4 e, depois, 4-3-3. O 1 a 11 é substituído pelo 1 a 99. Para o pleno entendimento do que já aconteceu, é necessário englobar e entender essas questões e outras mais.

Talvez a maior e mais perceptível mudança na prática esportiva envolve o físico dos atletas. Variações nos treinamentos e no cuidado com a saúde são bons exemplos disso. Um clube de ponta tem, em média, 20 profissionais envolvidos nessa preparação, entre médicos e fisioterapeutas. Junto a eles, envolvem-se até mesmo áreas não diretamente ligadas à prática esportiva, como nutricionistas e psicólogas.

E essa preparação reflete no campo. “O jogo tornou-se mais rápido, tem menos espaço. Mais rápido no sentido de correria, mais rápido no sentido de velocidade, de troca de passes”, apresenta Leonardo Miranda, jornalista dos canais Globo. E isso se transmite em números: na década de 60, aqueles que corriam quatro quilômetros por jogo eram superatletas; hoje, quem corre menos de dez tem a eficiência no time questionada.

O esporte, atualmente, é envolvido por uma série de tecnologias que auxiliam na preparação. Os times têm analistas de desempenho que conseguem mensurar, através do GPS no uniforme, o desempenho dos jogadores. Isso gera uma série de estáticas que auxiliam também na preparação citada. Além disso, o esporte possui inúmeras câmeras, transmitindo para todo o mundo, isso sem contar aquelas do VAR (Video Assistant Referee), que servem (ou deveriam servir) para corrigir erros ou dúvidas do árbitro.

A tecnologia da linha de gol ajudou no fim de uma das muitas polêmicas

A tecnologia da linha de gol ajudou no fim de uma das muitas polêmicas [Imagem: FIFA]

“Com a imagem em HD, slow motion, naquele close de alta definição, isso muda diretamente a forma como a gente encara a real violência do lance e a repercussão da disciplina do jogo”, demonstra Iamin. Ou seja, talvez a dificuldade do público em apreciar os jogos antigos tenha a ver com a alteração que esses instrumentos promovem na percepção das partidas.

Toda essa mudança em muito se relaciona com o negócio que esse esporte tornou-se. A importância dada à preparação física, às tecnologias de transmissão, à economia do esporte… Tudo isso interferiu no futebol. Até mesmo o surgimento dos clubes-empresa, como os Red Bull Bragantino e Leipzig (Alemanha), demonstram que, muitas vezes, o dinheiro tornou-se mais importante que a conquista de títulos.

Para Unzelte, isso tirou a magia do jogo jogado. “Eu penso que houve um processo de industrialização do futebol, ele passou a ser um grande negócio, aí você tem um reflexo em tudo”. Ele ainda completa, relembrando outro período de caos sanitário: “Na Gripe Espanhola, em 1918, não se discutia direitos de transmissão, não se discutia rebaixamento e acesso, não se discutia salário de jogador, porque era amadorismo”.

 

O futebol de ontem pelo de hoje

A análise dos jogos antigos sem o entendimento e a inclusão dessas e de muitas outras perspectivas que se alteraram durante a evolução do futebol cria conclusões sobre equipes e jogadores. Essas podem ser precipitadas, pois não têm o objeto de estudo completo, podendo abrir caminho a uma série de injustiças acerca destes atletas.

Há alguns pontos que são alvos de tal precipitação. O principal deles é a qualidade que os jogos antigos possuem, opinião popularizada nas redes sociais durante esse período de quarentena. Supostamente, o jogo, por ser mais lento, é ruim e, portanto, não deveria ter sua aclamação perante às partidas dos dias atuais. 

Contudo, muitos não consideram o que foi essencial para a evolução do esporte: a preparação física, como já citada. É por causa dela que o esporte tornou-se mais rápido. Porém, não é a velocidade que afeta a qualidade do futebol, e sim os jogadores que estão ali participando, tornando o jogo melhor ou pior. 

“Normalmente o futebol lento é sinônimo de um futebol ruim. Não é verdade, é uma constatação, era mais lento porque os métodos de preparação eram muito mais lentos naquela época”, corrobora Leonardo Miranda. “A análise precisa dar um certo desconto, precisa ser contextualizada para não cobrar o que é incobrável por conta da evolução da época”.

Marcação em Gérson distante pelo pouco preparo físico da Copa de 70 mostrando o olhar atual sobre o futebol antigo

Marcação em Gérson distante pelo pouco preparo físico da Copa de 70 [Imagem: Leonardo Miranda/Globoesporte.com]

Um segundo ponto que sempre se apresenta é a comparação entre jogadores de diferentes épocas, algo que sempre retorna quando um atleta faz uma grande exibição nos campos. Muitos dos grandes jogadores atuais são comparados àqueles que encantaram o mundo anteriormente.

Entretanto, justamente pela diferença de como o futebol é praticado, as gerações atuais tendem a dizer que os jogadores de hoje são realmente craques. Assim, é comum ouvir e ler frases dizendo que os zagueiros da época de Pelé eram fracos e que, por conta disso, ele teria tido tanto sucesso. 

“O grande mérito do Pelé é justamente o de estar ponteando: se ele não era o melhor cabeceador, ele era um dos; se ele não era o mais veloz do mundo, ele era um dos; se ele não era o jogador com mais visão de jogo, ele era um dos”, comenta o professor Unzelte, o que mostrava que não era apenas pela qualidade dos jogadores de defesa que fez o Rei ser reconhecido, mas sim pela sua própria capacidade.

