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O terror lovecraftiano em Aniquilação
SCI-FI
02 out 2019 | Por Guilherme Bolzan (guilhermeppbolzan@usp.br)

O filme Aniquilação (Annihilation, 2018), produzido pela Netflix e dirigido por Alex Garland, nos apresenta uma história de terror e suspense, mas de uma maneira diferente da que estamos acostumados. Seu enredo acompanha Lena, interpretada por Natalie Portman, uma cientista cujo marido desaparece após uma expedição para uma área isolada, que a cada dia cresce mais. É nela onde ocorre o conflito principal do filme, possuindo a aparência de uma grande bolha e contendo em seu interior diversos animais e plantas alterados por um meteorito contendo um ser alienígena.

Após diversas expedições fracassadas, Lena reúne um grupo de cientistas para uma nova empreitada, buscando entender porque essa área se expande, causa diversas mutações e tentar impedir seu crescimento, tendo de chegar ao local do impacto original para isso. Durante seu percurso, as personagens sofrem diversos ataques e fazem descobertas perturbadoras, tanto sobre a natureza do local em que estão como sobre o destino dos exploradores anteriores.

Cena do filme Aniquilação. Imagem: Paramount Pictures

Cena do filme Aniquilação. Imagem: Paramount Pictures

Uma das maiores qualidades deste filme é o modo como lida com seus elementos de terror. Ao invés de possuir uma criatura que ataca os personagens ou algum tipo de agente sobrenatural maligno, Aniquilação trabalha com ficção científica e uma ameaça alienígena abstrata, que não é simplesmente uma criatura antropomórfica buscando dominar o planeta.

Os alienígenas em si não estão presentes na maior parte do filme e seus comportamentos não são semelhantes ao de um ser humano, um problema que muitos dos filmes que tratam de seres extraterrestres possuem. Afinal, se uma forma de vida realmente se desenvolveu em outro planeta, com condições completamente diferentes de clima, atmosfera e recursos naturais, por que ela deve parecer conosco? Por que ela deve ter os mesmos cinco sentidos, a mesma forma de corpo e a mesma maneira de se comunicar e comportar?

Aniquilação evita esses problemas, tratando o alienígena de forma muito mais realista: ele não sente como nós e nem sequer se comunica. Dessa forma, não possui intenções malignas. A sua maior característica é que ele altera o ambiente ao seu redor, causando mutações. A maneira como se comporta é imitar o que vê ao seu redor, por isso ele toma a forma dos diversos animais e plantas locais (e até, ocasionalmente, de um humano), fundindo-se e alterando o que encontra.

Justamente por causa da maior ameaça do filme se comportar de maneira passiva, o enredo não fica escravo de clichês do gênero, como sustos do tipo jumpscare e a necessidade de derrotar o líder maligno invasor. Ao invés de depender dessas ideias já gastas, o filme vai em uma direção diferente para gerar seu terror: ele parte não das criaturas, mas sim do próprio ser humano. É um terror psicológico, existencial, em que as criaturas apenas servem para trazer à tona questões já internas dos personagens e dar dinâmica no filme a medos que todos nós já possuímos. Não é à toa que o alienígena é um reflexo do que vê, pois, dessa forma, ele pode ser um reflexo do próprio humano, fazendo o público observar a si mesmo ao ver sua humanidade reproduzida de maneira muito fiel, mas ao mesmo tempo muito enviesada.

Por esse motivo, o filme encaixa-se em um gênero de terror pouco explorado no cinema de hoje, justamente por ser difícil de atingir: o terror lovecraftiano. Esse gênero tem seu nome derivado do autor H. P. Lovecraft, o primeiro a criar estas criaturas que assustam não por seu design ou comportamento sanguinário, mas por sua magnitude e poder, capazes de colocar em pauta questões existenciais dos que a observam.

O filme faz um bom trabalho em explorar este terror lovecraftiano, permitindo que os elementos de ação e os sustos sejam apenas um elemento de fundo, dando mais destaque ao mistério em si, o que ajuda a deixar o público intrigado e engajado nas quase duas horas de duração. Esse aproveitamento é amplificado pela grande quantidade de momentos silenciosos e reflexivos, mas também pela alta qualidade nos efeitos especiais do filme, especialmente os cenários ricos e detalhados com um aspecto surreal. Muitos deles são efeitos práticos, realizados com objetos físicos que os atores podem interagir, melhorando sua atuação. E mesmo nas cenas onde se usa computação gráfica, esta é muito bem feita, interagindo com os atores com grande realismo. Outro fator interessante é que o filme cria uma identidade visual bastante particular, logo se percebe qual é a estética usada para mostrar a influência do alienígena, e isso é utilizado durante o seu enredo, em que somente por vermos um certo efeito especial já podemos associá-lo com sua influência.

Talvez o aspecto mais impactante do filme seja algumas de suas cenas altamente perturbadoras. Sem adentrar muito nos detalhes do enredo, podemos dizer que em diversas ocasiões a ideia de um ser incorporando uma humanidade distorcida é utilizada com grande impacto no espectador, fazendo refletir e manter cena em mente muito depois de acabar o filme. Sem dúvida, parte disso se deve ao já mencionado trabalho da equipe de efeitos especiais, que deram a verossimilhança necessária para que temas como esse sejam abordados.

Apesar de este filme merecer muitos elogios no modo como lida com seu tema e na discussão que adentra, ele falha bastante ao tratar de seus personagens. Isso parece uma oportunidade desperdiçada, já que personagens mais bem discutidos poderiam ser usados para ampliar e aprofundar estes temas de terror existencial psicológico. Infelizmente, parece que a ação dessas personagens é secundária e eles possuem todos pouco impacto na trama em geral, servindo apenas como acompanhantes, quase como guias de turismo que te levam para as reais atrações. Algo que ocorre principalmente por tratarem dos personagens apenas com maneirismos, não uma personalidade multidimensional: possuem uma ligação importante com a área isolada, um fato marcante de seu passado, um objetivo central e uma maneira de agir. E isso vale para todos, inclusive para a protagonista.

Justamente por essa fraqueza nos personagens, em todo momento que o enredo tenta trazer a história ao nível pessoal da equipe de exploradores, falha, já que a real atração é sempre algo além delas, que as transpassa em sua magnitude. Por isso, as mortes de certos personagens são muito pouco impactantes, e os desenvolvimentos do conflito que inicia o filme (entre Lena e seu marido desaparecido) parecem apenas desvios da real história. Algo que parece ter prejudicado bastante as avaliações do filme  (hoje, apenas 77% positivo na própria Netflix) é uma tentativa de terminá-lo com um momento mais pessoal, justamente no que ele mais falha. As últimas cenas parecem desnecessárias e incompletas, buscando deixar um final em aberto que não aparenta se encaixar com o que foi construído até então.

Apesar disso, o filme continua sendo muito bom, especialmente quanto ao tema e conceito geral. Criar um enredo que possa ser classificado como terror lovecraftiano é realmente algo muito difícil e é muito comum em filmes como esse que os personagens possam parecer diminutos diante da grandiosidade do que ocorre além deles. Afinal, o terror provém justamente da diminuição da condição humana diante de um agente externo além de qualquer limite de nossa compreensão. Mesmo que esses personagens sejam muito fáceis de esquecer (tive de olhar o nome da protagonista para escrever este texto minutos depois de terminar), a produção definitivamente deixa um enorme impacto no seu público, sendo altamente perturbador e gerando reflexões bastante profundas, valendo assistí-lo como uma experiência, não unicamente como filme.

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