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Quem é Frank Ocean?
Escuta Aí
02 nov 2016 | Por Jornalismo Júnior

Imagem: Campanha de 2013 da marca Band of Outsiders

Há algum tempo, certas notícias, boatos e rumores específicos aparecem com frequência no universo pop: um álbum atrasado há, pelo menos 2 anos, que nunca é lançado na data anunciada; rixas entre gravadora, executivos e artista; um streaming misterioso no Tumblr, que mostrava apenas uma figura masculina construindo o que parece ser uma escada enquanto música instrumental toca ao fundo; uma revista com conteúdo exclusivo, contendo também um disco inédito, que seria distribuída a algumas poucas pessoas em pop-up stores ao redor do mundo. Todos esses acontecimentos têm uma coisa em comum: envolvem o nome não muito conhecido Frank Ocean. Frank quem?

Frank nasceu Christopher Edwin Breaux, em Nova Orleans, nos Estados Unidos, mas alteraria legalmente seu nome para Christopher Francis Ocean em 2014. Seu primeiro trabalho no mundo da música foi como ghostwriter, compondo para artistas como Brandy, Beyoncé e Justin Bieber – a faixa Bigger, do primeiro disco do cantor canadense, por exemplo, foi escrita por Ocean. Em 2009, o artista passou a fazer parte do coletivo de hip hop Odd Future e conheceu o produtor musical Tricky Stewart, que o ajudou a assinar um contrato com a gravadora Def Jam Recordings (responsável também por artistas como Kanye West, 2 Chainz e Iggy Azalea).

Alguns dos membros do coletivo Odd Future, incluindo Frank Ocean, à direita. Imagem: genius.com

“Instinto de sobrevivência”

Mesmo sob o selo de uma grande gravadora, o primeiro trabalho autoral de Frank Ocean foi lançado independentemente. Em 2011, o artista divulgou em seu Tumblr a mixtape nostalgia, ULTRA, contendo 14 músicas. Nelas, foram utilizados trechos de canções famosas, como Hotel California, do The Eagles, e Strawberry Swings, da banda inglesa Coldplay, mas com letras inéditas, escritas por Ocean. Essas letras abordavam temas diversos, incluindo relacionamentos, problemas familiares e críticas sociais, sempre envolvidos por uma aura de nostalgia, além de se posicionar em relação a temas muito discutidos, como aborto – “I believe a woman’s temple/ give her the right to choose” – e casamento homoafetivo – “I believe that marriage isn’t between a man and woman/ but between love and love” – na canção We All Try, por exemplo.Os gêneros musicais que podem ser encontrados na mixtape também são muitos, algo que seria cada vez mais comum na discografia do artista.

https://www.youtube.com/watch?v=PmN9rZW0HGo

Swim Good, um dos singles de nostalgia, ULTRA, aborda o suicídio.

A iniciativa de produzir músicas sem a Def Jam veio de uma relação que já começou conturbada: a gravadora estava ocupada, na época, com vários artistas mundialmente conhecidos, tais como Rihanna e Justin Bieber, e julgou o estilo de Ocean como “ultrapassado” e muito parecido com o “antigo R&B”, não dando, portanto, a assistência e atenção que o cantor esperava. Em entrevista recente para a The Fader, Tricky Stewart declarou que levar o artista para a gravadora foi um grande erro de sua parte, e que “nostalgia, ULTRA, foi feito por um instinto de sobrevivência e através do talento de Frank. Ele lançou a mixtape porque tinha de fazê-lo”.

Assim que foi liberada, a mixtape começou a receber críticas muito positivas da mídia especializada e atraiu o interesse de grandes nomes do cenário do hip-hop, como Kanye West. A partir desse momento, Frank Ocean passou de um compositor desconhecido a um artista para se prestar atenção, que recebia ligações e convites para colaborações até de Beyoncé. A gravadora, percebendo o sucesso, propôs-se a lançar o trabalho como um EP, o que nunca aconteceu, ainda que duas canções – Novocaine e Swim Good – tenham sido liberadas como singles.

Artista idiossincrático

Quando um artista faz parte de um nicho mais comercial do mundo da música, é normal que sua gravadora, fãs e críticos da área se esforcem para classificar o gênero musical em que esse artista está inserido, e em muitos casos, essa ação é relativamente fácil. No entanto, com Frank Ocean, essa classificação foi um problema desde o início, inclusive para a sua relação com a Def Jam Recordings. O próprio cantor se manifestou em várias ocasiões contra essa necessidade de rotulação. Em uma entrevista logo após o lançamento de nostalgia, ULTRA, foi perguntado se ele se considerava um cantor de R&B, e Ocean mencionou seu desagrado a respeito de que, nos EUA, “se você é um cantor e negro, você é um artista de R&B, ponto final”. Segundo ele, ainda que suas músicas tivessem claramente influências do gênero, ele não produziria um álbum de R&B.

