Home Descobrir Cinema Mas afinal, o que é o cinema político? 
Mas afinal, o que é o cinema político? 
CINÉFILOS
19 jun 2020 | Por Renata Souza (renatasouza@usp.br)

Em 2019, um filme brasileiro ganhou grande repercussão nas salas de cinema e redes sociais. Bacurau (2019) rendeu muita discussão sobre seu significado. A maior parte dos comentários do público eram tentativas de aplicar a narrativa do filme à sociedade brasileira da vida real. Como se a obra fosse uma espécie de manifesto político, em formato de metáfora. E é aí que você, leitor, pode se perguntar: “mas afinal, o que é o cinema político?”

Nunca acordei e pensei: ‘Hoje vou fazer um filme político’. Agora, minha ambição é produzir uma obra honesta, que retrate a vida ao meu redor, as pessoas que eu conheço, o funcionamento das coisas no país onde moro” disse Kleber Mendonça Filho, em entrevista à Veja, sobre Bacurau. O longa-metragem estreou em agosto do ano passado e ganhou o Prêmio do Júri no Festival de Cannes, na França. 

Apesar da declaração de Mendonça Filho, diretor, o filme repercutiu no debate político. Mas uma coisa não exclui a outra. Não ter a intenção de produzir uma obra panfletária, que assuma um posicionamento partidário, não significa produzir uma obra fora do que é político.

“Bacurau” é o nome de uma cidade fictícia, no Nordeste do Brasil, que de um dia para o outro deixa de constar no mapa. A narrativa se passa poucos anos no futuro, quando depois de alguns assassinatos, os moradores do vilarejo começam a suspeitar que estão sendo atacados e buscam formas de se defender.

Em conformidade ao gênero que pertence, o western (faroeste), o filme possui o vilão, o herói e a violência. Para a professora de História da Arte na Unifesp e especialista na relação entre arte e política, Carolin Overhoff, “Bacurau é um filme de gênero, que quer ser popular, atrair um público — o que  está conseguindo. Por outro lado puxa muitos registros do Brasil: o sertão, o lampião…”.

Apesar do sucesso da obra, que atraiu um público de mais de 500 mil pessoas ao cinema, Carolin tem uma opinião menos popular: “acho que ele procura vender um filme, porque os grupos já estão fazendo resistência, ou seja, as favelas, o movimento negro, das mulheres, não precisam desse filme. A resistência é muito mais bonita e sofisticada que a do filme”. E a professora conclui: “eu não acho que Bacurau seja muito útil, porque se você vai ao cinema e os espectadores viram torcedores, qual é a reflexão? Cadê a sensibilidade? Bacurau não nos leva a refletir, mas é um sintoma da maneira como se pensa política no Brasil”.


Sobre o surgimento do cinema político

Um dos primeiros teóricos a escrever sobre a arte como forma de engajamento político foi Walter Benjamin, ensaísta, filósofo e sociólogo alemão. Benjamin viveu em meio à ascensão nazista na Alemanha. É nesse contexto que ele produz sua obra, que, tal qual a do teatrólogo Bertolt Brecht, está alinhada à vertente socialista. “Benjamin quer que o cinema reaja em termos políticos. Queria que houvesse uma politização da arte, porque era necessário, no contexto histórico dele, uma luta contra o fascismo” diz Overhoff.

Brecht, em suas peças de teatro, propõe interações com o público que buscam romper com a “quarta parede” que separa os atores dos espectadores. Essa concepção está muito relacionada ao desejo de usar a arte como meio para a reflexão.

Apesar dessa teorização, mais recentemente as discussões passaram a questionar a existência de um cinema político. Para o filósofo Jacques Racière  não há como categorizar a arte, e nesse caso o cinema, como político ou não. Racière introduz a ideia do “espectador emancipado”, este que seria tanto ativo quanto passivo quando em contato com uma obra de arte. O que quer dizer que não há como um artista prever o comportamento do público, para afirmar produzir uma obra política, pois essa interpretação está a cargo do espectador. 

“Qualquer filme, justamente aqueles que têm muito impacto, que muitas pessoas veem, no modo como reproduz estereótipos, ideias, maneiras de ver o mundo, vai influenciar as pessoas” afirma Overhoff em interpretação ao pensamento de Jacques Racière. Ela complementa explicando que “toda narração é uma decisão sobre o que se conta, como se conta, quem são os personagens, quais são as visões de mundo”.

Mas antes da discussão chegar nesse ponto, muitos cineastas produziram obras ideológicas, que historicamente foram classificadas como políticas. Vejamos alguns exemplos.

 

O cinema político, de esquerda, no mundo

  • Eisenstein e a Rússia socialista

Sergei Eisenstein nasceu em 1898, na Letônia. Formou-se engenheiro, mas ficou conhecido pela sua produção cinematográfica. Eisenstein foi engenheiro do exército vermelho — aliado ao Partido Comunista — e seus filmes apresentam seu posicionamento ideológico de forma clara.

Durante o regime soviético as artes foram usadas como veículo para a propagação das ideias socialistas. É por isso que muitos filmes, inclusive de Eisenstein, foram feitos sob encomenda do próprio governo. Segundo a professora Elena Vassina, especialista em cultura russa, “o cinema tem grande poder de formação da opinião pública. Não diria que se trata de manipulação, mas certamente foi importante para a manutenção de regimes autoritários, porque cinema é arte de massa e atinge milhões de pessoas.”

