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Os flamenguistas me fizeram entender que gosto mesmo é de futebol
ARQUIBANCADA
05 fev 2020 | Por Catarina Barbosa (catarinavbarbosa@usp.br)

“O Flamengo é o Brasil na Libertadores”. Ouvi essa fala repetidas vezes depois do 5 a 0 memorável entre Flamengo e Grêmio na semifinal, só que não acreditava nem um pouco nela. Fosse brasileiro ou não, era um time diferente do meu e, pelas regras do futebol, o certo é torcer contra, secar e depois fazer piada com a derrota alheia – o que não está de todo errado, essa competitividade é uma das graças de se gostar de futebol. Por isso, na final, pela lógica, eu torceria pelo River Plate ao invés do Flamengo.

 

Acontece que as coisas foram mudando no meio do caminho

Na sexta-feira, a torcida rubro negra já estava em festa, movimentando as cidades do Rio de Janeiro, de Lima e toda a internet. Ver o povo tão animado e acreditando no título mesmo depois de 38 anos de espera estava mexendo comigo: era gente apaixonada de verdade, pelo time e pelo esporte, depositando todas as esperanças nos noventa minutos que viriam no dia seguinte. Já estava bonito de ver e o time nem tinha entrado em campo ainda. Talvez por não lembrar quando foi a última vez que me empolguei com uma final do São Paulo – o Campeonato Paulista de 2019 foi só mais uma raiva que passei, então não conta – eu estivesse ficando animada com a alegria alheia. Mas não, ainda continuaria com os argentinos.

Já no sábado decidi que iria adiantar todas as minhas tarefas para que tivesse o horário do jogo disponível. Tinha um compromisso marcado às 14h30, mas se tudo ocorresse dentro do previsto, estaria em casa pouco antes das 17h, horário da partida. Bom, as coisas não saíram dentro do previsto e às 17h eu ainda estava na rua. Por isso decidi que iria assistir ao jogo junto com amigos – que estavam igualmente animados – no lugar mais próximo que encontrássemos. Enquanto ainda estávamos na rua, uma gritaria começou de repente: o primeiro gol do jogo havia sido marcado. 

Saí literalmente correndo até uma lanchonete perto do metrô para conferir quem havia feito: era gol do River. Eu comemorei bem menos do que achei que faria. Era estranho porque ao mesmo tempo que queria rir dos cariocas, também fiquei imaginando o clima de velório que ficaria o Rio de Janeiro. Minha mãe diria: “tadinhos, lutaram tanto, Catarina…”. E para além do Flamengo, o povo do Rio realmente vinha lutando tanto para sobreviver ao caos diário que chegava a ser triste pensar que nem o futebol conseguiria dar alegria a eles.

Arrascaeta e Milton Casco na disputa da final [Imagem: Daniel Apuy/Getty Images]

Arrascaeta e Milton Casco na disputa da final [Imagem: Daniel Apuy/Getty Images]

Fomos até uma pizzaria para assistir o restante do primeiro tempo. O time de Jorge Jesus não conseguia chegar à área adversária, enquanto o River Plate ameaçava às vezes, mas não parecia estar interessado em ampliar a própria vantagem. O intervalo chegou e passou, o jogo recomeçou e nenhuma emoção para ambos os lados. Tudo caminhava para que os argentinos levassem o título pela vitória magrinha de 1 a 0. Eu estava terminando de comer minha pizza, já planejando a volta para casa antes mesmo do apito final, quando o Flamengo chegou com perigo na área adversária pela primeira vez no segundo tempo. “Ok, talvez eles consigam levar para os pênaltis. Vamos esperar só mais um pouquinho porque se acontecer vai ser legal”, disse para um de meus amigos. 

