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O que toca na Sala33: Músicas de Protesto
Escuta Aí
25 out 2018 | Por Jornalismo Júnior

Imagem: Eduardo Passos / Comunicação Visual – Jornalismo Júnior

Ser brasileiro nunca foi fácil. E, apesar de já termos chegado ao fim de duas ditaduras, estamos em 2018 batalhando novamente para não deixar que nossa liberdade e a democracia acabem. Use essas músicas para se motivar a dialogar pacificamente com quem ainda não entendeu que #EleNão.

 Ana Cañas – Respeita (Sabrina Brito)

Nessa faixa, a feminista declarada Ana Cañas fala sobre o abuso cometido contra o sexo feminino e exige mais respeito da sociedade. Ela discursa sobre como as mulheres são, sim, fortes e denuncia toda a violência e assédio que o gênero feminino enfrenta dia após dia. Mais que apenas um protesto, se trata de um chamado por igualdade.

 

Caetano Veloso – Podres Poderes (Maria Eduarda Nogueira)

Nessa música de 1984, Caetano indaga se nunca vamos conseguir quebrar o ciclo vicioso da América Católica que insiste em confiar em ridículos tiranos. Pertinente para nosso contexto político, resta uma pergunta para esse período tão triste e tenso, ao mesmo tempo: será que nossa retórica de defesa dos direitos humanos terá que ressoar por mais mil anos?

 

Michael Jackson – They Don’t Care About Us (Beatriz Sabino)

Essa música é de 1995 mas consegue resumir a nossa situação atual. A mídia manipuladora, as “provas” inexistentes que colocam inocentes na cadeia, racismo, e mortes passionais… essa música é tão atual que dá medo. Um ponto forte (além do Michael) é a batida do Olodum, bem marcada no refrão (vale a pena assistir o clipe gravado no Brasil).

 

Cazuza – Ideologia (Beatriz Sabino)

Quem não está desiludido com tudo que está acontecendo não é mesmo? Enquanto nossos heróis morreram, os “mitos” estão sendo endeusados de forma doentia. A música foi escrita logo após o cantor ter descoberto ser soropositivo, podendo fugir um pouco do tema. Mesmo assim, Cazuza conseguiu mostrar a nossa indignação com o cenário político e a falta de uma ideologia pra seguirmos logo nos primeiros versos (Meu partido/É um coração partido).

 

Geraldo Vandré – Pra não Dizer que não Falei das Flores (Beatriz Sabino)

1968: Ditadura Militar no Brasil. Protestos estudantis, greves operárias, a violenta repressão por parte da Polícia e do Exército que culminaram com a morte de vários estudantes, como Edson Luís e o AI-5 que, entre suas várias medidas, fechou o Congresso Nacional na época. Por causa desse contexto a música logo tornou-se um hino de resistência do movimento estudantil e civil. Resistir sempre, desistir jamais.

 

Elis Regina – O Bêbado e a Equilibrista (Beatriz Sabino)

Originalmente, a música foi criada para homenagear Charles Chaplin, mas acabou sendo alterada e tornou-se o “Hino da Anistia”, citando o Irmão do cartunista Henfil (exilado no México) e aqueles que “partiram num rabo de foguete” enquanto suas mães choram, simbolizando as mães que perderam seus filhos durante o regime.

 

Pabllo Vittar – Indestrutível (Beatriz Sabino)

Tanto a música como o clipe possuem o tema da violência LGBTQ+. Como parte do 1º álbum de Pabllo “Vai Passar Mal”, já considerado um atual hino de resistência LGBT+ por retratar o bullying e o preconceito sofrido por Pabllo ao longo de sua vida, pois é preciso resistir, como mostrado nos versos finais: “E quanto mais dor recebo / mais percebo que eu sou / Indestrutível.”

 

Florence + the Machine – 100 Years (Beatriz Sabino)

Eu sou uma fã assumida dessa banda, já fiz até uma resenha do novo álbum mas foi um pouquinho difícil de pegar a essência de protesto quando escutei pela primeira vez. A letra da música começa falando sobre um relacionamento abusivo que precisa ser confrontado e vencido, mas que é difícil de ser percebido por quem está vivenciando ele, como um que a vocalista da banda sofreu. Como forma de um levante e empoderamento para enfrentar esse tipo de situação, tem as referências das sufragistas inglesas e do movimento #metoo. Sem falar que o instrumental dessa música é incrível.

