Home Virou História Os 80 anos do Pelé: sua breve carreira nos Estados Unidos
Os 80 anos do Pelé: sua breve carreira nos Estados Unidos
ARQUIBANCADA
22 out 2020 | Por João Timm (joaotimm@usp.br) e Tomás Novaes (tomasnovaes@usp.br)

Em 1974, Pelé já era o maior e mais famoso jogador de futebol do mundo. Ele havia se aposentado da seleção brasileira, tendo ganho três títulos mundiais e alcançado a marca dos mil gols na carreira. Então, com 34 anos, o mineiro da cidade de Três Corações decidiu sair do futebol: no dia 2 de outubro de 1974, em um jogo contra a Ponte Preta, Pelé se despediu do Santos. 

O jogo terminou em vitória santista, 2 a 0. Pelé só jogou os 20 minutos iniciais, depois se ajoelhou e se despediu dos mais de 20 mil torcedores que estavam presentes. Em sua trajetória pelo time alvinegro, foram 18 anos, 1.091 gols e mais de 30 títulos. Mas a sua despedida do futebol não foi ali, naquela quarta-feira de outubro, como alguns acreditavam. Em 1975, Pelé sairia da sua breve aposentadoria para jogar nos Estados Unidos. 

Pelé ajoelhado e de braços abertos em sua despedida da Vila Belmiro

Pelé ajoelhado e de braços abertos em sua despedida da Vila Belmiro [Imagem: Acervo/Santos FC]

A curta duração da sua aposentadoria na década de 70 pode ser explicada por uma complicação surpreendente na vida do craque: o dinheiro. Ainda na década de 60, Pelé se juntou ao empresário José Ozores Gonzales, conhecido como “Pepe Gordo”, e confiou nele a gestão do seu patrimônio. Foi seguindo indicações dele que Pelé investiu seu dinheiro em diversas empresas e imóveis que só lhe devolveram prejuízo financeiro. Portanto, apesar de, em 1974, Pelé ser o maior astro do futebol mundial, sua condição financeira não acompanhava seu sucesso no gramado.


Na terra do Tio Sam

Com um contrato milionário, Pelé saiu da sua semi-aposentadoria em 1975 para jogar três anos no New York Cosmos. Não existe um número definido do salário do Rei nos EUA, mas especula-se que teriam sido US$ 2,8 milhões por ano. O que se sabe com certeza é que Pelé era o atleta mais bem pago do planeta — nem o Most Valuable Player (MVP) da NBA na temporada 1975-76, Kareem Abdul-Jabbar, recebia um salário como esse. 

O NY Cosmos era um clube do conglomerado Warner. Com a contratação do maior astro do futebol mundial, o mundo da bola começou a ganhar outra dimensão. Pelé não era mais só um jogador, era uma marca – assim como são Neymar, Cristiano Ronaldo e Messi nos dias de hoje. 

Sílvio Lancellotti, jornalista esportivo que viveu de perto essa fase da carreira do Rei do Futebol, conta que a ida do Pelé foi “a glória das glórias”, e que o Cosmos foi “uma espécie de seleção internacional”. Nos anos 80, aquele mesmo Cosmos entraria em falência, sendo recriado em 2010. O fenômeno do time nova-iorquino foi meteórico, e Pelé foi o protagonista desse movimento — o time teve de insistir para que o Rei aceitasse a contratação: Clive Toye, o gerente da equipe, tentava fechar um contrato com o Pelé desde 1971.

Pelé em ação no New York Cosmos

Pelé em ação no New York Cosmos [Imagem: Acervo/NASL]

Pelé não foi o único jogador contratado pelo NY Cosmos na temporada de 1975. Junto dele, foram seus ex-companheiros do Santos Nelsi Morais e Manoel Maria, o peruano Ramón Mifflin, que também jogou no Peixe, e o israelense Mordechai Spiegler, que havia jogado pela seleção de seu país na Copa de 70. Quanto aos jogadores que já estavam no time, o destaque vai para Werner Roth, zagueiro da seleção americana.

As regras da Liga Norte Americana de Futebol (NASL) eram bastante peculiares. Cada vitória valia seis pontos, com o bônus de um ponto por gol marcado (limitado a três pontos por partida). Não existiam empates: caso o tempo regulamentar terminasse empatado, disputa por pênaltis, que dava apenas um ponto ao vencedor.