Imagem: streetblabber.wordpress.com

A crítica musical, tentando resolver o impasse, passou a se referir a Frank como um artista com estilo musical idiossincrático, ou seja, fora do comum e de rótulos, e que realiza grande fusão musical em suas canções. Referindo-se ao trabalho do cantor, o The Guardian escreveu: “Sua produção é incrivelmente idiossincrática, carregada de toques estranhos: as melodias nunca acabam sendo como esperado”. A publicação Billboard, indo pelo mesmo caminho, declarou: “Nada a respeito de suas escolhas nas melodias e letras é convencional”. Toda essa postura idiossincrática de Frank Ocean iria apenas se intensificar ao longo de seus álbuns, confundindo e surpreendendo cada vez mais o público e a mídia.

“Eu me sinto um homem livre”

Em julho de 2012, um pouco mais de um ano após nostalgia, ULTRA, o primeiro álbum de Ocean pelo selo da Def Jam, chamado channel ORANGE, finalmente seria lançado. Alguns dias antes da data escolhida para liberar o disco, o cantor postou uma carta aberta em seu Tumblr – única rede social de Frank, em que ele é relativamente ativo – declarando que seu primeiro amor havia sido um homem e que seu CD era, em partes, sobre isso. Na publicação, ele relata o romance e afirma que produziu os álbuns para se manter ocupado e são, para criar mundos melhores do que o dele e canalizar suas emoções. No trecho final da carta, Ocean confessou: “Eu não sei o que vai acontecer agora, e está tudo bem, Eu não tenho mais nenhum segredo que eu precise guardar. […] Eu me sinto um homem livre”.

O impacto dessa declaração, vinda de um artista negro, inserido no cenário do hip-hop e R&B, meio que tende a ser homofóbico, foi bastante grande. Muitos compararam a carta de Ocean à declaração feita por David Bowie, em 1972, acerca de sua bissexualidade. Outros afirmaram que o debate sobre sua sexualidade era uma mera jogada de marketing, para levar seu nome às manchetes e, consequentemente, promover o álbum que seria lançado. Contudo, Frank quase não mencionou sua orientação sexual novamente após o post em seu Tumblr, levando a crer que a publicação realmente não havia sido publicidade para o disco.

Muitas pessoas, anônimas e famosas, demonstraram apoio à Frank na internet

Quando channel ORANGE finalmente saiu, foi natural que todos procurassem nas músicas as referências ao homem que Frank Ocean amou. Mas as letras do CD, ainda que abordem as experiências pessoais do artista a respeito do amor, principalmente nas canções Thinking ´Bout You, Bad Religion e Forrest Gump, vão além disso. Aborda-se também questões existenciais,, espiritualidade, drogas e desigualdade econômica, sempre trazidas em forma de narrativas densas e complexas. A respeito da sonoridade, channel ORANGE, como não poderia deixar de ser, surpreende. Há uma mistura de estilos psicodélicos, funk, jazz, soul, pop e gospel. Há interlúdios em que se ouve o som de órgãos e diálogos; há guitarras, distorções e sintetizadores. Não há, de fato, uma canção no álbum que não seja diferente das outras.

https://www.youtube.com/watch?v=pNBD4OFF8cc

O álbum foi aclamado pela crítica mundial e também por vários artistas e compositores, que garantiram que Ocean estava conseguindo levar o R&B para uma direção completamente diferente e inovadora. O reconhecimento formal do trabalho veio rápido: nos Grammys de 2013, o novato Frank Ocean e seu disco foram indicados em seis categorias importantes, vencendo duas delas, incluindo Melhor Álbum Urbano Contemporâneo, em que concorria com Miguel e Chris Brown. Após todo esse sucesso, o mundo aguardava ansiosamente pelo segundo álbum de estúdio do cantor, porém o caminho até ele seria longo e complicado.

Boys don’t cry?

Em 2013, após vários shows bem sucedidos, Ocean anunciou que teria começado a trabalhar em seu segundo disco de estúdio. Segundo ele, suas inspirações para esses trabalho estavam sendo os Beatles e The Beach Boys e ele estaria interessado em uma parceria com a banda australiana de rock psicodélico Tame Impala, o que levou os fãs a acreditarem que o álbum seria completamente diferente de tudo que o cantor havia lançado até então. Um ano depois, Frank disse que o CD estava quase pronto, mas nada além disso foi divulgado até 2015, quando o misterioso trabalho ganhou nome e data de lançamento: seria chamado Boys Don’t Cry, e liberado em duas versões, em julho daquele ano. Junto a isso, seria disponibilizada uma publicação de mesmo nome do álbum.

Julho de 2015 chegou, mas não trouxe com ele o disco inédito, e nenhuma declaração foi feita a respeito disso. Frank Ocean, que nunca foi muito afeito a entrevistas, se mantinha o mais privado possível, apenas trabalhando em colaborações em músicas e discos de amigos, como no último trabalho de Kanye West, The Life of Pablo, que conta com a participação de Ocean na faixa Wolves.