 

Cazuza – O Tempo Não Pára (Gabriela Bonin)

A letra de Cazuza faz tanto sentido em 2018 como fez em 1988. Ela fala sobre uma sociedade conservadora e repleta de um falso moralismo, uma sociedade que vê o futuro chegar com pressa enquanto repete os erros do passado. Nada melhor para descrever o cenário atual do que “um museu de grandes novidades” e perceber que alguns visitantes estão cansados de correr na direção contrária.

 

Elis Regina – Como Nossos Pais (Gabriela Bonin)

Desde pequena, gosto muito dessa música. Talvez meu carinho por ela venha da lembrança de meu pai cantando na sala de estar. Hoje, me dói ouvi-la. Me dói não só pelo conteúdo, mas porque as eleições desconstruíram a imagem que carreguei de meu pai por tantos anos. A letra sempre me fez refletir, mas não tanto quanto atualmente. Mais do que nunca, é preciso dizer: “cuidado, meu bem, há perigo na esquina”. E existe um sentimento compartilhado de pura desilusão pairando no ar. Mesmo depois de tanta luta e resistência, parece que ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais.

 

Legião Urbana – Geração Coca-Cola (Sabrina Brito)

Música que se tornou um hino dos jovens rebeldes dos anos 80, Geração Coca-Cola é um grande dedo do meio para o sistema. De autoria do lendário Renato Russo, a letra atrai fãs até os dias de hoje.

 

Legião Urbana – Perfeição (Sabrina Brito)

Embora não esteja entre as faixas mais conhecidas da Legião, Perfeição é uma grande denúncia de tudo o que há de errado no Brasil, desde corrupção até a precariedade do saneamento básico. Apesar de suscitar reflexões e até mesmo um certo sentimento de estranhamento frente ao próprio país, a música termina em tom otimista e lindo, como era típico do genial Renato Russo.

 

Bon Jovi – Have A Nice Day (Sabrina Brito)

Ao melhor estilo rock da banda, a faixa que intitula um de seus álbuns mais celebrados é empolgante e trata de uma sensação de invencibilidade frente a um mundo atrasado e preso na mesmice. Com um espírito inegável de rebeldia, Jon Bon Jovi canta as palavras que marcaram época: “When the world gets in my face / I say ‘have a nice day’” (ou algo como: “Quando o mundo me enfrenta cara a cara / Eu digo ‘tenha um bom dia’”).

 

Ana Tijoux – Antipatriarca (Fernanda Teles)

A resistência e a democracia são as principais temáticas das músicas da cantora chilena. Em Antipatriarca, Ana Tijoux não faz diferente. A música tem uma letra fortemente feminista e que diz respeito principalmente a resistência feminina e a luta das mulheres pela posse dos seus próprios corpos. Antipatriarca é uma música essencial em tempos em que o estupro tem sido tratado como questão de merecimento e a existência feminina como uma fraquejada. “Tu no me vas obligar. Tu no me vas a silenciar. Tu no me vas a callar”.

 

Chico Buarque e Milton Nascimento – Cálice (Giovanna Stael)

Composta em parceria com Gilberto Gil, a canção ilustra – através de metáforas e duplos sentidos, a repressão violenta e a angústia de ter que aceitar em silêncio a dor: “mesmo calada a boca, resta o peito”. A letra, que carrega significados em alusão à passagens bíblicas e métodos de tortura, é um dos trabalhos mais geniais da dupla de artistas e desperta uma reflexão a cada estrofe. A mensagem vale para os dias atuais: mesmo que atordoados, que permaneçamos atentos.

 

Sérgio Ricardo – Calabouço (Giovanna Stael)

A canção foi escrita em homenagem a Edson Luís de Lima Souto, estudante morto pela polícia militar durante um confronto no restaurante Calabouço, no Rio de Janeiro, em 1968. No refrão, Sérgio Ricardo canta entrelaçando o som das palavras: “cala a boca, moço, cala o peito, cala o beiço, calabouço, calabouço”.

