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Treinadores estrangeiros: um sinal de alerta
ARQUIBANCADA
25 set 2019 | Por David Ferrari (davidwillianferrari@gmail.com)

Jorge Jesus, Jorge Sampaoli e Pia Sundhage: três treinadores estrangeiros multicampeões no futebol – os dois primeiros na modalidade masculina e a última na modalidade feminina. O primeiro se destaca à frente do Flamengo. O segundo com o Santos. A terceira com a seleção brasileira. Embora pareça mera coincidência o fato de serem profissionais de outras nacionalidades, na realidade é um processo que está acontecendo em busca do desenvolvimento do futebol no Brasil.

Toda grande empresa que tem como meta se desenvolver busca os melhores profissionais no mercado. Assim é na Google, que importa de diversos países grandes mentes. O futebol, em busca da evolução, também passa por este processo. Uns países antes, outros depois. O mercado chinês tem contratado, desde 2016, grandes conhecedores dos diferentes segmentos da modalidade. Dentre eles, treinadores campeões mundiais, como Luiz Felipe Scolari e Marcello Lippi. Na europa, isso aconteceu antes, durante os anos 90. Expoentes do esporte possibilitaram que o continente conseguisse se desenvolver e se tornar uma potência mundial. Esse processo está acontecendo tardiamente no Brasil.

Até meados dos anos 2000, os clubes brasileiros eram geridos por cartolas conservadores. A visão predominante era que quem estava inserido no meio esportivo sabia administrar as diferentes áreas, mesmo sem possuir conhecimentos acadêmicos. Podemos ver isto tanto na gestão administrativa quanto na esportiva. Por exemplo, ex-jogadores eram diretores e presidentes das equipes. Um dos clubes que começou a inovar foi o São Paulo, justamente na década em que foi tricampeão nacional. O sucesso foi tamanho que outros clubes decidiram copiar esse modelo. Contudo, a transição ainda não terminou.

Embora a gestão dos clubes tenha se desenvolvido, quando se fala sobre treinadores, ainda há uma resistência.

 

Perfil dos treinadores nacionais

Muitos treinadores nacionais foram atletas. Além disso, uma parcela expressiva nunca fez nenhum curso superior em Educação Física, ciência do esporte ou afins. Isto faz com que muitos não tenham um conhecimento além do que é adquirido por eles através de suas vivências no esporte. Dessa forma, o futebol não tende a desenvolver, afinal eles reproduzirão o que vivenciaram. Portanto, o perfil dos treinadores nacionais pouco se alterou se compararmos aos dos que comandavam equipes há 20 ou 30 anos. Este foi um fator ponderante para a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) ter desenvolvido um curso para os treinadores, além da obrigatoriedade para que novos profissionais que ingressarem no treinamento desportivo sejam formados em Educação Física ou Ciência do Esporte.

Os técnicos das equipes brasileiras também costumam ter perfis conservadores. A introdução de formas táticas sempre foi um obstáculo. Por exemplo, durante a Copa do Mundo de 2014 no Brasil, o treinador Tite, que havia tirado naquele ano um período sabático para aprimorar seus conhecimentos no futebol, destacava a forma que as equipes europeias jogavam – formação do 4-1-4-1. Embora que, para ele, parecesse ser algo inovador, o fato é que muitas equipes jogavam com esta formação há anos. A Espanha na copa de 2010 já jogava de forma semelhante. Apenas em 2015 que Tite consolidou a formação no Brasil, tendo sido, posteriormente, copiado por outros treinadores. Com isso, podemos perceber que existe um atraso em relação a outros países.

Para o comentarista Chico Garcia, os treinadores brasileiros sempre foram mais gestores de elenco do que revolucionários taticamente. “Nos últimos tempos, houve uma evolução tática muito grande, e aí penso que muitos dos nossos profissionais não se atualizaram, por isso perdemos representatividade mundial”. Esta representatividade dita por ele se refere ao fato de que muitos treinadores argentinos ocupam espaços em grandes ligas mundiais, como o campeonato inglês e espanhol. O último treinador brasileiro que esteve comandando as principais equipes europeias foi Scolari, que dirigiu o Chelsea em 2009.

