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O que chá para gripe, cloroquina e terapias alternativas têm em comum?
Corpo e Mente
16 set 2020 | Por Guilherme Gama (guilhermegama@usp.br)

Muitos de nós, quando ficamos gripados ou resfriados, nos lembramos dos chás caseiros e outras receitas das avós. Mesmo sem saber se aquela água morna com gengibre e adoçada com mel realmente tem algum efeito para cessar a coriza e os espirros constantes, essa é uma das primeiras coisas que vêm à mente do gripado, às vezes até mesmo antes de apelar para um Ibuprofeno. Em tempos de pandemia sem precedentes, além do vírus da covid-19, soluções surpreendentes e questionáveis para combater a crise sanitária disseminam-se rapidamente. Mais próximos da ciência, fármacos conhecidos são indicados precipitadamente para pacientes. Mais distantes dela, reascendem as terapias alternativas, a medicina baseada nos conhecimentos da pseudociência.

Para entender essa dinâmica, confira esta matéria do Laboratório.

Ao que a medicina alternativa e a convencional nos alertam durante a pandemia? [Imagem: Arquivo pessoal/ Guilherme Gama]

Ao que a medicina alternativa e a convencional nos alertam durante a pandemia? [Imagem: Arquivo pessoal/ Guilherme Gama]

 

Fake News or Fake Science?

Cientificamente,  os chás para resfriado não têm propriedades efetivas contra qualquer espécie de carga viral conhecida. O que eles fazem, na maior parte das vezes, é, no máximo, tratar de forma amena os sintomas da infecção – o que uma simples água aquecida também pode fazer. De todo modo, fazem parte, quase culturalmente, da nossa ideia de cuidar de um resfriado. Mas, quando não se trata de uma “gripezinha”, a questão toma outra dimensão.

Logo nas primeiras semanas do início da pandemia no Brasil, o coronavírus encheu as redes sociais de receitas milagrosas que, segundo seus criadores, tinham a capacidade de combater o vírus Sars-CoV-2 – o que centenas de laboratórios no mundo estavam tentando fazer, até então, sem sucesso. Gargarejo com água morna e sal, vitamina C com zinco, tomar sol em jejum e, é claro, muitos chás de qualquer tipo de alimento que pode colorir água morna. 

As receitas eram tantas que até a imprensa ocupou-se em desmenti-las como forma de conscientizar a população de que tomar chás não preveniria ninguém da covid-19 e que a melhor saída é, portanto, ficar em casa e seguir  as recomendações dos órgãos superiores de saúde. Foi também com esse propósito que o Ministério da Saúde (MS) abriu espaço no próprio site para listar algumas fake news relacionadas à pandemia. 

Entre elas, uma publicada em 3 de fevereiro trazia uma corrente de WhatsApp que se baseava em um suposto médico, Jean-Pierre Willem, para indicar uma mistura de óleos essenciais (extratos vegetais altamente concentrados e perfumados) para combater o coronavírus.

Alerta do Ministério da Saúde sobre fake news relacionada ao uso de óleos essenciais para prevenção do novo coronavírus baseado em livro “científico” [Imagem: Reprodução/ Ministério da Saúde]

Alerta do Ministério da Saúde sobre fake news relacionada ao uso de óleos essenciais para prevenção do novo coronavírus baseado em livro “científico” [Imagem: Reprodução/ Ministério da Saúde]

O interessante é que Willem, citado na mensagem, realmente existe, é médico, e o livro voltado aos “óleos antivirais” é de fato de sua autoria. O médico atua na área de aromaterapia, uma medicina alternativa que promete ter efeitos no combate a vírus, entre outras doenças e sintomas. 

As terapias alternativas são práticas tradicionais que buscam atingir ou superar os resultados da medicina convencional, através de outras aplicações. Elas são denominadas pseudociências por não terem comprovação científica de acordo com a medicina alopática.

A homeopatia é uma das mais populares medicinas alternativas.[Imagem: Reprodução/ Pixabay]

A homeopatia é uma das mais populares medicinas alternativas. [Imagem: Reprodução/ Pixabay]

A doutora em microbiologia pela Universidade de São Paulo (USP), Natalia Pasternak, diz que o consenso na comunidade científica é de que essas práticas não têm eficácia comprovada, não funcionando melhor que um placebo. Mas, afinal, como se dá esse consenso?

