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Olho Nu: onde Ney Matogrosso deixa cair as máscaras, mas mantém o show
CINÉFILOS
14 maio 2014 | Por Jornalismo Júnior

Por Juliana Brocanelli
brocanelli.juliana@gmail.com

Três anos na estrada durante a turnê do disco “Inclassificáveis”. Cerca de 300 horas de gravação. Arquivo pessoal e filmagens exclusivas. É deste rico material que nasce o filme-ensaio “Olho Nu”, um documentário inovador que se propõe a escancarar a vida e carreira de Ney Matogrosso. O filme tem direção de Joel Pizzini e coprodução do Canal Brasil, que já adianta a intenção de tornar “Olho Nu” uma série televisiva.

O cantor, ator e diretor brasileiro, Ney Matogrosso, aparece na telona como pessoa e personagem. Os mais de 100 minutos de filme cumprem a intenção de eternizar uma das vozes mais envolventes, impactantes e polêmicas do Brasil. O longa tem um quê biográfico, mas não deixa de ser um autorretrato cuidadosamente pincelado pelo sul-mato-grossense. A declaração de Joel Pizzini, cineasta brasileiro que já dirigiu o cantor no curta “Caramujo-flor”, é quase uma síntese do que é a obra: “não é um filme ‘sobre’, mas ‘com’, ou ‘através’ de Ney”.

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Como era de se esperar, a produção usa e abusa do vasto repertório musical e visual do cantor. As portas dos camarins são abertas, trechos inéditos de shows com o “Secos e Molhados” são mostrados e apresentações recentes da carreira solo de Matogrosso também entram na dança. O contato com o tropicalismo, bossa-nova e a explosão da “geração Woodstock” não escapa da câmera. Parcerias com vozes famosas da música brasileira – Caetano Veloso, Toquinho – são lembradas de forma suave, sem o peso do saudosismo. Tudo isso para desenhar a metamórfica trajetória profissional de um artista completo e multifacetário.

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No entanto, um parceiro notório na vida de Ney é quase deixado de lado: Cazuza. Em entrevista, Ney afirma que Cazuza foi um dos grandes amores de sua vida. Mesmo assim, o filme reduz a participação do Exagerado às parcerias de palco. Esse certo pudor também se estende às drogas. O assunto é tratado de forma contida, diferentemente de como o cantor sempre lidou com o tema: “Nunca escondi [o uso de drogas], sempre transitei com muita liberdade pela vida”. Uma das cenas é reservada à relação com o LSD. A sobreposição de três vozes no trecho, porém, dificulta o entendimento e contribui para criar uma névoa sobre o assunto. Nesse aspecto, a produção deixa a desejar na ousadia e acaba por distorcer a vida do homem-personagem por conta do conservadorismo.

Parte do enfoque do longa se destina ao vínculo que Matogrosso estabelece com a natureza. Uma de suas falas no filme explicita essa afinidade: “Eu não queria nascer de novo, queria voltar como espírito guardião da natureza”. De volta à Bela Vista, sua terra natal, Ney visita os lugares mais marcantes de sua infância e reafirma o contato com a terra numa explosão de cenas sinestésicas. Os sentidos, aliás, fazem parte de um dos aspectos mais explorados pelo diretor. Há um jogo constante de sensações, lembranças e impressões que se desenvolve de forma não linear.

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A personalidade subversiva, sedenta de liberdade e mudança de Ney Matogrosso, é evidenciada durante os recortes de sua participação na campanha “Diretas Já!”. Filho de militar, o homem e, principalmente, o artista cultivou uma relação conflituosa com o pai. “Eu já nasci transgressor”, brinca Ney durante a trama

Fugindo do tom nostálgico que normalmente envolve esse tipo de produção, “Olho Nu” incorpora a irreverência de um dos maiores intérpretes de nossa música e abraça a sensualidade do homem-personagem. É cravada a imortalidade de Ney de Souza Pereira, um legítimo filho do sangue latino.

 

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