Home Escuta Aí “Rare” é divertido e confortável, só não ousa
“Rare” é divertido e confortável, só não ousa
Escuta Aí
13 jan 2020 | Por Laura Scofield (lauradscofield@usp.br)

A primeira frase do novo álbum de Selena Gomez poderia facilmente ser um desabafo dos fãs para a cantora. “Baby, você tem estado tão distante de mim ultimamente”, inicia Rare, canção que nomeia o sexto álbum de estúdio da artista – terceiro se contar apenas suas produções solo. Depois de quase 5 anos lançando apenas singles esporádicos, a ex protagonista da série Feiticeiros de Waverly Place (2007), do Disney Channel, retorna às paradas com uma obra intimista e pessoal. 

Selena volta diferente. Deixa um pouco o electro e dance-pop para investir em batidas mais suaves, com influências visíveis de R&B contemporâneo e soul music. Na produção, mantém-se no conforto, já que repete a colaboração com parceiros antigos, como a dupla sueca Mattman & Robin e os estadunidenses Ian Kirkpatrick e Justin Tranter.

Quanto à temática, o álbum é pouco variado: a maior parte das músicas pode ser relacionada à vida amorosa da cantora, com algumas referências também aos desafios que enfrenta em função de sua saúde – diagnosticada com Lúpus em 2013, passou por um transplante de rim 4 anos depois, e, em 2018, foi internada em um hospital psiquiátrico para tratar depressão e ansiedade. 

Lançado no dia 10 de janeiro pela Interscope, Rare conta com 13 faixas e até então três singles. Lose You To Love foi o primeiro a ser disponibilizado. Com tom de desabafo sincero e emocional, é uma das melhores canções da obra. O refrão cria uma atmosfera imersiva com a cascata de vozes, mergulhando o ouvinte na trajetória de superação que o álbum tanto explora. A novidade que traz é a participação de Finneas, irmão e parceiro de Billie Eilish, como coprodutor.

Look At Me Now é mais dançante e fala sobre dar a volta por cima. Já a faixa-título é suave, com batidas leves e voz calma. É gostosa de ouvir, mas Vulnerable, mais profunda e forte, seria melhor escolha para um single.

Sem ápices, o álbum também não tem duras quedas. Mantém certa linearidade, mas por vezes pode ser considerado um pouco repetitivo. Músicas como People You Know, Dance Again e Kinda Crazy não agregam, mas não representam perdas. 

Ring marca um desvio. Com influências latinas – a cantora texana tem canções gravadas em espanhol e continuamente fala sobre suas raízes –, é divertida e debochada. Brinca tanto com o personagem ali descrito quanto com o ouvinte. Como quem sabe o quão hipnotizante e apaixonante é, Selena diz: “Yeah, eu recebi suas mensagens. Todas as 23”, e passa confiança. 

Fun tem a mesma pegada no tema, tratando de relações simples e que nunca pretenderam ser duradouras, mas têm seu charme. A música é exatamente assim – charmosa mas não pretende ser eterna. É tranquila. Mesmo leve e um pouco genérica, ainda lembra do pessoal. Selena retoma a temática de saúde quando solta “você me deixa mais chapada que minha medicação”. 

As últimas duas que merecem ser citadas são as gravadas em parceria. Crowded Room, com 6LACK, é, definitivamente, uma das melhores do álbum. Lembra Good For You, mas o rapper contribui ainda mais do que o A$AP Rocky no primeiro single de Revival (2015). A transição é mais suave e os dois conversam melhor, parecem mais conectados. Se a música fosse single, o vídeo deveria incluir a parte em rap, diferentemente de Good For You, que funcionou bem melhor sem. 

A Sweeter Place, com a participação de Kid Cudi, é esperançosa. Faz sentido apenas enquanto música que fecha o álbum, não podendo ser encaixada em nenhuma outra posição. Oferece uma justificativa ao sumiço da artista nos últimos anos: Selena diz que colocou os pés no chão e sentiu o que era ser real. A música responde uma pergunta dos fãs, mas, sem a participação do convidado, seria pouco relevante. Continuaria boa, mas de pouco peso. 

O álbum marca o retorno de uma Selena diferente, que está repensando seu estilo e se construindo como artista solo que perdura e não existe apenas em função da Disney. Tem identidade própria e é fruto de muito trabalho. 

Em comparação ao último lançamento, perde em alguns pontos. Revival é mais variado, tem músicas mais marcantes e consegue se aprofundar melhor em seus temas. Rare é interessante, mas pouco ousado. Porém, Selena nunca agiu como quem queria ser vanguarda. O que há de mais ‘fora da linha’ é o clipe com inspirações psicodélicas da música que nomeia a coletânea. Não faz muito sentido, mas é bonito poderia-se mesmo dizer raro. Fetish (2017), entretanto, explorou melhor o subjetivo.

Rare não agrada nem desagrada com intensidade. É um bom álbum. Divertido, confortável e leve, parece indicar como Selena quer que sejam seus próximos anos – depois dos últimos tão conturbados.

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