Outro detalhe a ser destacado é que muitos técnicos nacionais têm formações defensivas. Um dos motivos é que muitos deles eram defensores. Recentemente, poucos obtiveram sucesso com equipes ofensivas. Renato Gaúcho, a frente do Grêmio, é um dos casos raros. Não coincidentemente, quando atleta, Renato era um atacante que atuava pelas faixas laterais do campo, ou seja, tem uma forte relação com a ofensividade.

 

Treinadores estrangeiros em outras modalidades

Para compreender este movimento de treinadores estrangeiros no Brasil, é fundamental relembrarmos de outras modalidades. Recentemente, o time de basquete masculino nacional tinha como treinador Rubén Magnano. Embora seja contestável o desempenho da equipe durante o período à frente da equipe, a forma do time jogar mudou e o basquete nacional evoluiu. O mesmo aconteceu com a seleção de handebol feminino, que foi treinada pelo dinamarquês Morten Soubak. A equipe chegou a ser campeã mundial durante o período em que esteve no comando.

Morten Soubak comandando a seleção brasileira de handebol [Imagem: Jeff Gross / Getty Images]

Esta busca por profissionais estrangeiros também acontece em outros países. Antes das Olimpíadas de 2008 na China, o país asiático contratou diversos estrangeiros e, como resultado, a equipe obteve seu melhor desempenho, até então, nos jogos.

Por isso, pode-se dizer que a vinda desses treinadores para as modalidades são positivas. O esporte tende a crescer e a se desenvolver.

 

Treinadores estrangeiros no Brasil

Normalmente, quando os países contratam profissionais estrangeiros, eles costumam buscar referências. O uruguaio Diego Aguirre, que dirigiu São Paulo, Internacional e Atlético Mineiro, era bicampeão do campeonato uruguaio e multicampeão no Catar. Contudo, enquanto esteve à frente dos times brasileiros, só conquistou o Campeonato Gaúcho como torneio oficial – também foi vencedor da Florida Cup comandando a equipe mineira. Edgardo Bauza, ex-treinador do São Paulo, foi bicampeão da Taça Libertadores – com a LDU de Quito (2007) e com o San Lorenzo (2014). Porém, quando comandou o time paulista, teve um péssimo desempenho, obtendo aproveitamento pouco superior a 44% – em 2016, ano em que esteve no comando, se mantivesse esse desempenho no Brasileirão, teria terminado na 12ª colocação. Poderíamos citar muitos outros nomes de sucesso que não conseguiram repetir os seus feitos no Brasil. 

O único treinador estrangeiro campeão nacional foi o argentino Carlos Volante. Ele venceu a extinta Taça Brasil comandando a equipe do Bahia em 1959. O torneio era semelhante ao da Copa do Brasil, com jogos mata-mata. Desde então, ninguém conseguiu repetir tal sucesso.

Carlos Volante foi o único treinador estrangeiro campeão de um título nacional [Imagem: Livro A Nação]

Porém, um ponto destacado por Chico Garcia é acerca da rotatividade dos treinadores no Brasil. Para ele, a falta de paciência com os treinadores estrangeiros faz com que eles não consigam repetir os feitos dos trabalhos anteriores. “Infelizmente não há uma paciência em tempo de trabalho para vermos essa filosofia funcionar. O alemão Jurgen Klopp levou 3 anos para ser campeão no Liverpool. Aqui, isso jamais seria aceitável”.

 

Comparação entre Sampaoli e Jesus com os demais treinadores

Ao final do primeiro turno do campeonato brasileiro, Jorge Jesus e Jorge Sampaoli estavam na primeira e terceira colocação do campeonato, respectivamente. Isto é muito simbólico. Os times do Flamengo e Santos tinham aproveitamento de 73,7% e 64,9%. Além disso, eram os dois melhores ataques do Brasil. Muitos índices deles mostram que possuem visões de jogo bem diferentes das dos brasileiros.

