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Observatório: Você pensa que o Flamengo é time?
ARQUIBANCADA
01 dez 2019 | Por Anderson Marques Lima e Laura Toyama (anderson.marques.lima@usp.br e laura.toyama@usp.br)

Não é por acaso que um time ganha dois títulos importantes no mesmo final de semana. Muitos já formaram seleções em seu esquadrão e falharam, muitas equipes tiveram técnicos renomados e mesmo assim, não conseguiram bons resultados. Diversos especialistas pensam em fórmulas para o sucesso, e no futebol, o Flamengo é o que será estudado dessa vez. 

O Clube de Regatas do Flamengo não precisa de apresentações: equipe com a maior torcida do Brasil (40,4 milhões de torcedores), clube brasileiro que mais recebe valores de direitos de transmissão e, desde 2014, detém a marca de maior valor no mercado futebolístico brasileiro, algo em torno de 1,43 bilhão (valor absoluto). 

Mesmo sendo sempre uma potência, o Flamengo não conquistava títulos expressivos desde o Brasileirão de 2009, apesar do título da Copa do Brasil de 2013, e a paciência foi um grande aliado para colher os frutos da vitória. A revolução no Flamengo se iniciava em 2013, com a gestão de Eduardo Bandeira de Mello, que presidiu o time até 2018 e o resto, você, caro leitor, já sabe: conquistas e uma potência econômica a ser invejada. 

 

Paciência e trabalho sério: quando a parte administrativa engrandece um time

Em 2012, o Flamengo vivia um caos administrativo, com quase 800 milhões de dívidas (naquele momento, a maior entre os clubes brasileiros) e sem perspectivas de melhoras. Apesar de sempre ser considerado uma potência dentro e fora de campo, a equipe precisava de uma mudança para equilibrar suas finanças e conseguir ser aquilo que seus torcedores sempre quiseram: campeã com credibilidade.

Como qualquer empresa, quando o presidente Eduardo Bandeira de Mello, recém-eleito, tomou posse da equipe, analisou o que teria que ser feito e determinou metas a serem seguidas e viu o que a equipe precisava para voltar aos trilhos: credibilidade, planejamento e criatividade. 

Credibilidade, pois ao começar a pagar suas dívidas, recuperou sua imagem perante ao mercado e, assim, voltou a ser respeitado fora dos gramados. Planejamento, pois ao decidir deixar os resultados dentro do gramado em segundo plano, definiu metas e as cumpriu, mesmo podendo soar ousado para qualquer torcedor. Criatividade, pois percebeu que seu principal ativo é sua torcida e com isso, soube aproveitar de seu marketing para arrecadar cada vez mais dinheiro.   

Eduardo Bandeira de Mello: o grande responsável por equilibrar as finanças e fazer um projeto administrativo equivalente ao tamanho do time. Resultado? Time campeão e endinheirado [Imagem: ESPN]

Podemos dividir o planejamento feito por Bandeira em três fases: 2013-2015 (momento de dar prioridade ao pagamento das dívidas), 2016-2018 (com as finanças mais equilibradas, foi a hora de investir em grandes nomes para a equipe) e 2019 (hora de colher os frutos da boa administração e montar a melhor equipe possível para ganhar os títulos). 

Mesmo que muitos torcedores ainda estejam de ressaca pela conquista da Libertadores e do Brasileirão, a maior conquista do Flamengo foi conseguir dar a volta por cima nas questões financeiras sem nenhum mecenas, ou seja, não houve necessidade de um magnata vir e comprar o time, por exemplo, como acontece com equipes no exterior. 

Em 2017, a equipe já se encontrava entre as 20 maiores receitas do futebol mundial, mas sua maior riqueza não provém de jogadores renomados como Rafinha, Filipe Luís, Gabigol ou Bruno Henrique, mas de seus 40 milhões de torcedores apaixonados, que mesmo em épocas complicadas, tiveram paciência e agora aproveitam o bom momento.