A determinação de ciência ou não sobre uma terapia vem da reunião de uma grande coletânea dos trabalhos científicos desenvolvidos nas últimas décadas com o melhor rigor metodológico. As hipóteses são avaliadas conforme os trabalhos de melhor qualidade do mundo todo, demonstrando coletivamente se algo tem validade ou não, explica a doutora. 

Marcelo Yamashita , pós-doutor em física pelo Instituto de Tecnologia e Aeronáutica (ITA) conta que, “apesar de não haver uma verdade absoluta na ciência, o consenso traduz a melhor evidência que temos sobre um assunto em algum momento”. 

Entretanto, mesmo não havendo consenso  para tais práticas alternativas, o Sistema Único de Saúde (SUS)  oferece, hoje, 29 Práticas Integrativas e Complementares (PICs) – que são procedimentos pseudocientíficos para tratamento de estados clínicos diversos – à população. 

Apresentação da gradativa adesão de PICs no SUS pelo plano da Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares. [Imagem: Reprodução/ Departamento de Atenção Básica]

Pasternak fundou o Instituto Questão de Ciência (IQC) logo após a adição das últimas dez modalidades, com a missão de apontar e corrigir a falsificação e a distorção do conhecimento científico na arena pública, promover a educação científica e apoiar o uso de evidências na formulação de políticas públicas, como aponta o próprio portal. Ela ainda afirma que “não é algo sem comprovação, algo que a ciência ainda não entende. É algo que a ciência entende muito bem e sabe que não funciona, e não deve ser propagado, principalmente no meio de uma pandemia”. 

Na contramão da ciência, em uma rápida pesquisa em sites de busca, é possível encontrar instruções de como se prevenir e até mesmo tratar a covid-19 com base em medicina alternativa. André Ferraz, aromaterepeuta e produtor de conteúdo com 160 mil seguidores no Instagram, indica práticas com óleos essenciais para “fortalecer o corpo contra o novo vírus”. Ao ser questionado sobre a plausibilidade científica do tratamento, defendeu a potencialidade da aromaterapia para promoção de saúde e bem-estar, criticando o estigma majoritário de ciência e alegando discordar da visão epistemológica dessa construção de conhecimento.

Mas a propagação vem também pela esfera pública. A prefeitura de Itajaí, município de Santa Catarina, passou a distribuir homeopatia para a população como forma de combate ao coronavírus. “Promover o absurdo de levar agentes de saúde de porta em porta, colocando os agentes e as famílias em risco de contaminação, demonstra o estrago dessas crenças infundadas”, comenta Pasternak.  As cidade de Campinas, interior de São Paulo, e Betim, região metropolitana de Belo Horizonte, também apostaram na ultradiluição para lidar com a pandemia e ampliaram o uso da homeopatia.

Distribuição Camphora officinallis 1M FC, medicamento homeopático, para moradores em Itajaí, visando o fortalecimento da imunidade, como propõe a prefeitura. [Imagem: Reprodução/ Prefeitura de Itajaí]

Distribuição Camphora officinallis 1M FC, medicamento homeopático, para moradores em Itajaí, visando o fortalecimento da imunidade, como propõe a prefeitura. [Imagem: Reprodução/ Prefeitura de Itajaí]

A homeopatia foi banida do sistema público de países como Austrália e Inglaterra. Em outros, ainda caminha para o banimento, como a França e Espanha. Já nos Estados Unidos, os produtos homeopáticos vêm com indicações na bula de que não há comprovação científica para o conteúdo vendido .

A cidade de Itajaí, mais recentemente, foi protagonista de outra polêmica com pseudociência: desta vez, o prefeito, Volvei Morastoni, envolveu-se em uma pesquisa da aplicação de ozônio em via retal para tratamento da covid-19. O tratamento é baseado na ozonioterapia, prática sem comprovação científica também fornecida pelo SUS desde 2018. 

 

E a cloroquina?

O Conselho Federal de Medicina (CFM) disse em nota que repudia a prática da ozonioterapia por falta de reconhecimento científico. Em contrapartida, reconhece duas das práticas pseudocientíficas do SUS, a homeopatia e a acupuntura. E além disso, o CFM aprovou o uso da cloroquina para tratamento da covid-19, após reunião com o presidente Jair Bolsonaro.

