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Passado, presente e futuro: o que esperar do Cinema Latino-Americano 
CINÉFILOS
22 ago 2020 | Por Maria Clara Abaurre (mariaclara.abaurre@usp.br) e Pedro Guilherme Costa (pedro.massa@usp.br) 

Histórico do cinema na América Latina  

A magia de Lumière começou a iluminar o mundo em 1895. A viagem do cinema, da França para a América Latina, aconteceu somente um ano após sua primeira exibição. Essa semente da sétima arte latina-americana encontra os primeiros problemas logo em seu nascimento. 

O primeiro a ser destacado não está no simples fato de nascer, mas em como isso é lembrado. Parece que a trajetória hegemônica da revolução de Lumière seguiu um caminho claro, enquanto obscurecia essa região conhecida não só pela sua luminosidade natural, mas por conceitos estéticos e movimentos ímpares.

Em um curto período de vida, o cinema latino-americano já observava que não seria fácil unir os mercados internos de cada país em um movimento integrado. Percebia a redução de seu universo cultural, que habitava um ponto estereotipado em Hollywood, o que deixa marcas até os dias atuais. Para se adequar, este cinema tentou reproduzir o hegemônico e o higienista, mas as identidades lutavam por florescer em seu ventre.

Houve então o alastramento de regimes militares na América Latina a partir da década de 60. Em reação, uma onda revolucionária de produções cinematográficas fortaleceu-se para burlar a censura e concretizar um movimento de identificação e resistência. O Nuevo Cine Latinoamericano, traduzido como Novo Cinema Latino-americano, encaixou-se na abordagem da realidade marginalizada do cinema de Terceiro Mundo como forma de luta, comunicação e crítica. 

Essa onda cinematográfica sofreu influências gravitacionais. Corpos celestes como: as teses de Glauber Rocha no Brasil, a criação do Instituto Cubano del Arte e Industria Cinematográficos (ICAIC), a partir da revolução cubana, e os festivais, atraíram produções com diferenciação estética e estrutural de Hollywood. Dessa forma, destacou-se a originalidade, identidade e independência por qual a região continua lutando até hoje. 

 

Glauber Rocha fortaleceu a linguagem latino-americana no cinema, utilizando como instrumento de revolução. [Imagem: Arquivo CB/D.A Press] 

Glauber Rocha fortaleceu a linguagem latino-americana no cinema, utilizando como instrumento de revolução. [Imagem: Arquivo CB/D.A Press]

Atualmente, Greta Gerwig não será apagada tão facilmente quanto Alice Guy Blaché, assim como, na América Latina, nomes como Helena Solberg e Lucrecia Martel reverberam suas produções revolucionárias por um ponto de vista. A questão feminina faz parte do universo representativo latino-americano, que ao invés de ser massificado em um pequeno ponto na história da sétima arte, expande-se pluralmente e chega até as portas do Dolby Theatre, local da cerimônia do Oscar.


Cenário atual das produções latino-americanas

No final da década de 1990, começaram processos de retomada cinematográfica em diversos países latinos, impulsionados pelo barateamento da tecnologia, pela criação de escolas e cursos especializados e por políticas públicas de fomento à produção. Assim, “os latino-americanos fazem hoje o cinema mais instigante do mundo”, afirmou ao El País a atriz Geraldine Chaplin, uma das maiores entusiastas do cinema da região.

O cinema latino, antes muito ligado ao financiamento estatal, parece agora estar florescendo e diversificando suas reivindicações. Há um compromisso com a discussão de temas socialmente relevantes, com visões diversas, como a questão da imigração, da realidade de comunidades marginais, da identidade sexual, entre tantos outros. Uma das temáticas mais apreciadas do cinema latino hoje é a LGBTQI+, com destaques como Las Mil y Una (2020) e Alice Júnior (2019), ambos exibidos em Berlim.

Outro denominador comum a muitos filmes latino-americanos é a mistura de atores profissionais com amadores, apostando em atuações mais naturalistas, principalmente em enredos de drama social. Esse tom mais humano de fazer cinema foi dado, inicialmente, por Fátima Toledo, que preparou o elenco de Cidade de Deus (2002), integrando atores profissionais e garotos da comunidade carioca. 

