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Por trás das fantasias 
Em Cena
31 jul 2019 | Por Por Tamara Nassif (tamara.y.nassif@gmail.com )

A porta vibrava com os saltos. Eram mais de 12 bailarinos com os pés em ponta, no ar, no solo, na panturrilha. Em maioria, brancos. Em totalidade, atléticos, magros, com músculos e gotas de suor saltando junto a eles. Os olhos de todos os que não estavam a dançar grudados em cada movimento: subidas de braço, bailes de dedos, erguidas de pernas, voos de vestes. Dentro do salão de ensaio, mais de cinco janelas emolduradas em madeira branca abertas para deixar o ar e a luz do Sol dançarem também. Um espelho ocupava ¾ de uma parede e brincava de ser bailarino. Do lado de fora, Tchaikovsky parecia um sussurro. Vez ou outra, sapatos faziam o solado de madeira rugir. “Essa posição é a pior. Fica com os dois braços para cima” disse uma moça à outra, ambas segurando tutus-bandejas pretos e empoleiradas em frente à televisão, que reproduzia um dos espetáculos que tinham integrado. 

A sede do São Paulo Companhia de Dança mora na Luz e fica próxima à Pinacoteca. Desde antes mesmo do início de 2018, tem sido palco de incontáveis ensaios para o espetáculo que celebrou seu aniversário de 10 anos: O Lago dos Cisnes. Dos primeiros toques de música clássica ao pó-de-arroz no rosto, dos laços nas sapatilhas aos saltos adagios, da princesa Odette à perversa e encantadora Odile, do príncipe aos cisnes que permeiam o Lago, tudo é um amálgama de cores, luzes, sons e movimentos de tirar o fôlego. 

Entre os bailarinos e em seu décimo ano de bailarina pela Companhia, encontra-se Ana Paula Camargo. De traços finos e sorriso fácil, ela dança desde os 10 anos com a irmã mais velha Simone e o irmão mais novo Daniel, de quando se mudou para Ourinhos, no interior de São Paulo. E lá foi dançando, ensaiando, rodando saias e pondo os pés em ponta. O balé cresceu junto com ela. Assim como toda criança que entra para esse mundo, ele floresce tão naturalmente quanto a autonomia para comer, dormir, andar, brincar de bola na rua. Ana, “vendo a vida passar”, quis parar: “Os meus colegas tinham muitas coisas para fazer todos os dias e eu ficava sempre na escola de balé”, ela falou com a voz doce. Começou a jogar vôlei e a por outros projetos em prática.

Mas, quando se mudou para Curitiba, Simone a convenceu a dar mais uma chance à arte de fazer poemas com o corpo. Deu um último saque com a bola de vôlei e voltou. “Meio que sem querer” emendou para o meio profissional quando começou a rodopiar pelos palcos do Teatro Guaíra e, logo em seguida, foi chamada para estagiar para a Companhia, ao mesmo tempo em que começava os estudos no Ensino Médio. 

No momento do vestibular, Ana não se viu diante de um impasse. Sua escolha já tinha sido feita anos antes, quando fez de seus movimentos instrumento de trabalho para trilhar seu caminho literalmente com os próprios pés. E insistiu na escolha por paixão e vontade de se autoconhecer. Dançar profissionalmente, segundo ela, é um estímulo a constantes descobertas: “Trabalhar com dança é conseguir – ou tentar – adequar ao máximo seu corpo aos ideais e às ideias do que as coreografias e os coreógrafos propõem. É um desafio de adequação em diversas linguagens.”

Ana Paula Camargo [Imagem: São Paulo Companhia de Dança]

Ana é uma das primeiras bailarinas da Companhia. Ensaia sete horas por dia de segunda à sexta e quatro aos sábados. Talvez por isso seja tão parecida com a imagem mental que temos de bailarinas: magras, altas, pernas longas, coques bem presos, rosto bem fino. “É cansativo, mas a gente se acostuma. Eu acho que o nosso corpo se adapta a fazer a mesma coisa gastando a menor quantidade de energia possível. Quando ensaiamos muito uma mesma dança, não sentimos tanto cansaço. Mas quando mudamos, mexemos em outros grupos musculares, temos que pensar em outros movimentos, e aí parece que nunca dançamos”, falou, dando risada.  