Apesar de toda felicidade, também houve um momento de muita tristeza para os torcedores flamenguistas e para o Brasil neste ano de 2019: o incêndio no Ninho do Urubu. 

 

Tragédia anunciada: o descaso com as categorias de base em números

No dia 8 de fevereiro de 2019, o futebol brasileiro se depara com mais uma tragédia: um incêndio no centro de treinamentos de base do Flamengo, localizado no bairro de Vargem Grande no Rio de Janeiro, causando a morte de 10 jogadores. Alguns deles ainda se encontravam em período de teste no time, enquanto outros aspiravam à carreira no tão prestigiado time profissional.

 A revolta da torcida e dos familiares pede uma resposta: porque o Flamengo, sendo o time brasileiro que mais detém recursos financeiros, mantinha seus jovens atletas com tanto descaso? Essa é uma realidade que se observa em mais de um grande time brasileiro?

Segundo relatório oficial do Corpo de Bombeiros e da Defesa Civil do Rio de Janeiro, o alojamento onde se encontravam os meninos de 14 a 17 anos não tinha o Certificado de Aprovação, que atesta que o espaço está apto e cumpre a legislação de segurança. Enquanto aguardavam a conclusão de uma reforma, os meninos dormiam em contêineres de onde o fogo teria partido. Essa realidade demonstra a falta de preocupação do clube em seguir as normas para garantir a segurança de sua base, e escancara a falta de atenção da diretoria do time para essas categorias, apesar do bom momento financeiro.

Fotos do Ninho do Urubu logo após o incêndio que matou 10 atletas da base e deixou outros feridos [imagem: Leslie Leitão/Rede Globo]

Nas últimas janelas de contratação de jogadores para o time profissional, o Flamengo desembolsou cerca de 200 milhões de reais para compor o elenco, hoje campeão brasileiro e da Libertadores da América. Em contrapartida, apenas 4 famílias das vítimas do incêndio foram indenizadas e chegaram em acordos que demoraram mais de 11 meses para serem aceitos pela diretoria do clube. A proposta inicial da Câmara de Conciliação, órgão responsável pelos julgamentos, não representaria nem 10% do orçamento anual do time e mesmo assim não foi aceita, prolongando os processos e o sofrimento de quem espera punições pela morte do filho, irmão, sobrinho, por exemplo.

Essa realidade se observa em outros grandes clubes brasileiros. O investimento em patrocínios, infraestrutura e contratação de jogadores do time profissional ultrapassa em quase o dobro o investimento nas categorias de base. Segundo um balanço sobre a economia dos clubes, feito pelo consultor do Itaú Cesar Grafietti, o investimento na base caiu de R$ 222 milhões para R$ 169 milhões, na soma de todos os 26 clubes avaliados, enquanto o acerto de direitos de jogadores subiu de 50% para 68% em 2017.

O destino das verbas do clube e as prioridades do Flamengo trouxeram títulos e prestígio para os jogadores protagonistas de suas conquistas. Mas a negligência com aqueles que seriam o futuro do time resulta em tragédias – já que não podem ser chamadas apenas de acidentes – que assolam o futebol em âmbito nacional e podam os sonhos de meninos que aspiram um dia estarem no foco do clube. 

Para a opinião pública, o jornalismo esportivo, a diretoria e os jogadores falham em recordar o ocorrido e se atentar para a memória dos meninos que perderam a vida. A torcida, apesar da euforia dos títulos, ainda busca a justiça do clube, como relata o torcedor flamenguista Cláudio Marques, autônomo: “fico triste, mas não sabemos como estão os acordos, o que tem feito [o Flamengo] ou não. Claro que publicamente não se lembrar deles é um erro, mas juridicamente não sabemos”.