A iniciativa foi tão bem sucedida que essas pessoas “comuns” é que acabaram ganhando prêmios pela atuação. Um exemplo recente desse sucesso é o filme Roma (2018), cuja protagonista, Yalitza Aparicio, que nunca havia atuado antes, chegou a ser indicada ao Oscar de Melhor Atriz.

 

Jonathan Haagensen, Renato de Souza e Jefechander Suplino em Cidade de Deus. [Imagem: Reprodução/Miramax Films]

Jonathan Haagensen, Renato de Souza e Jefechander Suplino em Cidade de Deus. [Imagem: Reprodução/Miramax Films]

Cabe, ainda, ressaltar a questão das ditaduras, retratadas em muitos filmes latinos a partir da década de 1960, e a politização do cinema na região. O crítico e professor da Academia Internacional de Cinema, Filippo Pitanga, em entrevista à Jornalismo Júnior, relaciona vários momentos do cinema latino – que culminam no Encontro de Cinema Latino-Americano em 1967 – e defende que, mais que um cinema sobre ditaduras, o cinema latino é um cinema com olhar opositivo. 

“Existem vários momentos ali que vão criar instâncias de comunicação do cinema latino-americano, mas isso não quer dizer que o cinema fosse sobre a ditadura, mas com certeza as ditaduras foram um mola propulsora para que esses cinemas se libertassem de modelos de estúdio, de emular um cinema hollywoodiano comercial e de massas, para criar reflexões”, afirma Pitanga. O crítico defende, sobretudo, que a politização foi imprescindível para que esses filmes acontecessem e se comunicassem.

Hoje, as tendências apontam para a escolha de uma linguagem mais pessoal por diretores latino-americanos. Cada vez mais suas produções são prestigiadas. 

O Chile é um clássico do cinema latino-americano, que, segundo Filippo, sempre foi muito bom e agora desponta ainda mais. A Argentina destaca-se por ser uma grande produtora e os filmes dos hermanos são muito consumidos, tanto internamente, quanto no exterior. Cuba também é muito relevante por ser uma espécie de escola de cinema, com filmes independentes de grande sucesso de bilheteria.

Colômbia e Venezuela apresentam filmografias fortes, sendo a primeira muito premiada. A Guatemala é um nome mais recente, mas que também desponta com filmes com temáticas muito variadas. O cineasta venezuelano Lorenzo Vigas, em entrevista ao El País, diz não considerar o atual sucesso uma novidade. “Faz tempo que fazemos filmes de qualidade, mas agora eles estão na moda, captaram o olhar do mundo”, afirma. A lógica é que quanto mais se produz, maiores chances de bons resultados, e o aumento nas produções foi substancial em diversos países da região.

 

 

Para analisar o cinema latino-americano, no entanto, é preciso pensar na organização em torno das produções, em especial as independentes, que vêm crescendo em volume, porte e audiência, mas ainda sofrem com problemas de financiamento. 

Governos que outrora financiaram e possibilitaram a descentralização de produções, agora, reacionários, tiram recursos e prejudicam o cinema por questões ideológicas.

É necessário ressaltar a importância que o apoio econômico europeu teve para muitas produções na América Latina. Financiamentos e coproduções foram responsáveis por manter vivas as indústrias cinematográficas de muitos países e – além de alternativas nacionais de fomento à produção, através de leis e convocatórias – foram surgindo fundos de festivais destinados a financiar projetos oriundos de cinematografias emergentes.

Uma nova possibilidade, que tem se ampliado, é a produção de filmes em parceria entre os países latino-americanos. Apesar dos esforços de integração serem basicamente individuais, em 2018 saiu o edital de coprodução bilateral Brasil-México. A relação tem grandes chances de tornar-se uma grande parceria, uma vez que os países são muito próximos em questões socioculturais e possuem as mais importantes cinematografias do continente. O Brasil, depois de desaproveitar por muito tempo os laços culturais com seus vizinhos, finalmente olha com mais atenção os exemplos ao seu redor.

 

Un Crimen Común (2020) é uma coprodução entre Brasil, Argentina e Suíça – um exemplo de parceria bem sucedida. [Imagem: Reprodução/Pensar con las manos]

Un Crimen Común (2020) é uma coprodução entre Brasil, Argentina e Suíça – um exemplo de parceria bem sucedida. [Imagem: Reprodução/Pensar con las manos]

Os filmes latinos têm cada vez mais representação e representatividade no exterior. Festivais como o Festival de Berlim, o Festival de Cannes, o Festival Internacional del Nuevo Cine Latinoamericano e diversos outros, abriram os olhos (e as telas) do mundo para os filmes da região. Tanto latinos, quanto internacionais, esses festivais foram responsáveis por um retorno extremamente positivo a produções oriundas de países com dificuldades de fomento à cultura, dando um fôlego novo aos artistas e cineastas.


