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Quem foi David Bowie? – As mil e uma facetas do artista
Escuta Aí
12 jan 2016 | Por Jornalismo Júnior

 

Abro o facebook com a seguinte notícia “Wesley Safadão posta foto com camisa do Bowie um dia antes da morte do cantor”. Dei um sorriso, pois achei que era brincadeira (quantas notícias falsas de morte de celebridades não vemos toda a semana?). Verifiquei a fonte da notícia: Folha de São Paulo. “Não pode ser”, pensei. Abri a página e o pior se confirmou: Bowie havia morrido na madrugada do dia 10, dois dias após seu aniversário e lançamento do seu último disco, Blackstar. Fiquei chocada. Sem acreditar, continuei a verificar o resto da minha linha do tempo, e praticamente todas as notícias falavam do Bowie.

Eu havia acabado de acordar e de repente, tudo fez sentido. As diversas ligações da minha mãe, as várias mensagens no celular de amigos perguntando sobre mim. As lágrimas brotaram dos meus olhos e quando vi, estava em prantos. Chorei como se um amigo íntimo ou um professor querido houvesse morrido. Pois, assim como para mim, ele foi tudo isso para muitos outros fãs. Um amigo íntimo nas horas de alegria e desespero, um professor querido para muitos que se inspiraram, e se inspiram, nessa figura tão icônica.

Quem foi Bowie? Essa é uma pergunta difícil de responder. Sua fama de camaleão do rock não é à toa. David Robert Jones era uma pessoa mutante, sempre se renovando, e é isso que o faz ser O David Bowie: sua habilidade de se modificar como artista e ainda ser fiel ao que ele é, um camaleão. Ele já teve tantas fases que foi quase impossível de acompanhar, sempre andava na frente, como um bom vanguardista.

Bowie aos 69 anos (divulgação)

Na década de 60, ainda como David Jones, seguia a tendência Mod, inspirada no R&B e com muita influência na moda. Os garotos usavam franjas, ternos e camisas socias. No início da década de 70, já assumidamente David Bowie, ele se vestia como os hippies e fazia músicas folks. Com o sucesso eminente, ele estourou em 1972 com o disco de glam rock The Rise and Fall Of Ziggy Stardust and The Spiders From Mars, em que assumiu sua personalidade mais famosa: o alienígena Ziggy Stardust. Em 75, com o lançamento de Young Americans, Bowie passou por uma fase Soul, voltando a usar ternos. 76 ele lançou outro disco que modificava sua sonoridade, Station to Station, em que ele introduziu sua nova persona, o Thin White Duke, inspirado no personagem que ele interpretou no filme The Men Who Fell To Earth. No próximo álbum que sua nova sonoridade se consolidaria, influenciada pelo Krautrock alemão, Bowie lançou três discos conhecidos como A Trilogia de Berlim, Low (1977), Heroes (1977) e Lodger (1979). A década de 80 do Bowie foi marcada pelo New Romantism, com discos como Scary Monsters (and Super Creeps) e Lets Dance, além do clássico filme que performou, Labirinto. Em 1989, Bowie montou uma banda, a Thin Machine, em que se apresentou com seus famosos ternos pretos, mas logo ele voltou para a carreira solo. Já na década de 90 inteira, ele se dedicou a música eletrônica, influenciada pelo jungle britânico e pelo drum’n’bass. Finalmente, em 2000, Bowie assumiu ser uma estrela do rock e continuou a fazer o rock clássico que sempre agradou a todos.

Bowie em 1976 (divulgação)

Um parágrafo não é suficiente para contar “o que foi David Bowie”. Só um livro inteiro para contemplar com maestria toda a sua trajetória pelo showbiz. Esse breve resumo, apesar de contemplar os pontos principais da carreira do artista, não condiz com a sua essência, pois não responde a questão que propus: “quem foi David Bowie?” Pois bem, eu te respondo.

