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Um ídolo, o beisebol e a miscigenação cultural americana
ARQUIBANCADA
12 ago 2020 | Por João Pedro Barreto (joaobf@usp.br) e Matheus Nascimento (matheus1124.eca@usp.br)

Dono de uma extraordinária história no beisebol e também em sua vida particular, o porto-riquenho Roberto Clemente era a atração latina da Major League Baseball (MLB) nas décadas de 1950 e 1960. A sua consagração não se deu através do esporte apenas. Para além de tudo que representou, ele soube conciliar todas as suas mais diversas formas de atuação como personalidade. E, por incrível que pareça, toda sua carreira marcou não só a história de seu país, mas verdadeiramente aproximou as pessoas em seu tempo. Isso lhe engrandece atualmente e mostra como um grande exemplo do espírito de colaboração move muitos em torno da imagem de um ídolo.

Em um mundo ainda dividido ou diferenciado em tantos aspectos, o esporte se assemelha às histórias que estão relacionadas a algum tipo de dificuldade. Quando um grande esportista sai de lugares pobres, não há quem o pare, principalmente porque o seu objetivo é disponibilizar aos seus o que não lhe foi disponibilizado. Clemente, ainda um jovem afro-descendente, natal da cidade de Carolina, em Porto Rico, imaginava sempre jogar no time de seu pequeno bairro de San Antón contra outras equipes da vizinhança. Porém, chegou onde não poderia imaginar, realizando um intenso trabalho humanitário nesse processo. Quando completou 20 anos, o atleta passou a atuar na equipe que o consagrou como um dos melhores defensores direitos da história do beisebol.

Fotografia aérea da cidade natal do beisebolista porto-riquenho [Imagem: Mtmelendez/Wikipedia Commons]

A sua bagagem de Porto-Rico

Roberto Clemente teve logo em sua infância contato com um esporte que não é bem o beisebol, mas que tem características muito semelhantes. Em seu primeiro ano de ensino médio, foi recrutado pelo treinador do time de softball das redondezas chamado Sello Rojo. Por sua rápida evolução, logo aos 16 anos, iniciou na liga amadora de beisebol. Não demorou muito para o atleta assinar seu primeiro contrato profissional: em 1954, Roberto Clemente se tornava oficialmente jogador do Brooklyn Dodgers, de Los Angeles, nos Estados Unidos.

O caminho do porta-riquenho até atuar em solo californiano, porém, foi mais longo. Nas duas temporadas anteriores, o jogador apelidado de Arriba já havia atuado pelo campeonato local de beisebol em seu país. Ele começou jogar a convite de um colega treinador na equipe dos Cangrejeros de Santurce, em 1952. Na sua primeira temporada, não conseguiu alcançar titularidade. Já em seu segundo ano, entrou no time como rebatedor oficial e alcançou uma marca de 0.288 bases por bola.

O desempenho da equipe na Liga Profissional de Beisebol naquela temporada foi histórico, pois eles conseguiram conquistar o título da temporada 1953-54. O atleta sai de seu país bem destacado e como uma grande aposta para torneios maiores no cenário do beisebol mundial. Mal sabia ele que estava prestes a se tornar um cidadão americano a partir de sua saída para atuar na Liga de Beisebol dos Menores, no time do Montreal Royals, em questões de poucos meses.

Chegando na MLB

Roberto Clemente chegou na MLB muito aclamado pelos times americanos. O olheiro do Brooklyn Dodgers comentou na época que ninguém podia lançar bolas ou correr melhor que Clemente. Por não ter sido aproveitado no elenco principal dos Dodgers em sua primeira temporada, indo jogar as ligas menores com o Montreal Royals, o jovem porto-riquenho teve que sair da equipe. Então, ficou disponível para uma espécie de draft, onde o Pittsburgh Pirates, que tiveram o pior desempenho na liga nacional na temporada de 1954, o escolheu, assinando contrato com o jovem jogador.

Apesar dos diversos elogios, o garoto de 20 anos ainda enfrentaria diversas dificuldades no novo país até se tornar uma grande estrela. Além da barreira linguística, por falar um inglês carregado de sotaque espanhol – algo que não era bem visto pelos americanos – Clemente ainda sofreu com algumas lesões e doenças que o fizeram perder mais de uma centena de jogos durante suas primeiras cinco temporadas.