Dançar tanto desgasta. Esse é um dos motivos pelos quais a carreira no mundo do balé é quase sempre muito curta. De acordo com Ana, no Brasil, diferentemente de outros países, há pouco suporte e reconhecimento da profissão. Muitos bailarinos não são recolocados no mercado de forma orgânica, de modo que é preciso fazer a “transição” de uma carreira para outra enquanto as sapatilhas ainda tocam o palco e o corpo ainda se dobra em piruetas. Pensando nisso, hoje ela faz graduação à distância em Tecnologias e Processos Gerenciais e pensa em uma especialização na área das artes. Já tentou cursar Gestão Financeira, mas parou. Tentou também uma faculdade presencial de dança e reprovou por falta. É importante ressaltar que Ana conta com dois privilégios: o de ser branca e o de ter relativa estabilidade profissional. Talvez bailarinos negros e não tão bem empregados não tenham a “sorte” de poder dançar entre graduações e profissões. 

Yoshi Engracia Suzuki, solista na São Paulo Companhia de Dança, também saltita nesse terreno titubeante que é a transição de profissões. Assim como Ana, Yoshi pincela sua vida com arte sempre que pode. Chegou a fazer aulas de pintura, teclado e descobriu, também, que “como cantor era um ótimo bailarino.” Mas sua paixão sempre foi a dança. 

Desde os cinco anos sabia que queria pôr o corpo em mil-e-uma coreografias, mesmo quando a mãe o colocou junto à irmã nas piscinas. Passou por natação, sapateado e jazz até finalmente convencê-la de que as sapatilhas de balé lhe eram tão confortáveis quanto os próprios pés descalços. E foi conquistando os palcos de Ribeirão Preto até mudar-se para São Paulo para aperfeiçoar os estudos e fazer audições para a Companhia. Yoshi chegou a trabalhar como cartunista para algumas revistas, já que desenhar e fazer o lápis dançar no papel é um de seus hobbies favoritos, mas não se sentiu feliz em tornar seus traços uma forma de ganhar dinheiro: “Quando aquilo se tornou um trabalho, percebi que era mais hobbie do que uma profissão propriamente dita. Acho que, quando a gente começa a trabalhar, acaba perdendo um pouco da paixão que existia ali, porque vira cotidiano. E isso raramente acontece comigo com a dança.” 

Pensando nisso, hoje, com 28 anos, pensa em ser professor de dança quando o corpo não rodar com o mesmo viço: “Eu gosto muito de dar aula. Funciona como uma terapia para mim, e acho que é importante passar para frente o conhecimento que outros me passaram.” Mas não mantém os olhos fixos na ideia. Diz que procura deixar a mente aberta e seguir as oportunidades que tem com prazer, para não determinar os rumos que sua carreira pode seguir e não cair em uma rotina que tanto tenta fugir. 

Yoshi Engracia Suzuki no “Lago dos Cisnes” [Imagem: Charles Arteiro]

Escorpiano e de riso fácil, Yoshi encontrou algumas pedras no caminho ao palco. A primeira delas apareceu como a problemática de ser homem, bailarino e membro de uma família tradicional japonesa. Veio muita pressão por parte dos avós, que, conservadores, não esperavam que o primeiro neto homem não seguisse carreiras de renome, como Medicina e Direito: “Minha mãe aguentou muito de meus avós, no sentido de escutar muitas coisas por causa de minha escolha. E isso me fez ser determinado para conquistar o sonho que eu queria, porque eu não me via sem isso, então tinha que ser isso. Não podia ser outra coisa. Não podia voltar para Ribeirão Preto para ser médico ou engenheiro ou qualquer outra profissão que não fosse bailarino.” 

Yoshi conta que a primeira vez que os avós o viram dançar se tornou uma de suas memórias mais bonitas enquanto bailarino: “Eles ficaram muito emocionados ao me ver em cena, empregado, que aquilo era uma profissão também. Então foi quase como uma apresentação de tudo que foi determinante para minha vida.” 

Essa questão, no entanto, não diz respeito somente a famílias tradicionais japonesas. O estigma de que é “coisa de menininha” e de que a dança rompe a “magnânima” virilidade masculina é secular. Vem junto de uma sociedade que nasceu de raízes patriarcais e machistas, independentemente do continente. Talvez Yoshi seja um dos poucos que conseguiram resistir e transcender essa questão. 