David Bowie foi…

 

Um fashionista

David era um cara muito ligado na moda. Sempre que ele se reiventava, seu estilo mudava. Era reconhecido por suas roupas e foi inspiração para a moda. Suas personas eram sempre marcadas por dois pilares principais: a sonoridade e o estilo. Na década de 70, Bowie foi inspirado pelo Glam Rock e ousou criar duas personagens bem parecidas entre si: Ziggy Stardust (dos discos “…Ziggy Stardust…” de 1972 e Aladdin Sane de 1973) e Halloween Jack (do disco Diamond Dogs de 1974). Influenciados por essa década de exageros, ambos tinham o cabelo mullet laranja arrepiado, usavam macacões coloridos, roupas extravagantes e acessórios marcantes como o tapa olho e as luvas de box do Jack, o terceiro olho ou joia do amor (um círculo desenhado na testa) e o famoso raio no rosto do Ziggy, que acabou por identificar o artista.

Ziggy Stardust (divulgação)

Apesar dessas duas figuras terem marcado a carreira do cantor, houveram muitas outras personalidades que tinham estilos marcantes. Como o Thin White Duke (do disco Station to Station de 1976), que abusou de influências do Soul e Funk, e posteriormente na trilogia de Berlim (77-79), Bowie usava ternos mais clássicos e elegantes, poucos acessórios e o cabelo cortado e penteado para trás com gel.

 

Um gênio musical

Quanto a isso não há dúvidas. David Bowie foi um músico potente, influenciador e de sucesso. Qualquer fase da sua carreira teve sua relevância. Talvez, seu maior sucesso realmente seja com o Glam Rocker Ziggy Stardust, e por isso ele seja chamado de Camaleão do rock, porém, como já dito, sua carreira expandiu para tantos gêneros que não mencioná-los é quase uma ofensa. Bowie se aventurou no folk no começo de sua carreira, quando ainda era David Robert Jones, mas não alcançou sucesso. O resquício dessa época de violão, paz e amor, foi seu primeiro sucesso comercial Space Oddity de 1969. Foi na segunda parte da década de 70 que nasceu o Young Americans (1975), um disco fundamentalmente de Soul e Funk, influencias que se estenderam para o disco seguinte, o Station to Station de 1976, no qual nasceu o já citado Thin White Duke. Outra empreitada do artista foi nos discos da trilogia de Berlim, Low (1977), Heroes (1977) e Lodger (1979), em que se mudou para Berlim e foi altamente influenciado pelo música experimental minimalista da cena, o chamado Krautrock, de bandas como Kraftwerk. E lista de gêneros musicais da carreira deste artista é longa e não se resume ao “rock” do qual ele é nomeado e mais reconhecido.

Thin White Duke (divulgação)

Um artista completo

Bowie não era um simples músico, ele era um artista completo. Desde de criança ele era reconhecido por sua veia artística, tanto para cantar, quanto para dançar e atuar. Muitos talvez não saibam, mas Bowie já foi mímico, antes de se consolidar como músico, e fundou sua primeira companhia aos 21 anos. Por causa desse período estudando mímica, Bowie sempre foi muito teatral e tal talento o levou a estrelar vários filmes como The Man Who Fell To Earth, de 76, em que Bowie interpretou um alienígena chamado Thomas Jerome Newton, e Labirinto – A Magia do Tempo de 86, em que interpretou Jareth, o rei dos goblins. Bowie teve uma carreira de ator consagrado, tanto no cinema quanto no teatro, e principalmente nos musicais da Broadway. Foi através desse espírito criativo e excêntrico que nasceram suas personagens, cada uma com sua personalidade, estilo, sonoridade e história. Bowie criou todo um universo fascinante ao seu entorno, que transcendeu a música. Um exemplo claro disso foi com seu último disco lançado dia 8 de janeiro no seu último aniversário, chamado Blackstar. Após o dia 10, várias teorias surgiram de que Bowie tentou nos avisar da sua morte, através deste álbum e principalmente pelos primeiros singles, Blackstar e Lazarus, em que os temas da morte e da loucura estão presentes. Verdade ou não, tais enigmas só acrescentam ao seu carácter fascinante.