Além disso, o mundo na década de 1950 era definitivamente outro. O primeiro jogador negro a atuar na Major League Baseball só apareceu em 1947, apenas oito anos antes de Clemente estrear. Alguns latinos já haviam aparecido na MLB, mas ainda eram poucos e sem grande destaque. Roberto juntava essas duas características, e o racismo e a discriminação eram presentes em seu dia a dia.

Porém, foi aos poucos superando todas essas dificuldades e evoluindo dentro da equipe de Pittsburgh, tendo algumas boas temporadas logo no seu início. “A franquia vinha de alguns anos de desempenho ruim, e atuar sem a pressão por títulos deu a ele tempo para acostumar-se à cidade, ao jogo em alto nível e para melhorar seu desempenho”, comentou Gabriel Mandel do site The Playoffs.

Imagem de Clemente com seu uniforme número 21 do Pittsburgh Pirates [autor desconhecido]

Pirates e Clemente: a construção de uma idolatria

Em 1960, Clemente teve seu primeiro ano de grande destaque na liga. Foi eleito pela primeira vez para o All Star Game – jogo das estrelas da liga – e disputou o MVP (Most Valuable Player) da temporada, ficando em oitavo na votação para o prêmio.

Além disso, liderou o time de Pittsburgh para a World Series – as finais da MLB – pela primeira vez em mais de 30 anos. Na série final, Clemente teve um bom desempenho, conseguindo 31% de sucesso nas rebatidas, e conquistou seu primeiro anel de campeão derrotando o tradicional New York Yankees.

A partir de então, Clemente se firmou como um dos grandes jogadores da liga. Manteve um percentual de mais de 30% de sucesso nas rebatidas em todas temporadas até o fim de sua carreira, exceto em 1968. Para Gabriel, tal aproveitamento é “algo reservado apenas para grandes jogadores”.

O porto riquenho ganhou ainda diversos prêmios individuais durante sua carreira. Entre eles estão: 12 Luvas de Ouro seguidas (prêmio dado aos melhores defensores da temporada), entre 1961 e 1972, um MVP da temporada em 1966, diversos All Star Games e um MVP da World Series em 1971, quando conquistou seu segundo título por Pittsburgh.

A segunda World Series foi um marco em sua carreira. Em uma acirrada disputa estabelecida em sete jogos contra o Baltimore Orioles, Clemente conseguiu mais de 41% de sucesso nas rebatidas e dois home runs, que levaram os Pirates para mais um título. “Você não consegue 3000 rebatidas e uma dezena de Luvas de Ouro sem uma ética de trabalho formidável” destacou Antony Curti, comentarista de beisebol dos canais ESPN.

Acumulando diversas atuações históricas e vários prêmios individuais, Clemente foi se tornando, ao longo dos anos, um dos maiores jogadores de sua época, um ídolo em Pittsburgh e o maior latino que já havia pisado nos campos da Major League Baseball. 

Devido ao seu desempenho na defesa, no ataque ou fora dos campos, Roberto se tornou um símbolo para a torcida e para a cidade. Ganhou, além de prêmios, muitos fãs e respeito de uma liga que o discriminava por conta de sua cor e origem.

Estátua de Roberto Clemente no PNC Park, estádio atual do Pittsburgh Pirates [Imagem: photojunkie]

No fim de 1972, Clemente sofreu um acidente de avião no Caribe, enquanto levava suprimentos de Porto Rico para Nicarágua, que sofrera um grande terremoto na época. Após a queda, seu corpo nunca foi encontrado.    

Em 1973, Roberto foi eleito para o Hall da Fama do beisebol. O Hall é uma das grandes atrações do esporte em Nova York, juntamente com o Museu Nacional do Baseball. Em uma eleição especial, que ignorou a regra de serem necessários 5 anos entre a aposentadoria, ou morte, e a entrada ao Hall da Fama, Clemente se sagrou o primeiro latino a chegar nesse patamar.

Gabriel ainda destacou o simbolismo dessa eleição: “O fato de o Hall da Fama ter alterado suas regras para eleger Clemente, bem como a indicação por mais de 90% dos votantes, indicam o tamanho da perda e o tamanho da importância de Clemente para o beisebol mundial”.