Cartaz levantado por torcedora durante um jogo do clube, em memória dos atletas que perderam a vida [imagem: El País Brasil]

Déjà vu? Mundial de Clubes e o futuro do Flamengo

O ano mágico do Flamengo pode ter um fim bem conhecido para seus torcedores mais antigos: título do Mundial de Clubes em cima do Liverpool. Há o jogo da semifinal antes, fase que já pregou peças em times como Atlético-MG, Internacional e até o rival da final da Libertadores, River Plate-ARG. Quando perguntado se a equipe abandonará a veia ofensiva, Cláudio Marques responde:  “sobre abrir mão do futebol em si, eu duvido. Os jogadores impõem esse ritmo. Não é o técnico que exige. Em campo eles decidem se tiram o pé ou não. E eles estão cientes. Se perderem, será jogando como jogam ganhando”. 

Com a confirmação oficial por parte do Liverpool de que o time levaria seu time principal para o Mundial, a expectativa pela final só aumentou entre os flamenguistas, com o sonho de reeditar a final do Mundial de Clubes de 81. O torneio deste ano será disputado no Qatar, entre os dias 11 e 21 de dezembro.

O formato mudou e agora há equipes representando todos os continentes, por isso, o Flamengo joga uma semifinal no dia 17 de dezembro. As equipes que disputarão este torneio são: Flamengo (BRA), Liverpool (ING), Al-Sadd (CAT), Hienghène (NCL), Monterrey (MEX), Espérance (TUN) e o campeão asiático a ser definido neste domingo (1 de dezembro), Al-Hilal (ARA) ou Urawa Red (JAP), com vantagem para o time árabe que venceu o primeiro jogo da final por 1 a 0.

Como os heróis de 81, os cariocas encontrarão uma missão complicada no Qatar, mas tudo pode acontecer em um jogo de final única. Na edição de 81, o Flamengo venceu a equipe inglesa por 3 a 0, com show de Zico e Adílio.

Zico levando a premiação de melhor jogador do Mundial de Clubes de 81, depois de um jogo mágico do Flamengo que venceu o Liverpool por 3 a 0 [Imagem: Reprodução]

Independente do resultado do Mundial, o futuro do Flamengo é promissor e um provável domínio em termos de títulos não pode ser descartado, apesar do sempre equilibrado futebol brasileiro. Conquistas atraem patrocínios e o Flamengo já trabalha pensando em 2020. Antes de contratações, permanências de Gabigol e de Jorge Jesus devem ser a prioridade da diretoria. 

Se perder Gabigol, um novo atacante terá que ser contratado e alguns nomes já foram divulgados pela imprensa esportiva, sem confirmação por parte da diretoria flamenguista. Nomes como Diego Costa, Cavani e até mesmo Ibrahimovic foram citados, além de jogadores de outras posições, tais como Edenilson e Wendel.  

“Não penso nisso ainda. Estou apaixonado pelo Flamengo, mas a minha vida é esta, é uma vida de paixões, e com o tempo as paixões podem passar. Vamos dar tempo ao tempo”, comentou Jorge Jesus em entrevista ao jornal “A Bola” de Portugal, sobre sua possível saída da equipe. Nenhum nome de treinador foi ventilado até o momento, coisa que no mundo do futebol pode mudar a qualquer momento. 

Com o investimento forte em contratações na temporada 2019, há a probabilidade da diretoria carioca desacelerar os gastos, no intuito de reduzir as dívidas feitas neste ano. Nenhum motivo para preocupar os torcedores, pois se mantida, a equipe continuará forte e favorita em qualquer campeonato que disputar. Dados até setembro deste ano mostram que o time atingiu R$ 652 milhões em receita apenas nos nove primeiros meses, isso sem contar o dinheiro de premiações que ainda serão incluídos no caixa. 

A graça do futebol é ser imprevisível, mas com boa administração e bom futebol, o Flamengo entra em 2020 da forma mais previsível possível: forte, endinheirado e com algo que nunca faltou: a paixão da maior torcida do Brasil. Os adversários? Estejam preparados, pois a equipe que não é time, é seleção, entrará para conquistar tudo que estiver disputando.  

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