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Os bastidores das inconsistências em séries e novelas históricas
Controle Remoto
02 out 2018 | Por Jornalismo Júnior

Imagem: Beatriz Crivelari/Comunicação Visual – Jornalismo Júnior

As séries e novelas baseadas em fatos históricos estão ganhando cada vez mais popularidade. No entanto, a mistura entre ficção e realidade pode causar confusão no público, afinal, ele não consegue distinguir o que aconteceu na vida real daquilo que é apenas fantasia. E vale evidenciar que muitas das divergências poderiam ser evitadas, o que colaboraria para melhor ambientação da narrativa, como exemplo: a realeza medieval poderia ter os dentes um pouco menos brilhantes. O bom é que a audiência, ao menos, já está ciente desse infortúnio ao começar a assistir a produção audiovisual. O problema é maior quando a obra é apenas definida como histórica e deixa passar alguns erros óbvios como o citado.

As justificativas dadas pela produção para as inconsistências podem ser agrupadas de modo grosseiro em duas categorias:

Falta de cautela

Embora alguns equívocos sejam fruto de pesquisas mal feitas, muitas vezes a distração nem precisa ser anunciada, pois umas situações deixam claro que tudo se tratou de falta de atenção por parte da produção, afinal, os erros serem propositais seria algo muito grotesco.

Assim, uma garrafa d’água aparece em um ambiente dos anos de 1920; um extintor de incêndio é avistado no Egito Antigo; e até há um celular presente na época imperial do Brasil.

Apesar disso, muitos dos deslizes chegam a ser quase imperceptíveis enquanto se assiste às cenas e, então, não prejudicam a qualidade da obra. É preciso uma análise mais cautelosa, um pouco de conhecimento sobre o período histórico e um olhar bem apurado para capturar certos detalhes.

Licença poética

O dicionário Houaiss define “Licença Poética” como “liberdade de o escritor utilizar construções, prosódias, ortografias, sintaxes não conformes às regras, ao uso habitual, para atingir seus objetivos de expressão”.  Ou seja, analisando-o dentro do contexto audiovisual, pode-se concluir que a incongruência em séries e novelas históricas está liberada em prol do aumento da qualidade da produção sob o aspecto do entretenimento.

Dessa forma, o roteirista consegue deixar alguns acontecimentos reais muito mais interessantes, apenas tomando-os como base para o desenrolar dos fatos na narrativa. Além disso, certas mudanças no cenário e até mesmo no figurino conseguem deixar a produção mais “sensacionalista”, transmitindo a ideia inicial de forma mais impactante. Algo que ilustra essa última afirmação é o fato de na maioria das vezes se contratarem atores os quais se encaixam nos padrões de beleza para interpretarem a realeza como forma de representação da “superioridade” dessa classe social. Evidentemente, esse padrão é prejudicial por perpetuar estereótipos e preconceitos.

O ator Jonathan Rhys Meyers, que interpreta o Rei Henrique VIII em The Tudors, não se parece com o monarca, que – como os retratos mostram – passou a vida acima do peso. (Imagem: Reprodução)

De modo geral, é importante que os responsáveis pelas obras tenham bastante conhecimento teórico para embasar aquilo que desenvolvem, além de muita atenção. Também é necessária a cautela no uso da ficção, a qual é bem-vinda pelo público mas, se utilizada de forma indiscriminada, pode confundir os mais leigos ao transmitir uma imagem errada de certos personagens históricos, por exemplo. E ao espectador cabe o olhar atento e a consciência de se estar consumindo uma obra apenas baseada em fatos reais.

Por Mayumi Yamasaki
mayumiyamasaki@usp.br

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