Presença em festivais e premiações 

O oceano comum que Alfonso Cuarón citou, em seu discurso ao ganhar o oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2019 por Roma (Roma, 2018), é abalado perante o conservadorismo da indústria cinematográfica. Não existir ondas, como ele afirma, é na verdade a promessa de um sonho que ainda está se realizando. Entretanto, ao chegar em grandes festivais de cinema, a América Latina transforma a ideia de onda. Ao invés de forte, porém passageira, torna-se contínua para criar o oceano plural almejado. 

Em uma analogia, os festivais de cinema podem ser os grandes estabilizadores desse mar ou mantê-lo em fúria irrepresentativa. Por um lado, é um espaço de troca de experiências e, potencialmente, uma área de destaque das minorias cinematográficas. Por outro, torna-se um mecanismo de perpetuação da exclusão, que reforça políticas inaceitáveis, como no Oscar de 1940, ao não permitir que uma atriz negra premiada, Hattie McDaniel, se sentasse próxima ao elenco do filme. 

Dito isso, o palco que Cuarón utilizou em seu discurso é alvo de discussão. O Oscar vive em uma existência ambígua. Na premiação de 2020, Democracia em Vertigem (2019), da cineasta brasileira Petra Costa, foi indicado como melhor documentário. No mesmo ano, um galês é nomeado como melhor ator ao viver um argentino, enquanto nenhum ator latino-americano era indicado. Nessa dualidade, a diversidade confronta-se com velhas estruturas.

As conquistas vão além do trio de diretores mexicanos, Iñárritu, Cuarón e Del Toro, respectivamente premiados em diversas categorias por filmes como O Regresso (The Revenant, 2015), Roma (Roma, 2018) e A Forma da Água (The Shape of Water, 2017). A América Latina atualmente é também reconhecida por participações técnicas. 

Nos últimos 10 anos, latino-americanos conquistaram oito vezes os prêmios nas categorias técnicas do Oscar. Na edição deste ano, destacaram-se as indicações da figurinista mexicana Mayes C. Rubeo em Jojo Rabbit (Jojo Rabbit, 2019)  e da equipe de Efeitos Visuais de O Irlandês (The Irishman, 2019), composta pelos argentinos Pablo Helman e Leandro Estebecorena, além do chileno Nelson Sepulveda. 

Para estar em “voga nas premiações internacionais e festivais”, como diz Pitanga, a América Latina anda em outros tapetes vermelhos.

 

O tapete vermelho de Cannes recebe o elenco do longa brasileiro Bacurau, em 2019. [Imagem: Divulgação/Festival de Cannes]

O tapete vermelho de Cannes recebe o elenco do longa brasileiro Bacurau, em 2019. [Imagem: Divulgação/Festival de Cannes]

No berço do cinema, a pluralidade está sendo um tema constante. O Festival de Cannes, na França, atualmente é conhecido por fornecer espaço para discussões sobre a distribuição hegemônica do cinema, trazendo variedade de filmes e júri para o cenário europeu. Alejandro González Iñárritu, diretor mexicano, representou em Cannes o papel de diretor do Júri. Majoritariamente masculino e branco, o Oscar observa e busca se assemelhar a composição votante cannesiana. 

A América Latina acumula seis filmes indicados na edição de 2019 do Cannes, dentre eles vencedores como os brasileiros Bacurau (Prêmio do Júri) e A Vida Invisível (Prêmio Um certo Olhar) e o guatemalteco Nuestras Madres (Caméra d’Or). Kleber Mendonça Filho, diretor de Bacurau, chega novamente ao tapete vermelho. Três anos antes ele quebrou um hiato de oito anos sem indicações brasileiras ao festival com o longa Aquarius (2016). 

Mesmo durante a pandemia da Covid-19 e o cancelamento presencial do festival, Cannes tece parcerias geograficamente diversas, como a colaboração com o evento brasileiro de documentários “É Tudo Verdade”. Por meio desta, estimulou um debate acerca do universo cinematográfico latino-americano.  Desse modo, mantém os diferentes pontos de vista, que remetem a própria essência atual do festival, adaptados ao espaço digital.