A melhor forma de se comparar dois jogadores consiste em observar o quão acima dos outros ao seu redor eles eram ou são, tanto em qualidade quanto em representatividade para a história futebolística. De acordo com Miranda, isso facilitaria e justificaria melhor as escolhas entre jogadores: “Tentar definir esses critérios, com estatísticas, com conquistas, quanto foi protagonista, quanto não foi. Claro que isso é importante, mas a comparação precisa ser justa”.

A falta de material disponível para o público em geral é outro fator que atrapalha a intermediação entre as novas gerações e o futebol antigo. Por conta disso, as pessoas tendem a criar opiniões sobre uma carreira inteira de um jogador ou sobre equipes a partir de alguns poucos jogos, sem a devida contextualização do período observado.

Esse anacronismo cria narrativas e mitos que não condizem com a realidade, como, por exemplo, sobre a carreira do Zico pela reprise da partida contra a Itália, na Copa de 1982. Muito foi falado nas redes sociais sobre ele ter jogado mal aquela partida e que, por conta disso, ele não merecia o status que possui. Contudo, não é apenas um jogo que deve marcar um jogador, e sim todo o conjunto da obra, para não ser injusto. No caso de Zico, os períodos no Flamengo, na seleção, na Udinese e no Japão foram essenciais para entender sua carreira.

Zico em ação contra a Itália: o jogo que marcaria negativamente sua carreira brilhante

Zico em ação contra a Itália: o jogo que marcaria negativamente sua carreira brilhante [Imagem: J.B Scalco/Dedoc]

Porém, um ponto que pode distanciar os novos espectadores do jogo antigo é justamente a falta de arquivos. Como dito anteriormente pelo podcaster Leandro Iamin, há muito arquivo que fica empoeirado nas emissoras de televisão. 

Essa dificuldade do alcance atravessa gerações e chega até os dias de hoje. Iamin cita o exemplo de Fernandinho, que tem uma opinião controversa pelos torcedores do país: “É um dos maiores jogadores brasileiros na história do futebol inglês, mas pra quem assiste 25 jogos do Manchester City por temporada, que é uma a cada mil no país. O que o país viu foi o Fernandinho muito mal em campo, e o Brasil perder de 7 a 1 e, na Copa seguinte, ele fazer um gol contra contra a Bélgica”.

Além de entender todas as mudanças pelas quais o futebol passou, é necessário que seja disponibilizado uma grande gama de arquivos do esporte. Somente assim as conclusões errôneas sobre o passado poderão ser contornadas, sem cometer injustiças a carreiras de grandes jogadores ou à elevação de mitos que não transmitem o que aconteceu realmente.

 

A saudade que afeta o hoje

Por outro lado, há aqueles que preferem se manter distantes das emoções que o futebol atual traz. É esse romantismo que diz que o futebol de hoje não tem a qualidade que o de antes possuía. É essa busca pelo passado que apresenta uma das maiores discussões das redes sociais: Raiz contra Nutella.

O “ódio ao futebol moderno”, manifesto criado por um torcedor da Roma, em 1999, contrário às transformações que o futebol passava, popularizou-se pelas torcidas. Tal conceito é utilizado, sobretudo, para expressar o descontentamento com essas mudanças, sobretudo pela mercantilização do esporte. Chuteiras coloridas, cabelos diferentes, contratos milionários… Tudo isso, na visão dos que proferem tais frases, faz com que os jogadores de hoje não estejam mais tão ligados à magia do futebol. 

Faixa em manifestação contrária ao futebol moderno representando um pouco do olhar atual sobre o futebol antigo

Faixa em manifestação contrária ao futebol moderno [Imagem: Irlan Simões/Caros Amigos]

É importante notar que esse movimento de ser contrário ao futebol da atualidade já vem de décadas e décadas. Celso Unzelte relembra que, na sua infância, já havia essa tendência a reverenciar o passado: “Quando eu era garoto ninguém deixava eu curtir o Sócrates direito porque diziam que bom era no tempo do Santos do Pelé”.

Essa repulsa é, de certa forma, uma maneira do nosso cérebro relembrar momentos bons da nossa vida. Leonardo Miranda explica que, no sistema límbico, responsável pelas memórias, há uma propensão a recordar de coisas boas do que de ruins. Por isso, muitos costumam dizer que, na época deles, o jogo era melhor, idealizando-a. “Aí se vende o passado como perfeito, mas a gente esquece disso, porque a gente tem uma propensão a guardar boas memórias”, apresenta o jornalista.

Contudo, foram essas mudanças que tornaram o futebol o esporte mais popular do mundo. Antes, pessoas eram a favor do futebol ser de elite; aversos a prática esportiva por negros e mestiços; proibiram mulheres de praticar o esporte. Ou seja, toda a evolução do esporte tem um motivo para acontecer, e ele, em momento algum, perderá aquele sentimento bom de gritar gol quando a bola ultrapassa a linha, seja nos anos 1930, 1970 ou 2000.

Em tempos de falta do esporte ao vivo, a remediação entre os futebóis é fundamental para aliviar o stress que a pandemia oferece. Porém, é necessário entender que o jogo mudou completamente entre o que se jogava antes para o que se joga hoje. E isso não tem problema nenhum, pois, como Leandro Iamin apresenta: “No fim das contas, ainda são pessoas jogando futebol, como eram pessoas jogando futebol lá atrás”.

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