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Pop Art nos muros, Street Art nos quadros
CINÉFILOS
26 ago 2013 | Por Jornalismo Júnior

Os tempos áureos norte-americanos do american way of life, um incentivo por parte do governo ao consumo desenfreado – tomado, inclusive, como um ato patriota, uma vez que as compras auxiliavam o desenvolvimento econômico dos Estados Unidos – são lembrados por uma grande expansão da influência dos EUA no mundo. A difusão do world’s highest standard of living transcendia um aumento restrito à qualidade de vida da população, no que diz respeito ao nascimento de uma cultura do consumo de massa e o surgimento novos bens materiais a serem comprados.

Surge, no pós-Segunda Guerra Mundial, o contexto no qual o equilíbrio que havia entre as potências mundiais se extingue, para o estabelecimento da Guerra Fria e da “ordem bipolar”, que engloba disputas econômicas, políticas, ideológicas, bélicas e tecnológicas entre as duas grandes potências do mundo naqueles tempos – Estados Unidos e União Soviética. E nesse contexto, como crítica irônica ao modo que a sociedade era bombardeada pelos objetos de consumo e pela ideologia do capitalismo financeiro, aparece, nos EUA e na Inglaterra, a Pop Art, muito influenciada pelo dadaísmo e pelo ready-made de Duchamp.

O movimento artístico da Pop Art tinha forte ligação com os aspectos sociais e culturais da vida urbana, com a apropriação, nas peças de arte desse movimento, da cultura e do consumo de massa, das propagandas, dos quadrinhos, celebridades da música popular e ícones hollywoodianos, como Elvis Presley, Michael Jackson, Liz Taylor e Marilyn Moroe.

As peças, que antes do movimento eram normalmente produzidas a partir do trabalho manual e em estúdios de arte particulares glamourizados, naquele momento passaram a ser feitas a partir de uma produção em massa, com baixo custo, de caráter transitório, popular, chamativo e comercial, e produzidas em estúdios como a Silver Factory, propriedade do mais famoso representante da Pop Art, Andy Warhol.

Um pouco de Andy Warhol
Não foi a filmografia que consagrou Warhol como ícone do movimento, mas ele produziu uma grande quantidade de filmes experimentais. Em 1963, no filme Sleep, por exemplo, o autor gravou cenas de um amigo dormindo por seis horas. No ano seguinte, Warhol produziu Empire (Empire, 1964), filmando, por oito horas consecutivas, o Empire State Building, em Nova York. Vinyl (Vinyl, 1965) – apresentado ao vivo em teatros, filmado sem ensaios e também produzido por Andy Warhol – foi a primeira adaptação cinematográfica do livro Laranja Mecânica, sátira do escritor Anthony Burgess à sociedade inglesa cuja versão cinematográfica de maior sucesso é de Stanley Kubrick, feita em 1971.

Um dos filmes mais expressivos de Warhol é Blowjob (Blowjob, 1964). O filme, de 35 minutos, apresenta rosto e ombros iluminados de um jovem caucasiano que aparenta estar recebendo prazer sexual oral. Não há movimento de câmera, mudanças não-naturais de iluminação ou falas, o que faz com que a sugestiva trama seja contada apenas pelas expressões faciais do jovem.

 

Thierry Guetta e sua lavagem cerebral
A influência da Pop Art na propaganda e na arte contemporânea é indiscutível. Porém, nem sempre se observa o quanto ela pode estar presente também nas ruas e construções das grandes cidades. Thierry Guetta, o Mr. Brainwash retratado no documentário produzido pelo artista internacionalmente famoso Banksy, de título Exit through the Gift Shop (Exit Through the Gift Shop, 2010), se apropria de obras do próprio Warhol e da estética referente à pop art para compor suas intervenções urbanas.

Diferentemente da maior parte das peças da street art, movimento de manifestações artísticas em espaços públicos de forte caráter político, as obras de Mr. Brainwash são, na verdade, meras brincadeiras com celebridades e mash-ups de obras já consagradas. De modo semelhante ao que acontecia na própria pop art, subestima-se o teor crítico, irônico e político das obras devido ao seu objetivo de ser da cultura de massa. Mas a apropriação do consumismo, do materialismo e o modo de tratar o artista como tão participante da sociedade de consumo quanto qualquer homem de negócios são em si críticas, ironias e de caráter político.

A pop art é comercializável. E é de baixo custo, massificada, diferentemente da arte convencional que normalmente é restrita a uma elite cultural ou econômica, sendo tão “democrática” quanto a street art, por estar disponível para a maior parte da população.

Guetta, por sua vez, fez com que as obras da street art saíssem dos muros e passassem a ser peça indispensável em uma galeria de arte. Em conjunto da internet e dos livros, emoldurar as peças pôde tornar eterno aquilo que antes era efêmero e facilmente apagado dos muros por um balde de tinta branca ou por algumas mãos dispostas a arrancar cartazes e adesivos por um pouco de dinheiro.

                                                                                                       

Mr. Brainwash explicita a absorção da arte marginal pela sociedade de consumo, que tem um insaciável desejo de se mostrar moderna e estar de acordo com a moda. Mas o que parece ser semelhança, é, na verdade, um antagonismo: Guetta faz, de baixo pra cima, o que Warhol costumava fazer de cima pra baixo. Ao invés de tornar a arte disponível para o grande público, como este fazia, Thierry Guetta passa a vender por milhares de dólares o que não havia lhe dado muito trabalho ou custado mais de U$10,00. E as centenas de milhares de dólares arrecadadas na compra de suas obras em exposições por ele feitas – e que atingem enorme dimensão – revelam uma fetichização até mesmo do que por muito tempo foi considerado um mero vandalismo.

por Daniel Drumond Ribeiro
rd.drumond@gmail.com

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