A segunda pedra no caminho, de acordo com ele, faz parte do mundo do balé tal qual bolhas nos pés, calos nos dedos, músculos doloridos: a competição e a substituição. Yoshi fazia parte do elenco de uma grande remontagem de uma coreografia famosa e estava trabalhando em cima dela por três semanas quando foi avisado, em um ensaio geral, que não seria mais ele quem dançaria o papel ao qual foi designado. Outro bailarino, que havia entrado na Companhia pouco tempo antes da remontagem e que era conhecido pelo coreógrafo, foi escolhido para dançar no lugar dele. Yoshi, por sua vez, tornou-se parte do segundo elenco: “E isso foi uma bomba, porque eu tinha de estar nos ensaios, mesmo não conseguindo nem assisti-los por tristeza, aprendendo e vendo tudo aquilo que eu não ia dançar de verdade” ele contou, em tom leve. Contudo, tentou enxergar isso com outros olhos: se não fosse aos ensaios, nunca iria ao menos aprender as coreografias que tanto queria dançar. Engoliu em seco e treinou. “Acabou que na semana de estreia um dos responsáveis pela remontagem assistiu o trabalho do montador e autorizou com que eu dançasse também, para revezar o papel. No final deu tudo certo e foi bom passar por isso. Acho que às vezes precisamos passar por um baque desses para amadurecer e entender que nossa profissão é assim mesmo.”

Hoje, Yoshi concebe o balé como uma paixão que, ao mesmo tempo que lhe traz coisas boas, foco e o faz refletir sobre suas convivências sociais, também traz frustrações com as quais também tem de lidar. “Isso é a vida de qualquer isso bailarino. Eu tento manter um equilíbrio no sentido de não deixar que isso vire a minha vida, então procuro coisas diferentes, mesmo que dentro da profissão. Tem que ter esse equilíbrio para que não vire um veneno para si mesmo e para que não vire, também, simplesmente um trabalho”, disse. Seus olhos também brilham quando pensa em jogar videogames, comer, sentar no bar para beber e jogar conversa fora com os amigos.

Ana, por outro lado, entende o balé como sua rotina principal e também o que a faz se conhecer cada vez mais como artista e pessoa. Descobriu, por exemplo, que gosta muito de dançar contemporâneo e que não consegue escolher um momento específico em cima do palco que faz seu coração bater mais forte ao lembrar: “São vários momentos no palco, realizando aquilo que a gente prepara durante muitas semanas, até mesmo meses, e aí chega na hora de concretizar, de estar ali com o público, e a gente nunca sabe o que vai acontecer.” Chegou a comentar, sob risadas, que é impressionante como tudo muda na hora da apresentação: “É como se aqui você comesse o prato cru, e, no teatro, ele está cozido, pronto, assado, qualquer coisa assim.” Além de ser apaixonada por arte, Ana também nutre amor por gatos, ir ao cinema e ao teatro, encontrar amigos, principalmente para se arejar e impedir que as bitolas da rotina engrenem sua cabeça.

Profissões bonitas nem sempre são tão bonitas em seus meandros. É importante refletir a respeito disso para que não se romantize em excesso o que, por vezes, não é o que parece ser. Por trás das fantasias, dos sussurros de Tchaikovsky do lado de fora da porta, dos jogos de luzes, existem pessoas. Pessoas com defeitos, paixões, histórias para contar que talvez não sejam tão bonitas quanto os passos que executam em cima dos palcos e memórias ainda mais bonitas que eles. Como toda profissão, a de bailarino é desgastante, frustrante, cansativa, desestimulante.  

Mas, para quem dança, assim como para médicos que encontram alívio ao sair de cirurgias bem sucedidas e demoradas, tudo compensa. Dançar é o que os move. As pedras no caminho e nos sapatos de amarrar são quase que literalmente pontapeados para fora do palco.

E aí, começam os ensaios.

Entram de manhã, saem de noite. Aprendem passos e movimentos que parecem tão simples aos meros observadores, mas que são tão complexos e, quiçá, quase impossíveis de se reproduzir sem anos de preparo. Os músculos doem, as sapatilhas ficam gastas demais, os tutus-bandejas parecem ter encolhido, engrandecido ou acrescidos de três quilos quando postos no corpo. Dançar com objetos parece perigoso demais, falta coragem. O corpo pede por descanso e a mente quase se convence a faltar no ensaio para dormir por mais cinco minutinhos.

Até que chega o grande dia.

Vem o frio na barriga. A música começa. O coração dispara, o “branco” na cabeça toma lugar de meses de preparo, as pernas bambeiam. E, em um piscar de olhos, tudo passa para que a poesia ganhe corpo e tome o corpo. 

E tudo começa de novo.

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