A realização do seu ativismo e sua postura em relação à situação racial nos EUA

A origem do ativismo por parte do atleta surge quando ele começa a receber grandes cifras no Pittsburgh. Porém, já era sua essência manter atividades sociais voltadas para a colaboração com a recuperação de crises humanitárias, tendo enviado recursos básicos para a subsistência das populações atingidas por grandes tragédias na região por muitas vezes.

Logo nos primeiros jogos do número 13 dos Piratas de Pittsburgh, se evidenciava que a tendência discriminatória em seu novo país seria uma das mais difíceis experimentações. Como o preconceito racial também era comum entre os companheiros de time, Roberto estaria sempre sendo alvo de injúrias e atuante no enfrentamento apoiando colegas negros. “Podemos dizer que, para a época, ele sofreu um duplo preconceito”, diz Antony ao querer exemplificar o desrespeito dos americanos frente ao tema linguístico e racial.

Muito ligado aos preceitos da fé católica de sua família, o jogador tinha uma grande necessidade de mostrar serviço a seu povo. Tantos anos se passaram após a sua chegada nos Estados Unidos e, mesmo assim, o atleta se viu preocupado com a situação socioeconômica do seu país e dos países irmãos vizinhos. “Era constante vê-lo em intertemporadas agindo em países do Caribe para ajudar quem tinha fome ou crianças que precisavam de equipamentos de beisebol”, destaca Curti.

“Em 1954, o beisebol ainda era um esporte majoritariamente de brancos, uma vez que a barreira de cor foi quebrada por Jackie Robinson apenas em 1947. Roberto sofreu preconceito tanto por sua origem como pela sua cor de pele, só conseguindo seu espaço graças ao seu talento. Ele foi um dos grandes expoentes entre os latinos na Major League Baseball, e abriu espaço para outros porto-riquenhos, cubanos, venezuelanos, dominicanos e muitos outros na competição”, destacou Mandel recordando do jogador americano que foi eleito como uma das 100 pessoas mais influentes do século XX pela revista Time no ano de 1999.

Mandel também sabe da importância do trabalho social de Clemente em toda América Central para a comunidade do beisebol mundial. “Anualmente, cada franquia indica o atleta que mais impactou a comunidade durante o ano como candidatos ao Roberto Clemente Award, um prêmio que é oferecido ao jogador que melhor representa o espírito de comportamento esportivo, envolvimento em ações na comunidade e contribuição para a equipe. A atuação extra-campo de Clemente ajudou a quebrar alguns estigmas que marcavam os latinos no mundo do beisebol”, afirma ele.

Realmente, o atleta foi um dos principais destaques do esporte na luta contra a segregação em solo americano. Até o apelido dado a ele pela mídia da época fora rejeitado pelo atleta. O beisebolista estrangeiro sempre deixou claro que seu nome, Roberto, e seu sobrenome paterno, Clemente, eram a sua preferência mais correta durante as citações da imprensa.

Quem também tem esse mesmo pensamento sobre o início sofrido da carreira do defensor é Antony. “Clemente foi o primeiro latino a vencer uma World Series como titular na defesa, então isso se tornou um marco significativo para o atleta e abriu portas para que outros jogadores, sobretudo do Caribe, percebessem que aquele era um sonho muito possível”, ressalta o comentarista.

Um legado deixado em Porto Rico

O impacto de Clemente no esporte é inegável. Bicampeonato, Hall da Fama, entre outras diversas conquistas, o porto-riquenho é um dos maiores da história da MLB. 

Por isso, era inevitável que ele se tornasse símbolo em Porto Rico e por toda América Latina. Sua influência para o beisebol da região foi enorme, pois abriu as portas e quebrou preconceitos para os latinos entrarem na liga. Atualmente, muitos jogadores saem de diversos países latinos para fazer sucesso na MLB. 

“Se por um lado as crianças caribenhas que cresceram admirando Clemente, puderam ter isso como um sonho, do outro lado a presença e carreira de Roberto fizeram com que as franquias olhassem com menos preconceito para os atletas dessas regiões”, afirmou Antony Curti.

Babe Ruth é, talvez, o maior jogador de beisebol e símbolo do esporte na história. Para os latinos, especialmente os porto riquenhos, Clemente se tornara o Babe Ruth latino.

Especial América Latina Jornalismo Júnior Roberto Clemente

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