A cloroquina e seu derivado hidroxicloroquina são medicamentos cientificamente testados, que passaram pelo crivo da ciência, mas não para a covid-19. A aplicação desse remédio foi através de uma série de métodos que incluem o teste em humanos, apresentando bons resultados para tratamento e prevenção de malária e artrite reumatóide, por exemplo. 

O Conselho Nacional de Saúde não recomendou o uso da droga por falta de evidências científicas que comprovem a eficácia para a nova doença, mas indicou o Reiki para tratar do vírus, PIC também no SUS. De acordo com Yamashita, essa postura contraditória não faz sentido algum e “é incompreensível vinda de um conselho que tem a responsabilidade de orientar políticas públicas”. 

A cloroquina também foi fortemente apoiada por Bolsonaro e se tornou um símbolo da “solução para a pandemia” trazida pelo presidente. O próprio passou a fazer uso do medicamento após testar positivo. A postura do político foi vinculada à atividade populista, o que contribui para a classificação de Bolsonaro como pior líder mundial a lidar com a pandemia pelo The Washington Post. Seu filho e senador, Flávio Bolsonaro, também contraiu o vírus e disse que utilizará o tratamento com  cloroquina.  O Laboratório do Exército brasileiro já gastou mais de 1,5 milhão com a ampliação da produção de cloroquina. O então ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta disse que a decisão partiu do presidente.

Bolsonaro ergue caixa de cloroquina de modo a saldar seus apoiadores. [Imagem: Reprodução/ Facebook]

Príncipe Charles, da família real inglesa, também contraiu a doença e, em seguida, alguns atribuíram a cura à homeopatia, prática da qual Charles é adepto há anos. A confusão se deu a partir de relatórios que ligavam a cura ao tratamento homeopático e impulsionaram discursos promotores da terapia. Assim como atribui-se sabedoria, confiança e fidelidade aos familiares mais velhos pelo seu cuidado e rapidez em pensar nas ervas do chá, as práticas não foram fomentadas apenas na pandemia, mas conferem força popular aos seus representantes. 

A doutora Pasternak alerta que “não existe nenhum tratamento específico para a covid-19, nem farmacológico de verdade, muito menos de mentira”. Ela também explica a discordância entre os órgãos públicos: as estruturas públicas são políticas, não científicas. Desde o reconhecimento como prática médica da homeopatia pelo CFM na década de 1990, motivado por interesses políticos, abriu-se precedente para o adentramentos de outras modalidades na esfera pública.

Segundo a cientista, existe um grande lobby político que se aproveita da religiosidade da população para promover a falsa sensação de bem-estar. “A população acredita estar sendo cuidada”. Ela afirma que esse interesse político opera, aliado a um marketing do bem-estar, na manutenção das “29 modalidades de bobagens no SUS, pagas com dinheiro público”.

 

O preço do zeros depois da vírgula  

Em média, para preparar uma xícara de 250 ml de chá de gengibre com limão, gasta-se algumas unidades de centavos, equivalente a algo menor que 0,001% do salário mínimo atual, por exemplo. Quando o assunto são as terapias alternativas, para Marcus Zulian, professor de homeopatia da USP, o gasto com as PICs no Brasil é irrisório quando comparado às despesas ambulatoriais e hospitalares, correspondendo a 0,008%, R$ 2,6 milhões de um montante de R$ 33 bilhões. 

Pasternak diz que não se sabe qual é, efetivamente, esse custo, tampouco pode-se afirmar que ele é irrisório. No SUS, os municípios recebem o repasse de verba para atenção básica à saúde do MS. Esses recursos são utilizados para várias práticas, desde campanhas de informação sobre anticoncepcionais e infecções sexualmente transmissíveis até a homeopatia e acupuntura. Além disso, muitas vezes um profissional de uma área médica tradicional aplica uma terapia alternativa, o que dificulta a contagem. “Esse custo é quase impossível de ser calculado”, explica a doutora. 