De repente uma bate rebate na frente do gol chamou a atenção de todos. A jogada começou com Gabriel, que tocou para Bruno Henrique entrar na área; esse cruzou para Arrascaeta que chutou e errou, depois a bola voltou aos pés de Gabriel, que também tentou e foi parado, com o rebote sobrando para Everton Ribeiro, que chutou nas mãos do goleiro Armani. O Flamengo voltou para o jogo e me animei com eles.

A quem eu estava tentando enganar? Queria que o rubro-negro ganhasse sim! Era um bom time, com jogadores de qualidade e uma torcida apaixonada, que faria uma festa linda e que eu estava doida para ver acontecer. As jogadas bonitas e os gols decisivos me fizeram ser encantada pelo futebol, mas a torcida é um dos fatores que mais me cativa. E era pelos flamenguistas que eu havia sido conquistada, por eles queria que o time do Ninho conquistasse a América.

Teve gol dele [Imagem: Alexandre Durão/Agência Globo]

Teve gol dele [Imagem: Alexandre Durão/Agência Globo]

Quase aos 35 do segundo tempo, Arrascaeta tentou marcar de bicicleta. Ah, se aquela bola entra… No entanto, pouco mais de dez minutos depois, a bola entrou: numa jogada entre o uruguaio e Gabriel, o segundo fez valer todas as plaquinhas que ergueram com seu nome ao longo da competição: teve gol do Gabigol. E eu, que já não estava nem aí para nada, comemorei aos berros como se fosse do meu time. Dois minutos depois o homem volta para dentro da área e faz mais um. Teve muito gol do Gabigol. 2 a 1 já nos acréscimos e Flamengo campeão da Libertadores. Abracei meu amigo enquanto gritávamos “é campeão”. Ele corintiano, eu são paulina. Os dois realmente alegres com a vitória flamenguista.

Logo que cheguei em casa, ouvi buzinas e mais gritos de campeão – e estamos falando da cidade de São Paulo. Meu vizinho ouviu o hino do clube repetida vezes até a madrugada, a internet fervia com memes e vídeos de comemoração da torcida Brasil a fora. Mais uma vez a torcida era o que fazia a diferença: fosse cantando o hino oficial ou a música que relembra o Mundial de 81, conseguiram criar uma atmosfera incrível.

 

Meu dia de flamenguista passou a fazer sentido

É a torcida que faz o jogo brilhar

É a torcida que faz o jogo brilhar [Imagem: Esporte Interativo]

No domingo, enquanto tomava café e assistia a reportagem especial sobre o título, parei para pensar no dia anterior, em que tinha me passado por flamenguista. Naquela hora percebi que, de tão envolvida que me senti pela torcida, amava mesmo era o futebol. São vinte e duas pessoas correndo pra lá e pra cá na tentativa de fazer a bola entrar pela rede, é verdade. Mas tem algo ali no meio capaz de fazer o coração bater rápido, algo que move milhões de pessoas e encanta  cada uma de forma especial.

O futebol é capaz de emocionar, unir e fazer com que todos sejam iguais, nem que seja pelo curto espaço de tempo de noventa minutos. O torcedor da favela tem o mesmo sentimento do torcedor de condomínio e, naquele momento, vivem as mesmas alegrias e choram as mesmas perdas. Pelo amor ao futebol, cada torcedor é capaz de esquecer a semana cansativa de trabalho, a monotonia da rotina ou a correria de tentar manter-se vivo em um mundo cada vez mais rápido e agressivo. Deixam de ser indivíduos para tornarem-se parte de algo maior.

É bem verdade que as torcidas estão longe de serem perfeitas e o jogo nem sempre é justo. Porém, para além de tudo isso, ainda é desse jogo que o povo consegue tirar suas alegrias e enxergar, nem que seja por noventa minutos, o mundo de maneira mais leve.

Chego ao fim dessa crônica feliz por saber que amo meu time e amo ainda mais o futebol – agradeço aos flamenguistas por me ajudarem a entender isso – mas ainda sigo torcendo para o São Paulo, afinal, virar a casaca já seria demais.

Arquibancada
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