 

Elis Regina – Cartomante (Giovanna Stael)

Após o decreto do AI-5 em 1968 o terror dos anos de chumbo foi escancarado. A ideia de que apenas caminhando e cantando e seguindo a canção a democracia seria reconquistada já estava sendo substituída pela realidade das armas e guerrilhas. Com o congresso fechado, a década de 70 foi marcada pela censura, perseguições, tortura e assassinatos. Nessa atmosfera de medo e horror, qualquer um poderia ser a próxima vítima e é sobre isso que Elis canta.

 

Chico Buarque – Roda Viva (Giovanna Stael)

Roda Viva. Ao contrário: A Vida Dor. Representando a impotência da população frente à um regime autoritário, Chico canta a angústia de não poder decidir sobre o próprio destino. Com a contínua retirada das liberdades individuais, reprimidas pelo autoritarismo, a roda de samba acabou.

 

Where’s the Revolution – Depeche Mode (Maria Clara Rossini)

Essa música foi escrita no contexto do Brexit, vitória do Trump nos Estados Unidos, políticas anti-migratórias, decadência da globalização e ascensão da direita em todo o mundo. Ela faz uma apologia à necessidade de mobilização social pela recuperação de direitos e do poder de tomada de decisão, a qual não ocorre devido ao uso do terror e medo como arma. A banda veio ao Brasil em maio de 2018 e não se manifestou sobre a política do país (houveram apenas gritos de “Fora Temer” vindos da plateia). Se o show ocorresse em outubro, porém, não duvido que aparecesse um #EleNão no telão.

 

Information Society – Fascist Groove Thang – We Don’t Need This – (Maria Clara Rossini)

A música foi composta originalmente em 1981 pela banda Heaven 17, mas foi regravada em 2016 pelo Information Society. Ela faz críticas e denúncias de racismo e fascismo em um ritmo dançante típico do New Wave dos anos 1980. A maneira descontraída e quase despercebida com que faz a crítica se reflete em sua letra: ela aborda a “onda” de intolerância pela qual as pessoas estão se deixando levar, pouco refletindo ou sabendo onde vão parar.

 

Paralamas do Sucesso – Luís Inácio (300 Picaretas) (Júlia Mayumi)

Composta em 1995 por Herbert Vianna, a música fala sobre corrupção no Congresso Nacional, e chega a citar políticos envolvidos em escândalos à época. Um deles chegou a pedir a censura da música, que sofreu boicote nas rádios. Em entrevista à Folha de São Paulo em 2005, o compositor ressaltou a importância de analisar a música sem anacronismos, e afirmou que prefere não condenar Lula. De qualquer maneira, como disse João Barone, baixista da banda, na mesma reportagem, “o que a música diz ainda é fato” e o tema segue atual.

 

Roger Waters – Is this the life we really want? (Karina Merli)

Descrição: Essa música é uma crítica explícita a Donald Trump, com o áudio de sua fala à CBN logo no início dela. Waters fala do nosso silêncio, da forma como o medo nos faz aceitar coisas absurdas, como o sumiço de um jornalista, a vida de perdida de uma jovem… Nela vemos o quanto a nossa sociedade é indiferente e precisa refletir, porque temos o poder de mudar a nossa realidade.

 

Secos e Molhados – Assim Assado (Pedro Teixeira)

O som começa ao quebrar da bateria, orgânico como o couro, à maneira que a época pedia, marcada pelo balançar da meia-lua. O baixo bem compassado sobe repentino, porém gostoso, acompanhado da doce flauta de bambu, abrindo espaço tanto para a voz de Ney Matogrosso, como à letra acusativa de Sérgio Ricardo, apesar da oposição clara; guitarras sirene baseada em cassetetes e grilhões.

A inteligente referência aos quadrinhos da época, evocando o policial repressor de Manda-Chuva, de forma a permitir a imposição do velho, assado como diz a letra. O antigo, entretanto, é fadado a cair. O Guarda Belo, então, torna-se herói ao garantir a continuidade do ultrapassado.

Acusação nada mais justa, Ney uma minoria em meio ao regime militar, garantista nos costumes, e Sérgio um expatriado do governo Salazar em Portugal. Todos afrontosos na postura Glam, ainda a frente de seu tempo.