Ainda assim, através da lei de acesso à informação, o IQC solicitou esse orçamento a todas as capitais, e, como resposta, teve acesso apenas ao da cidade de Vitória (ES), a única que conseguiu discriminar os gastos de atenção básica. O registro informou um custo de R$ 4,20 por habitante, anualmente, para oferecer fitoterapia, homeopatía, acupuntura, musicoterapia, auriculoterapia e ioga. “Parece pouco, mas uma dose de vacina de febre amarela custa R$ 3,50. Então, o custo de PICs em Vitória era maior do que o custo para fazer a cobertura vacinal para febre amarela para aquela cidade”, comenta Pasternak.  

Campanha de vacinação contra febre amarela em Vitória, 2017. A cobertura foi de 72,56% da população e houve mortes pela doença, segundo a prefeitura. [Imagem: André Sobral/ Prefeitura Municipal de Vitória]

Campanha de vacinação contra febre amarela em Vitória, 2017. A cobertura foi de 72,56% da população e houve mortes pela doença, segundo a prefeitura. [Imagem: André Sobral/ Prefeitura Municipal de Vitória]

Segundo a doutora, para cada prática que comprovadamente não funciona, qualquer valor maior do que zero é um desperdício, ao passo que esse valor poderia estar sendo empregado em outras necessidades. Yamashita completa dizendo que “em um sistema onde faltam equipamentos básicos, a avaliação de pouco ou muito caro deve ser feita com base na razão custo/eficiência: se a eficiência é zero, então a razão é infinita”, ou seja, é uma fortuna. 

 

Pseudociência e educação 

Desmascarando o mito de “se bem não faz, mal também não”, estudos sugerem que o consumo excessivo e/ou indiscriminado de chás está ligado a lesões hepáticas que comprometem o funcionamento do fígado. O consumo de ervas, tanto em infusão, quanto por fumo são formas da fitoterapia, medicina alternativa que também compõe as PICs. 

Algumas práticas como o Reiki, no entanto,  apesar de cientificamente não promoverem uma cura, não causam efeitos negativos à saúde. Caso oposto ao do uso da cloroquina, que está relacionado com efeitos colaterais que envolvem problemas cardíacos e renais. 

Para além dos efeitos diretos à saúde, há outros impactos dessa imersão.“É incompreensível que exista, por exemplo, uma disciplina de homeopatia em uma universidade pública” diz Yamashita, ao se referir às pseudociências nas instituições de ensino, no caso, a USP. 

Para Pasternak, o avanço dentro das universidades públicas é preocupante, representando “uma falta de pensamento crítico e racional, tanto dos nossos dirigentes quanto dos nossos alunos que aceitam isso de maneira completamente acrítica”. De acordo com ela, nossa ciência está sendo desviada do caminho racional e  “essas práticas não deveriam ser ensinadas como especialidades médicas dentro das escolas de saúde” 

“Como você vai dizer para um aluno que acabou de passar por um curso de bioquímica que tudo que ele aprendeu pode ser jogado no lixo, porque, na verdade, quanto mais diluído um composto, mais potente ele fica, de acordo com a homeopatia?”, questiona a cientista ao afirmar que modalidades como esta desafiam todo o conhecimento científico e médico acumulado nos últimos cem anos.

Para mais, a doutora diz que o endosso dessas práticas pelo MS deseduca a população, pois atribui uma certa credibilidade para algo que, cientificamente, não a tem, criando ainda uma falsa segurança, e desviando as pessoas do tratamento convencional. 

 

“Não se deve demonizar o conhecimento tradicional”

Isso não significa que a sabedoria tradicional, e isso inclui a das nossas avós, deve ser ignorada e retirada do debate científico. Há casos de fármacos que surgiram por meio da investigação racional de efeitos vistos em terapias alternativas, como o caso da erva-de-são-joão, que em testes clínicos como antidepressivo, funcionou melhor que um placebo.

A Organização Mundial da Saúde reconhece as práticas alternativas como importantes para a construção do atendimento médico, ao passo que devem ser levadas em conta dentro de um contexto cultural, mas nunca para o tratamento de estados de saúde. “Não se deve demonizar o conhecimento tradicional de um povo, você deve aproveitá-lo para tentar implementar práticas médicas que funcionam”, completa Pasternak.

Enquanto não há chá para essa doença, a comunidade científica se move para encontrar uma vacina que freie a pandemia do coronavírus. 

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