cena do filme Labirinto (divulgação)

Um transgressor

Bowie tinha como essência ser diferente, chamar a atenção da mídia e do público, principalmente durante os anos 70, que coincidiram com a criação de Ziggy. Quem era Ziggy Stardust? Um alienígena que usava roupas estranhas, maquiagem carregada e muitos aspectos femininos. Para resumir, Bowie sempre foi visto como uma figura andrógina, que gostava que quebrar estereótipos de gêneros. E sua personalidade problematizadora foi além do visual. Em várias entrevistas ele respondia perguntas a cerca da sua sexualidade, como por exemplo, a primeira vez que ele declarou ser bissexual, em 1972 para a Melody Maker. Além dessa vez, Bowie foi questionado sobre o assunto em uma entrevista para Playboy em 76 em que disse “Quando fiz 14 anos, o sexo, de repente, se tornou relevante. Não importava realmente com quem ou como era, contanto que fosse uma experiência sexual. Não era difícil levar algum cara bonitinho da classe para casa e transar com ele”. Bowie pode ter sido bissexual, mas seu interesse nunca foi levantar uma bandeira, tanto que ele mesmo, em outras momentos, voltou a trás e disse ter cometido um erro ao se declarar bissexual. Ele tinha um interesse por confrontar os valores normativos de gênero e sexualidade. O biógrafo David Buckley descreveu bem esse sentimento como mais uma “compulsão pelo desrespeito aos códigos morais, do que um verdadeiro estado biológico e psicológico de ser [bissexual]”.

Bowie como Ziggy Stardust (divulgação)

 

Uma inspiração

Bowie se foi na madrugada do dia 10. Onze de janeiro foi uma manhã terrível para os fãs de música, e principalmente para os fãs do cantor. Ele reuniu pessoas de todas as faixas etárias que se interessavam pela sua pessoa enigmática. Ele construiu todo um mundo em volta de si, de aspectos da sua vida, aos seus discos, filmes e alter-egos.

Bowie influenciou músicos e artistas, mas além disso, influenciou milhares de pessoas que passaram a adorar sua figura transgressora, inovadora, misteriosa e excitante. Bowie nos ensinou a sermos iguais a ele: pessoas mutantes, que estão sempre se descobrindo e se transformando. Ele nos ensinou a não seguirmos padrões normativos de gênero e sexualidade.  Ele nos ensinou a sonharmos para além desse mundo. Ele nos ensinou que podemos ser reis e rainhas, heróis e heroínas, nem que seja por um dia. Ele nos ensinou que podemos ser o quisermos.

Bowie na fase Ziggy Stardust (divulgação)

Alguém que vai deixar saudades

Bowie já batalhava contra o câncer a algum tempo, mas nunca tornou isso público. O mundo chorou com essa perda. Fãs de Brixton, Londres, se reuniram para celebrar a vida do artista, e cantaram suas músicas. Vários artistas postaram nas redes sociais fotos com o cantor, lamentando sua morte. O mundo da música perdeu um gênio, mas o céu ganhou uma estrela, ou melhor, o Starman voltou para o seu local de origem. Olhe-se no espelho e encare seu lado estranho, aproveite para olhar as estrelas e ver como elas parecem diferentes esta noite.

Por Lidia Matos

lidiamcapitani@gmail.com

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COMENTÁRIOS
Joana Vilma
Nossa, nunca havia pensado dessa maneira. Muito bom mesmo! Parabéns
20 jun 2016
 
Georgia
Lidia <3 Amo ver sua paixão por escrever, pela música e por Bowie. Adorei o texto!
12 jan 2016
 
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