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O valor da liberdade na nova obra de Stephen King
Na Estante
31 dez 2019 | Por Karina Tarasiuk (karinatarasiuk@usp.br)

O Instituto (The Institut), escrito por Stephen King e lançado pela Companhia das Letras em 2019, conta uma história sobre amizade, medo, liberdade e esperança. A trama é tão contagiante que não se consegue parar de ler. Os acontecimentos são bem interligados e despertam atenção e curiosidade. Diferentemente da maioria dos livros do escritor, este não conta uma história de terror, mas permanece com a temática de suspense e ficção científica.

A fluidez da leitura é facilitada por sua divisão: possui nove partes, e cada uma delas tem vários capítulos curtos, que conferem uma pausa dramática à narrativa. Dessa forma, as 543 páginas tornam-se tão dinâmicas quanto 100 páginas, embora a trama seja rica em acontecimentos, vozes e detalhes.

O livro começa com a história de Tim Jamieson, que, por impulso, e também por acaso, decide reiniciar sua vida como vigia noturno na pequena cidade de DuPray, na Carolina do Sul. Isso parece não ter relação com a ideia do livro resumida na sinopse, e seu aparecimento só faz sentido muitos capítulos depois.

Na segunda parte, surge Luke, um garoto de 12 anos de Minneapolis. Possui uma vida normal, tirando o fato de ser um gênio, estudar em uma escola para crianças muito inteligentes e ter se candidatado para entrar em duas faculdades com essa idade. Mas há outro detalhe incomum em sua vida: às vezes consegue mover pequenos objetos ou apagar luzes de vela apenas com a mente. O fato é conhecido pelos pais, porém pouco comentado em razão de sua inteligência avançada possuir maior destaque.

Uma noite, no entanto, tudo muda. Duas mulheres e um homem invadem sua casa, sequestram-no e matam seus pais. No outro dia, Luke acorda em um quarto parecido com o seu, mas sem janelas. Ao sair do quarto, percebe estar em um ambiente semelhante a uma prisão. Conhece Kalisha, uma garota da sua idade que o explica o que é tudo aquilo. Eles estão no Instituto, um local que “recruta” crianças com poderes de telepatia e telecinesia para usá-las como armas em uma “guerra mental”.

Além do sequestro, o Instituto também realiza outros atos ilegais contra as crianças do local: confinamento, tortura e liberação – até com certo incentivo – de cigarros e bebidas alcoólicas para menores. As crianças são submetidas a atividades diárias para que seus poderes sejam estimulados e controlados, e para a responsável, a sra. Sigsby, decidir em que aplicá-los.

Luke e seus novos amigos se revoltam com a situação do Instituto e iniciam um plano de motim, que é auxiliado por Maureen, funcionária da limpeza arrependida por seus anos de contribuição à organização. Com os questionamentos das injustiças e da vida degradante no local, a amizade das crianças se reforça e elas percebem que o maior bem que poderiam ter é a liberdade, valorizada apenas em situações extremas: “Ocorreu a ele de repente que era preciso ficar preso para entender o que de fato era liberdade” (página 266).

Maureen é uma personagem que foge do maniqueísmo dos funcionários do Instituto, recebendo um julgamento diferente. Aceitou o emprego por necessidades financeiras: tinha um filho para criar e as contas que o marido deixou em seu nome para pagar. Quando começou a trabalhar no local, criou empatia pelas crianças, mas não foi fácil sair da situação. Como a personagem diz, “o Instituto é como o que dizem sobre a máfia: quando você entra, não consegue mais sair” (página 401). Ajudar Luke e seus amigos é uma forma de se redimir.

Como os demais funcionários, Maureen é ex-militar. Esse pré-requisito ocorre em função do tratamento direcionado às crianças e da necessidade de sigilo do Instituto, localizado nas florestas do Maine. Nem moradores das cidades próximas sabem, com certeza, o que é o local. Em um momento do livro, isso é comparado aos campos de concentração da Alemanha nazista e ao fato de muitos habitantes se recusarem a aceitar que tal fato fosse real. O fenômeno, diz Luke, é chamado negacionismo, e poderia acontecer também com o Instituto. 

A história é narrada em terceira pessoa e apresenta, muitas vezes, discurso indireto livre, o que ajuda a mostrar o pensamento das personagens e seu psicológico. Além disso, o foco de cada personagem se altera constantemente, de modo que a narrativa não é só centrada no que acontece com Luke e seus amigos, mas também com Julia Sigsby e seus capatazes, diferentes funcionários do Instituto e, depois, Tim, seus amigos e colegas de trabalho.

O livro também aborda críticas políticas, sobretudo ao governo de Donald Trump – explícita logo no início, quando Tim conhece uma senhora membra de uma associação de bibliotecas que perdeu a verba governamental: “Trump e seus amiguinhos retiraram tudo. Eles entendem de cultura tanto quanto um jumento entende de álgebra” (página 15). Posteriormente, há uma crítica à campanha eleitoral de Trump contra Hillary Clinton.

Quem lê questiona valores éticos diante da postura do Instituto – aprisionar crianças para, supostamente, salvar o mundo – e reflete que alguns sacrifícios para a humanidade nem sempre valem a pena. O porquê de o Instituto evitar guerras globais é um mistério que só será completamente revelado no final, tornando-se mais um fator a intrigar a leitura.

O Instituto traz uma aventura instigante que propõe reflexões sobre o significado de liberdade, justiça e amizade. Além disso, mostra os efeitos negativos de um amadurecimento forçado ao qual as crianças do Instituto são submetidas, perdendo sua infância. Embora o enredo seja um pouco pesado, a leitura é leve e descontraída, acessível a qualquer pessoa que se interesse por mistério, aventura e pelo sobrenatural.

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