 

Sérgio Sampaio – Eu Quero É Colocar Meu Bloco Na Rua (Pedro Teixeira)

O jovem capixaba, um dos muitos migrantes da ditadura militar, saiu de casa em busca de possibilidades no Rio de Janeiro, o principal polo cultural do Brasil, até então. Raul Seixas- um grande entusiasta da poesia de Sampaio, lembrada por beber em Kafka e Augusto dos Anjos — produziu o CD que abriga esta bela canção, tal como convocou a Banda Azymuth, conhecida por participar de álbuns icônicos do período.

Cercado por uma melodia triste, porém suave de violões, harmonizada por cordas, Sampaio brinca com rimas internas e entre versos, umas ricas, outras pobres, descrevendo o lamentar de toda uma geração, devido a falta de mobilização e agora em confronto com o Governo Médici.

O cantor, em vista disso, chama (enquanto sobre o sambinha da percussão) a necessidade de se colocar o bloco na rua; ser feliz, cantar e beber! Vale lembrar que todo autoritarismo elege um inimigo básico, um dos recorrentes são o que chamam de libertinagem por incompreensão.

Em uma antiga entrevista a Zeca Baleiro, o cantor intima: “Meu bloco eu já botei na rua, agora falta o de vocês!”

 

Idles – Danny Nedelko (Pedro Teixeira)

Falando dos inimigos eleitos pelo autoritarismo, os imigrantes foram eleitos os novos párias pelo mundo. Aqui em terras tupiniquins não é diferente. Venezuelanos sofrem absurdos frequentemente.

O riff agressivo do hardcore, contrasta com os versos chamando empatia. O imigrante é seu irmão, é seu ídolo, fundamentalmente o mesmo que você, em contraposição às belas diferenças intrínsecas do si.

Medo gera pânico, levando à dor. Todos fontes de vulnerabilidade perante a opressão. Chocaremos Hannah Arendt elegendo novos expatriados?

 

Ava Rocha – Joana Dark (Pedro Teixeira)

A artista completa toma a voz dos dois lados da relação de confronto, de forma a narrar o constante conflito da opressão. O MPB de Ava, em uma nova ironia, em sua complexa percussão e arranjos heterodoxos, toma a forma de Funk Carioca como mais uma prova que a expressão artística também não restringe-se à caixinhas. As várias vozes crescem também na composição física, o canto dá-se em coro, enquanto gemidos, prazer e desespero, dão-se ao fundo.

As rainhas são aquelas do pecado. A fumacinha heresia. Mas há alguém de olho, achando que manda. Quem mando? Queimando? Para alguém mandar, outro há de queimar.

Quem queima? As Joanas D’arc, mulheres corajosas, assumem o comando e desafiam o senso comum. Assim, tornam-se bruxas. Obscuras, para o culpado que não quer ficar babando.

Joana Dark é a disputa de narrativa das mulheres frente ao autoritário

 

Sons of Kemet – My Queen is Ada Eastman (Pedro Teixeira)

A banda britânica de origem latina/africana, conta com um dos melhores conjuntos de percussão e sopros do mundo atual, tal como com excelente posicionamento político. À medida que os instrumentos dançam em uma percussão rápida e marcada, o saxofone ora canta livre, outra torna-se base para os fortes versos do rap.

O clima diferente, triste e frio de Londres é deveras mais pesados com a repressão ao estranho pelas diferentes instituições. O diamante, de toda maneira, são as determinações políticas daquele cantando, gerando união, independentemente do custo.

Uma presença convocando sobretudo unidade, ignorando caras. Rosto chamando o outro.

“I”m still here”.

 

Rage Against The Machine – Bulls On Parade (César Costa)

Uma das maiores bandas de todos os tempos quando se trata de protesto. E não é à toa o histórico que ela carrega consigo de ser contestadora: é mais difícil achar uma música deles que não tenha essa temática do que uma que tenha. Bulls On Parade é um hino do Rock e de quebra vai matar também suas saudades do saudoso Guitar Hero.

 

Rage Against The Machine – Know Your Enemy (César Costa)

Mais do Rage porque uma é muito pouca perto de tudo que já fizeram. Com muito ódio, Know Your Enemy segue com a pegada forte tradicional da banda. A agressividade, tanto musicalmente quanto na letra, não deixa ninguém ficar acomodado no lugar onde está. “Conceder, Conformidade, Assimilação, Submissão, Ignorância, Hipocrisia, Brutalidade, A elite – Todos esses são sonhos americanos”.