Imagem: spin.com

Um novo boato acerca de uma data definitiva para o lançamento de Boys Don’t Cry surgiu quando uma imagem de um cartão de atrasos de biblioteca foi publicada no site de Frank, e nela a data mais recente era julho de 2016. Novamente, no entanto, nenhum álbum foi disponibilizado em nenhuma plataforma. Em agosto, surgiu mais uma evidência: o site boysdontcry.com, no qual foi postado um streaming patrocinado pela Apple Music. Nele, o que se via era uma gravação aparentemente infinita de Ocean trabalhando no que parecia ser uma carpintaria, enquanto músicas instrumentais eram ouvidas ao fundo. Especulou-se, então, que tais melodias seriam as do disco, que seria lançado em breve.

No dia 19 de agosto, finalmente tivemos acesso a um projeto inédito de Frank, mas não era o tão aguardado Boys Don’t Cry. Era, na verdade, um álbum visual – algo que já havia sido feito por Beyoncé, por exemplo, com seu Lemonade – exclusivo da Apple Music e intitulado Endless. Nesse mesmo dia, a Rolling Stone anunciou que seria disponibilizado, dentro de uma semana, um segundo disco, mas que realmente não teria o nome que havia sido previamente anunciado. No entanto, ainda no dia 19, foi publicado no site do cantor um videoclipe para a canção inédita e que não estava contida em Endless, Nikes.

Independente, mais uma vez

No dia seguinte do lançamento de Endless, Frank Ocean conseguiu surpreender o mundo mais uma vez, organizando lojas pop-up em algumas cidades ao redor do mundo, nas quais eram distribuídas a alguns fãs uma revista de mais de 300 páginas, chamada Boys Don’t Cry. Dentro dela estavam contos, entrevistas, poemas e ilustrações de vários artistas e fotos nuncas antes divulgadas de Frank. Além disso, a revista continha também um disco inédito: Blonde.

Imagem: fizzymag.com

Blonde foi, depois disso, lançado com exclusividade pela Apple Music, porém com uma nova informação: o CD não pertencia à Def Jam Recordings, como o álbum visual Endless, mas havia sido produzido por Ocean de maneira independente. De acordo com várias publicações especializadas em música, a estratégia do cantor havia sido a seguinte: descontente com a gravadora, ele lançou Endless para cumprir com seu contrato de dois álbuns, para que pudesse liberar Blonde no dia seguinte, pelo seu novo selo independente, chamado, sem surpresas, de Boys Don’t Cry. Isso, no entanto, foi incrivelmente desvantajoso para a gravadora, uma vez que as músicas do álbum visual não podem ser vendidas no iTunes separadamente, o que reduz bastante os lucros.

Imagem: appleinsider.com

O disco independente de Ocean, lançado com alguns anos de atraso, não desapontou. Ele foi, mais uma vez aclamado pela crítica por sua criatividade, ousadia e pelo evidente perfeccionismo empenhado nele pelo cantor. Além disso, Blonde foi considerado o trabalho de Frank que mais aborda a temática queer até hoje, ainda que isso seja feito de forma pessoal e enigmática. Para a Rolling Stone, o CD é “queer no verdadeiro sentido da palavra: não conformista, elusivo, vasto” e, ainda, que “celebra o intangível, o não usual, não segue as regras”.

E, de fato, Blonde é realmente tão bom quanto a crítica alegou ser. Com participações de Beyoncé – na faixa Pink + White –  e de Andre 3000  – em Solo (Reprise) -, Frank Ocean prova que não perdeu a prática em escrever letras brilhantes e compor melodias inesperadas nos anos em que não lançou nada inédito. Esse segundo disco prova que Ocean sempre fugirá das expectativas e normas – sejam elas de gênero, de estilo musical ou de composição. Novamente, o artista nos apresenta uma experimentação sonora interessante e conta histórias completas em suas letras, que tratam de grandes questões, assim como temas mais pessoais. A ambiguidade também fica aparente: nas canções, Ocean não faz questão de explicitar o gênero de seus interesses amorosos através de pronomes. Além disso, ele brinca com a fluidez das definições de gênero pelas palavras também no título do álbum: enquanto na capa lê-se Blond, adjetivo feminino, o nome oficial do CD é Blonde, adjetivo masculino. Isso mostra que Frank não está disposto a ser rotulado e colocado em caixas – seja musicalmente, seja no que diz respeito a sua sexualidade.

Afinal, quem é Frank Ocean?

Analisando sua trajetória musical, percebe-se que Frank Ocean não é um artista fácil de ser entendido e classificado e, muito provavelmente, ele próprio não queira que o façam.

O que se sabe, no entanto, é que Frank Ocean é um cantor que não se limita a um gênero musical, um estilo, uma norma. Nada a seu respeito é convencional. Ele irá escrever sobre sua sexualidade na internet, mas não dará declarações a respeito disso na grande mídia. Ele preferirá ser um artista independente e respeitar sua visão como músico do que permanecer em uma grande gravadora. Ele trará a tona a agenda queer, mas de forma enigmática. Ele lançará novos trabalhos quando sentir que está pronto para tal.

Em resumo, Frank Ocean é tudo, menos previsível. Cabe a nós, por ora, apreciar sua música e estarmos preparados, porque certamente Ocean não deixará de nos surpreender.

Por Mariana Rudzinski
marianarudzinski71@gmail.com

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