Um dos filmes mais famosos de Sergei Eisenstein é O Encouraçado Potemkin que retrata a rebelião dos marinheiros a bordo do navio Potemkin, em 1905. Muito mais do que pelo conteúdo, o longa — mudo e em preto e branco — é um marco na história do cinema pela técnica de montagem das cenas usadas pelo diretor.

 

O encouraçado Potemkin [Imagem: Reprodução]

O Encouraçado Potemkin [Imagem: Reprodução]

Mesmo colaborando com o regime soviético, os filmes de Eisenstein precisavam ser aprovados por Stálin. Tanto que um desses chegou a ser censurado: Ivan, o Terrível conta a história do czar preferido de líder socialista. O filme foi dividido em três parte, mas a segunda foi proibida, porque expunha as fraquezas de Ivan, que de certo modo representavam o próprio Stálin. Para Elena Vássina “o regime não podia controlar a manifestação do talento dos artistas. E mesmo Eisenstein querendo colaborar com o regime, ele era maior do que a ideologia leninista marxista.”

 

  • Vittorio de Sica, Roberto Rosselini e o neorrealismo italiano

Com o fim da Segunda Guerra Mundial, que marcou a derrocada do fascismo europeu, os países buscavam construir suas estruturas democráticas. Na Itália, a arte foi uma das ferramentas utilizadas para isso.

O cinema neorrealista italiano foi um movimento crítico à condição de opressão vivida pela classe trabalhadora. O primeiro grande diretor desse período foi Vittorio de Sica, vencedor de três Oscars, com os filmes Vítimas da Tormenta (Sciuscià, 1946), Ladrões de Bicicleta (Ladri di Biciclette, 1948) e O Jardim dos Finzi-Contini (Il giardino dei Finzi-Contini, 1970). O segundo diretor foi Roberto Rosselini, vencedor do Grande Prêmio do Júri, no Festival de Cannes, com Roma, Cidade Aberta (Roma, città aperta, 1946).

Apesar do sucesso inicial desse movimento, predominou por muitos anos na Itália o cinema hollywoodiano, ao mesmo tempo em que os filmes neorrealistas eram censurados e perdiam espaço no cenário nacional. “Os cineastas neorrealistas tentavam resistir por conta própria, pois a esquerda não tinha entendido o real alcance político e cultural do fenômeno por eles representado. Quando se percebeu de fato a importância de garantir a existência da cinematografia nacional, prejudicada em sua sobrevivência pela incessante invasão de filmes norte-americanos, a Itália já estava às vésperas das eleições de 18 de abril de 1948” explica Mariarosaria Fabris, no capítulo “Neorrealismo italiano” do livro “História do Cinema Mundial”.

 

  • Glauber Rocha e o Cinema Novo, no Brasil

Por aqui, até meados dos anos 50, o sucesso do cinema no Brasil era sustentado basicamente por comédias, musicais e filmes no estilo Hollywood. É nesse cenário que surge a reivindicação dos jovens cineastas por uma arte engajada, um cinema que trouxesse reflexão.

Esse movimento ficou conhecido como “Cinema Novo” e representa uma marca importante na forma de se ver, pensar e produzir arte. Glauber Rocha foi um dos cineastas mais conhecidos desse período. 

 

Terra em Transe [Imagem: Reprodução]

Terra em Transe [Imagem: Reprodução]

Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964) e Terra em Transe (1967) são dois longa-metragens dirigidos por Glauber e lembrados até hoje por críticos de cinema. As obras são produções fictícias críticas à condições reais vividas pela sociedade brasileira. Vale lembrar que Glauber Rocha viveu em meio à Ditadura Militar e, por isso, seus questionamentos políticos eram ainda mais ousados.


Os tempos são outros?

De lá para cá o contexto se alterou e, consequentemente, as perspectivas dos cineastas. O consenso atual é de que não há como simplesmente categorizar os filmes como “políticos”. É claro que isso não quer dizer que as pessoas nunca quiseram (e ainda querem) transmitir mensagens políticas em suas obras. A última produção a receber o Oscar de “Melhor filme”, Parasita (Parasite, 2019) é praticamente uma prova disso. O longa é dirigido pelo sul-coreano Bong Joon-ho e entrou para a história como o primeiro filme de língua não inglesa a ser premiado nesta categoria. 

No caso de Parasita, tanto a narrativa, que aborda a desigualdade de classes, quanto o contexto, um filme sul-coreano ganhando visibilidade internacional, nos mostra a importância do cinema como movimentador político.  

No fim das contas, os debates gerados por filmes como Bacurau e Parasita são realmente importantes. Afinal, tudo que é produzido artisticamente tem o objetivo comum de ser consumido por determinado público. Quanto a nós, espectadores, cabe o papel de desfrutar e, quem sabe, sermos atingidos pela mensagem proposta.

Cinéfilos
O Cinéfilos é o núcleo da Jornalismo Júnior voltado à sétima arte. Desde 2008, produzimos críticas, coberturas e reportagens que vão do cinema mainstream ao circuito alternativo.
VOLTAR PARA HOME
DEIXE SEU COMENTÁRIO
Nome*
E-mail*
Facebook
Comentário*