 

System Of A Dowm – B. Y. O. B.

(César Costa)

“Por que eles sempre mandam os pobres?”. System nunca mediu palavras em suas letras e traz sempre acidez e intensidade em suas ótimas composições. Entre as diversas críticas da obra prima do heavy metal B. Y. O. B., uma delas aponta para a apatia de quem não confronta enquanto há tempo. Prepare-se que o som é pesadíssimo.

(Luciana Cardoso de Souza)

A música foi o primeiro single do álbum Mezmerize, de 2005. “B.Y.O.B.” (“Bring Your Own Bombs“) ou “Tragam Suas Próprias Bombas” tem alto teor político e fala sobre as guerras e os riscos que elas trazem, fazendo crítica ao governo norte-americano e contra a guerra do Iraque.

“Por que os presidentes não lutam na guerra?” e “Por que eles sempre enviam os pobres?”

 

Bob Dylan – Blowin’ In The Wind (Matheus Souza)

Antes de protestar, é preciso olhar o mundo em volta e perceber suas injustiças. Quando esse momento chega, Blowin’ In The Wind faz todo o sentido. A letra, tão simples, diz muita coisa, e a melodia agridoce combina com a realidade de quem dedica a vida à luta: embalada em esperança, mas sempre guardando um tanto de melancolia.

 

Peter, Paul & Mary – Very Last Day (Matheus Souza)

À primeira ouvida, talvez seja difícil pensar nessa música como algo além de um hino religioso. Mas, lembrando o contexto em que ela era cantada pelo trio Peter, Paul e Mary, o significado cresce: Estados Unidos dos anos 60, em meio à Guerra do Vietnã e a efervescência dos movimentos negro, feminista e LGBT. Com pano de fundo cristão, Very Last Day é uma canção para celebrar o dia em que todas as injustiças serão sanadas, as preocupações ficarão para trás e não será preciso batalhar tanto pra ser tratado com dignidade. Um dia que vai chegar, por mais longe que esteja.

 

Elza Soares – A Carne (Matheus Souza)

A desigualdade racial no Brasil foi e é cantada por muitas vozes, e Elza Soares é uma das mais marcantes. A Carne fala de um povo que tanto ajudou a construir nossa ideia de nação e cultura, mas continua largado às margens da sociedade; que segura o país no braço e mesmo assim é lançado aos presídios, cemitérios, subempregos e manicômios a troco de nada. Constatação verdadeira em 2002, ano em que a música foi lançada, e que infelizmente continua válida.

 

Racionais MC’s – Fim de Semana no Parque (Matheus Souza)

Acho que qualquer faixa do Racionais poderia entrar nessa playlist. Desde o início da carreira eles se dedicam a cantar sobre a vida de jovens negros na periferia paulistana, e, nesse caso, toda música inevitavelmente será protesto contra alguma injustiça sofrida. Uma das mais famosas, Fim de Semana no Parque, ilustra de forma incisiva certas contradições da realidade brasileira, onde o que se conhece como infância é bem diferente a depender da cor da pele, lugar de residência e classe social.

 

Linn da Quebrada – Bixa Preta (Matheus Souza)

“Bixa” e “preta” são expressões que poderiam ser usadas como ofensa, dependendo de quem fala. Aqui não, aqui nunca. Aquilo que tentam usar como pedras para atingir os marginalizados, Linn da Quebrada pega e transforma em contra-ataque. É o orgulho de si necessário para engolir o choro e ir às ruas lutar pelo que é nosso.

 

Daron Malakian and Scars On Broadway – Dictator (César Costa)

A música que dá nome ao álbum lançado em 2018 é uma forte crítica ao autoritarismo. No cenário distópico criado na canção que carrega o som inconfundível de Scars, Daron deixa claro que a salvação não é através de um falso herói.

 

Lady Gaga – Born This Way (Gabriel Bastos)

Nesses tempos difíceis, vemos a democracia ruindo e as pluralidades pessoais sendo cada vez mais oprimidas, com uma crescente discriminação do que foge ao considerado padrão. E é com essa música que a Mother Monster promove a auto afirmação de seus pequenos monstrinhos, mostrando que todos são bonitos como são, e que não é errado ser quem você é! Não importa a etnia, o gênero, a crença, a orientação sexual… Com esse hino de luta, Gaga se posiciona na resistência pelos direitos dessas minorias e diferenças, e estimula a todos que digam: não! Não há nada de errado, nós nascemos assim!