Fora isso, o campeonato não era de pontos corridos: os oito melhores colocados na classificação geral avançavam para uma fase de mata-mata, para então premiar o campeão. Naquele ano o Cosmos teve um desempenho mediano, e terminou em 12° lugar no campeonato.

Em 1976, o time passou por mudanças. Houve a saída de alguns jogadores, entre eles Spiegler e Manoel Maria, mas também novas contratações. Estavam de chegada o atacante italiano Giorgio Chinaglia, vindo da Lazio e iniciando a carreira para se tornar o maior artilheiro da história da NASL, e o goleiro norte-americano Shep Messing, que após uma ano no Boston Minutemen, retornava ao Cosmos.

O time se destacou no campeonato, terminando em segundo lugar na colocação geral. Na fase de mata-mata, ganhou o primeiro jogo, mas na segunda rodada perdeu para o Tampa Bay Rowdies — o único time melhor classificado que o Cosmos. Chinaglia foi o maior goleador do time e vice-artilheiro da liga, enquanto Pelé faturou o prêmio de MVP.


The end of the american dream

O ano seguinte, 1977, era o último do contrato do Pelé: seria a última chance do Cosmos faturar um título com o Rei do Futebol. E o time não decepcionou.

Pelé em 1976 contra o Seattle Sounders. Cerca de 58 mil pessoas foram ao estádio Kingdome, em Seattle, assistir este jogo

Pelé em 1976 contra o Seattle Sounders. Cerca de 58 mil pessoas foram ao estádio Kingdome, em Seattle, assistir este jogo [Imagem: Acervo/Seattles Times]

Nomes de peso se juntaram ao elenco: Carlos Alberto, o eterno Capita, campeão da Copa de 70; Rildo, ex-companheiro de Pelé na Era de Ouro do Santos; e o alemão Franz Beckenbauer, capitão da seleção da Alemanha Ocidental campeã do mundo na Copa de 74. O Cosmos terminou a temporada regular na terceira colocação geral e avançou para o mata-mata.

Na primeira rodada da fase final venceram os Rowdies, que tinham sido os responsáveis pela eliminação do ano anterior. No jogo seguinte, derrotaram o Fort Lauderdale Strikers, primeiro colocado geral, e, na semifinal, venceram o Rochester Lancers. A final foi no dia 28 de agosto de 1977, e o Cosmos bateu o Seattle Sounders por 2 a 1. Além do título, o recém chegado Beckenbauer foi eleito o MVP da temporada.

Pelé encerrou oficialmente sua carreira no dia 1 de outubro daquele ano, em um jogo amistoso entre o Cosmos e o Santos. No primeiro tempo ele jogou pelo time de Nova Iorque, quando fez um gol de falta. Já na segunda etapa, vestiu a camisa do Peixe, e a partida foi um evento.

Lancellotti, que compareceu a esse jogo histórico, disse que “foi um negócio maravilhoso”. Ao final do jogo, “os dois times se juntaram para carregar o Pelé numa volta olímpica — fico todo arrepiado de lembrar — e se tocava ‘A Valsa da Despedida’ durante a volta, ele segurando numa mão a bandeira do Brasil e na outra a bandeira dos Estados Unidos”, relembra.

O jornalista também conta que diversas personalidades ilustres foram ao jogo presenciar o adeus do Rei ao futebol: No estádio estavam presentes diversas personalidades: Muhammad Ali, Telly Savalas, do Kojak, Mick Jagger, Henry Kissinger, ex-Secretário Geral dos Estados Unidos, Donnell Jeffery Carter — filho do então presidente dos Estados Unidos, Jimmy Carter, que não conseguiu estar presente —, o Robert Redford, a Roberta Flack, o Ministro das Relações Exteriores do Brasil, Azeredo da Silveira, o prefeito de Três Corações, o presidente do Santos na época do Pelé, Athiê Jorge Cury, Bellini e o Mauro, eram os capitães das Seleções de 58 e 62 e Carlos Alberto.

A despedida do Rei ficou marcada também pelo seu famoso discurso, em que pediu para todos repetirem com ele “Love, love, love”. Discurso sucinto, mas poderoso: inspirou canção de Caetano Veloso e fez Muhammad Ali se emocionar. É hoje, dia 23 de outubro, que Pelé faz 80 anos — e, coincidentemente ou não, outra grande personalidade do século passado também faria 80 anos em outubro de 2020: John Lennon. Os dois moraram em Nova Iorque durante o mesmo período, e também concordavam em uma coisa, afinal: “All you need is love, love, love”.

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