Na Alemanha, um nome marca o reconhecimento cinematográfico internacional da América Latina: Berlinale. Semeando há mais de uma década, o Festival Internacional de Cinema de Berlim vê o florescimento dos filmes latino-americanos batendo recordes a cada ano. Clarisa Navas, indicada por Las mil y una, disse que a visibilidade e o apoio financeiro europeus, principalmente alemães, possibilitam manter a indústria cinematográfica de seu país, Argentina, viva. 

 

Premiação do diretor colombiano Camilo Restrepo, por Los Conductos, que faz parte de outras nove que a América Latina acumulou na Berlinale 2020. [Imagem: Reprodução/Berlinale] 

Premiação do diretor colombiano Camilo Restrepo, por Los Conductos, que faz parte de outras nove que a América Latina acumulou na Berlinale 2020. [Imagem: Reprodução/Berlinale]

19 Estreias mundiais, distribuídas entre Peru, Colômbia, Chile, Uruguai, México, Argentina e Brasil, em destaque para os dois últimos, marcaram a última seleção da Berlinale. Os longas reforçam as diferentes percepções de temas como identidade sexual e realidades indígenas. A fala de Navas, acerca da resistência explorada por meio do cinema, remete a própria história desse cinema. Sendo assim, a região segue marcando as modalidades competitivas e não-competitivas. 

De volta aos Estados Unidos, o Festival Sundance de Cinema é conhecido como um dos grandes expoentes no que se refere a visibilidade de filmes independentes (e diversos). Dos 118 filmes selecionados de 27 países na edição de 2020, 34% são de minorias étnicas. 

32 Filmes presentes na seleção possuem latinos em sua composição. Nove são produções ou coproduções da Américas Latina. No perpassar entre gêneros e temas, o plano de inclusão da região no festival, assim como a implementação da quebra de gênero, cor e identidade sexual, se estabelece. 

Retornando a ideia de oceano de Cuarón, esta busca pela integração das águas fílmicas foi idealizada primeiramente pelo próprio reconhecimento regional. O Festival Internacional del Nuevo Cine Latinoamericano, ou Festival de Havana, em Cuba, é um dos exemplos da busca da identidade cultural latino-americana pelos festivais de cinema. Estas grandes estruturas, como a do prestigiado Festival Internacional de Cinema de Mar del Plata, na Argentina, viabilizam a América Latina em seu próprio espaço. 

 

O Festival do Mar del Plata, do Cinema Latino-americano, possui “Categoria A”, assim como Cannes e Berlim. [Imagem: Divulgação/Festival Internacional de Cine de Mar del Plata]

O Festival do Mar del Plata possui “Categoria A”, assim como Cannes e Berlim. [Imagem: Divulgação/Festival Internacional de Cine de Mar del Plata]


O futuro da sétima arte latino-americana

Com tantas conquistas, mas ainda com muitos desafios, surge a seguinte pergunta: o que esperar do cinema latino-americano daqui para frente? Não existe uma resposta nem perto de satisfatória, mas todos os caminhos indicam um belo futuro para a sétima arte na região.

Apesar de uma conjuntura desafiadora, intensificada com a pandemia, cineastas e críticos acreditam que novas oportunidades vão surgir e o cinema não deve deixar de crescer. Amir Labaki, criador do festival de documentários “É Tudo Verdade”, afirmou em nota à Folha de Pernambuco que “trata-se de uma oportunidade única de, mesmo limitada ao ambiente virtual, expandir o interesse, o reconhecimento e as oportunidades”.

O cinema latino tende a continuar crescendo, apesar de ainda sofrer com uma censura econômica de seus próprios países, que muitas vezes vetam e não abrem espaço para filmes feitos com tanto esforço e qualidade. Por isso, os países devem passar, cada vez mais, a coproduzir – tanto com seus vizinhos, quanto com países mais distantes geográfica e culturalmente. O professor Filippo Pitanga acredita que “o nosso presente vai resistir a essa recessão governamental de censura e cortes” e que ninguém pode apagar o que foi alcançado até agora.

 

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O Cinéfilos é o núcleo da Jornalismo Júnior voltado à sétima arte. Desde 2008, produzimos críticas, coberturas e reportagens que vão do cinema mainstream ao circuito alternativo.
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