 

Natália Lafourcade – Derecho de Nacimiento (Pedro Teixeira)

A música como tantas outras coisas, sobretudo nessa geração, é das mulheres. O movimento das grandes vozes femininas ultrapassa o MPB e chega a toda a América Latina. A mexicana Lafourcade talvez seja um dos maiores expoentes dessa tendência quando mistura o estilo tradicional ao jazz (com maestria, diga-se de passagem).

As percussões iniciais evocam um ambiente ancestral, enquanto o dedilhar clássico dos mariachis, sustentados num sóbrio e preciso baixo acústico, acompanham a voz aveludada de Natália.

A cantora assume postura de poeta alvissareira, brincando suavemente com as palavras, dizendo: direito de nascença é ter liberdade de pensamento; gritar para os que nos mentem, tal como àqueles que levaram nosso ouro.

Quando não se há escolha, existe a imposição da morte. (Bela ironia sobre o aborto, talvez?)

 

Tom Zé – Todos os Olhos (Pedro Teixeira)

Quiçá uma das descrições mais exóticas da censura, tortura e manipulação do regime militar.

A canção é uma espécie de samba, dos bens tortos; uma percussão em ritmos nada comuns, além dos acordes dissonantes dos violões que mostram-se ocasionalmente.

Em meio à essa pequena confusão experimental, Tom Zé acusa quem é o cão que assume o cordeiro como perigo real, a fim de justificar suas chicotadas. Os animais são literalmente simulados ao longo da faixa.

Um verdadeiro jogo de vontades em busca de uma confissão infundada.

 

Chico Buarque – Apesar de Você e Caetano Veloso – Alegria, Alegria (Léo Lopes)

As músicas de protesto que mais me marcaram foram sempre as que optam pelo tom de não se deixar abalar. Sobre seguir em frente, tá tudo uma merda mas a gente não pode largar a mão. “Apesar de você” e “Alegria, Alegria” são dois retratos da ditadura militar pintados com palavras. Mesmo reforçando o autoritarismo do momento, Chico e Caetano conseguem através de uma levada eufórica da MPB setentista reforçar o sentimento de resistência. “Quando chegar o momento/ esse meu sofrimento/ vou cobrar com juros, juro”. “Eu vou/ sem lenço, sem documento/ nada no bolso ou nas mãos./ Eu quero seguir vivendo, amor”. Em momentos como o que estamos agora essas músicas ainda ajudam muito. Amanhã há de ser outro dia.

 

Criolo – Convoque Seu Buda (Tamara Nassif)

Quando pensamos em “música de protesto”, logo vem à mente o movimento tropicalista, as composições brilhantes de Chico Buarque, a sensibilidade crua de Caetano Veloso e a sensibilidade nua de Vinícius de Moraes e Tom Jobim. Mas o protesto não acaba na ditadura. A ditadura não acabou na ditadura. Como explicar que vivemos em um país democrático quando crianças trajando uniformes escolares são mortas em favelas por serem confundidas com traficantes de drogas? Ou quando vereadoras feministas, protagonistas da própria vida e lutando para se fazerem protagonistas da vida pública, são executadas por “mexerem no vespeiro”? “Toda noite alguém morre, preto ou pobre, por aí”. Ainda que “Convoque Seu Buda” seja uma produção de 2014, ela e o álbum homônimo de Criolo são a forma mais pura de fazer protesto contra uma realidade brasileira que já não consegue mais ser disfarçada com outdoors na Copa do Mundo e migalhas de projetos sociais. “Se o pensamento nasce livre, aqui ele não é não”, e precisamos nos apegar e convocar o que transborda amor e respeito ao outro. Talvez assim consigamos nos munir de esperança e ser a resistência que um dia fomos nos anos 1970. “É humilhação demais que não cabe nesse refrão.”

Por Equipe Sala33

Sala 33
O Sala33 é o site de cultura da Jornalismo Júnior, que trata de diversos aspectos da percepção cultural e engloba música, séries, arte, mídia e tecnologia. Incentivamos abordagens plurais e diferentes maneiras de sentir e compartilhar cultura.
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