Primeiramente, o clube carioca e o paulista possuíam os dois melhores ataques, tendo marcado 42 e 30 gols, respectivamente. A média de gols marcados durante o primeiro turno era de 21,3. Ou seja, o Flamengo tinha desempenho quase duas vezes maior que a média, enquanto o Santos estava praticamente 50% acima do mesmo índice. Outro fator interessante a ser analisado é que 90,5% dos gols feitos pelo time rubro-negro foram com finalizações de dentro da área, enquanto o clube santista teve 86,7%.

Jorge Sampaoli assumiu o time neste ano [Imagem: Ivan Storti / Santos FC]

As finalizações de dentro da área mostram a ofensividade e o quanto os clubes trabalham a bola para chegar ao território ofensivo. 52,8% das finalizações do time de Jesus foram de dentro da área, enquanto de Sampaoli foram 49,4%. A média dos demais treinadores era de 47,5%.

A característica ofensiva também pode ser observada em relação à posse de bola. O Santos foi o time que mais ficou com a posse de bola durante o primeiro turno, tendo, em média, 57% por jogo. O Flamengo ficou em terceiro, tendo o índice médio de 56% por partida. A média dos clubes era de 47,4%. Além disso, os dois passaram mais tempo dessa posse de bola nos dois terços ofensivos do campo, ou seja, pressionando para chegar à área, enquanto os demais detinham a posse na faixa central do campo, sendo pouco diagonais. 

Outro ponto importante é que os times comandados pelos “Jorges” foram os mais eficientes em finalizações. O Santos teve 44,6% de finalizações certas, enquanto o Flamengo 44,4%. Os dois acertaram mais que 10% que a média dos demais times.

Embora os treinadores brasileiros tenham características de forte marcação, os números mostram que os dois times tiveram as melhores marcas no quesito de desarmes. O alvinegro-praiano teve média de quase 22 desarmes por jogo, enquanto o time rubro-negro teve 21,3. A média do primeiro turno foi de 14,6. Então, nos momentos em que estava sem a posse de bola, ambos buscavam recuperá-la.

Felipe Mazmanian, analista do Footstats, diz que a marcação adiantada é uma característica muito forte de ambos treinadores. “São times que sufocam os adversários. Eles se defendem atacando”. Para ele, essa é uma das principais características que os diferem dos demais.

Com bom desempenho no primeiro turno, Jorge Jesus é forte candidato a ser o primeiro treinador estrangeiro vencedor do Campeonato Brasileiro [Imagem: Alexandre Vidal / Flamengo]

Apesar de o aspecto ofensivo ser algo que agrada os torcedores, Mazmanian salienta alguns problemas. “Ponto negativo [de serem times ofensivos]: são defesas que ficam mais vulneráveis. Vemos bastante isso no Santos, tendo tomado goleadas. […] São times que jogam lá na frente. Quando perdem a bola e não conseguem retomar, o adversário já tem condição muito melhor de chegar em seus gols. Eles chegam com muito mais facilidade, muitas vezes em jogadas de contra-ataque, são times que tomam bastante contra-ataque também”.

 

Percepções

Podemos perceber que Jorge Jesus e Jorge Sampaoli trazem uma dura realidade aos treinadores brasileiros: boa parte deles estão atrasados em relação ao mundo. O país do futebol parou no tempo e continua a ter a mentalidade dos times de 30 anos atrás. A vinda destes nomes soa como sinal de alerta. Ou os brasileiros se atualizam, ou o mercado nacional será dominado pelos que estão em outros países.

Felipe conclui dizendo que “é possível ganhar campeonatos brasileiros com mentalidades defensivas. Os últimos oito campeões brasileiros tinham as melhores defesas. […] A maioria dos times jogam de forma reativa. […] (Mas eu acho) que treinadores brasileiros devem tentar buscar um equilíbrio (da mentalidade defensiva e ofensiva)”.

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