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Stay Strong: Os demônios de Demi Lovato, superação e recaídas
Escuta Aí
17 ago 2018 | Por Jornalismo Júnior

Foto: Rolling Teens

Los Angeles, terça-feira, 24 de julho. Era pouco antes do meio-dia no horário local quando os paramédicos chegaram à casa de Demi Lovato após um chamado de emergência. Segundo o TMZ, a cantora foi encontrada inconsciente por sua assistente que acionou o socorro. Na noite anterior, Demi comemorava o aniversário de uma de suas dançarinas em um bar e seguiu para casa com alguns amigos, onde a comemoração continuou. Inicialmente, divulgou-se que Demi teria sido vítima de uma overdose de heroína, entretanto, a informação não foi confirmada. O departamento de polícia de Los Angeles afirmou que acessórios ligados ao uso de entorpecentes foram encontrados na casa, mas a droga utilizada segue desconhecida. Um porta-voz da cantora divulgou à NBC na quarta (25/07) que Demi está acordada e acompanhada da família, e agradeceu o apoio.

O episódio marca uma recaída para Lovato, que no dia 15 de março comemorou nas redes sociais 6 anos de sobriedade. A cantora é conhecida por sua história de superação ao lidar com vícios e transtornos psicológicos e por chamar sempre a atenção para a importância do cuidado com a saúde mental. Por esse motivo, o Sala33 traz a um pouco das batalhas travadas por Demi Lovato e o impacto em sua música e fãs, carinhosamente apelidados de lovatics.

Demi Lovato em uma de suas últimas performances antes de overdose. Fonte: Veja

 

Infância Conturbada

Demetria Devonne Lovato, ou simplesmente Demi Lovato, nasceu em Albuquerque, Novo México, em 20 de agosto de 1992, mas passou sua infância em Dallas, no Texas, cidade natal de sua mãe. Filha biológica de Patrick Lovato, a garota cresceu com a ausência do pai. Viciado em álcool, Patrick deixou a família quando Demi e Dallas, sua irmã mais velha, eram ainda pequenas. Desde então a relação das garotas com ele passou por uma série de idas e vindas conturbadas retratadas em algumas de suas canções como World of Chances, For the Love of a Daughter e Shouldn’t Come Back.

Aos 5 anos, Demi e sua irmã entraram no mundo dos concursos de beleza, o que despertou nela a vontade de cantar. Com uma voz potente, a menina logo destacou-se e aos 7 passou a integrar o elenco da série infantil Barney e Seus Amigos, seu primeiro trabalho na televisão. A fama precoce, entretanto, veio acompanhada de problemas. Em seu último documentário, Simply Complicated (2017), Demi afirma que o bullying na escola era uma constante em sua vida. Ela narra para o espectador o episódio em que uma garota, referida como popular, diz que ela deveria se matar e passa uma petição de suicídio pela sala de aula, conseguindo uma série de assinaturas dos demais. Xingamentos como “gorda” e “vadia” eram utilizados como apelidos e a perseguição foi tamanha que aos 12 anos Lovato deixou a escola e passou a ser educada em casa.

Além do bullying constante, Demi ainda afirmou que costumava ter fascinação com a morte, criando cenários de como seria ter um funeral e pensamentos suicidas desde muito cedo, em um quadro de depressão infantojuvenil. A compulsão também se manifestou nessa fase, quando a garota costumava usar a comida para escapar de suas frustrações. Outro fato da infância de Demi, esse levantado pelos fãs, é de que a cantora teria sido abusada sexualmente. A suspeita é baseada na letra da música Warrior, mas ela manteve silêncio sobre a questão desde o seu lançamento. Entretanto, neste ano, ao falar sobre abuso sexual no Twitter, afirmou que entendia do assunto e pediu para que olhassem a letra da canção, dando a entender que a teoria dos fãs está de acordo com a real motivação da letra.

 

Demi Lovato ao lado da irmã Dallas e do pai biológico, Patrick Lovato. Fonte: Wiki Demi Lovato

 

A batalha contra a comida e o espelho

“Eu não quero sentir medo, quero acordar me sentindo bonita hoje” (I don’t wanna be afraid, I wanna wake up feeling beautiful today). A frase que introduz o refrão de Believe In Me carrega um significado profundo para Lovato. Dentre todos os seus demônios, a relação com a comida é algo que nunca deixou de ser preocupação para ela. Aos 8 anos, costumava cozinhar biscoitos para a família, mas acabava comendo todos sozinha para lidar com a pressão das constantes audições e testes de elenco. Em seu diário de infância, segundo a mãe Dianna, havia em uma página o desenho de como ela se via (gorda) e na seguinte um outro com a imagem de como acreditava ter que aparentar para ser uma estrela (extremamente magra). A compulsão alimentar da infância evoluiu para um quadro de bulimia. Segundo o Inpa (Instituto de Psicologia Aplicada), a Bulimia é um transtorno alimentar caracterizado pela presença de episódios bulímicos, ou seja, o indivíduo ingere uma quantidade significativamente grande de alimentos em um curto espaço de tempo e em seguida tem atitudes compensatórias como vômito autoinduzido, uso de laxantes e diuréticos, exercícios excessivos, jejum prolongado, dentre outros.

“A comida ainda é um desafio na minha vida, é algo em que estou pensando constantemente. A imagem corporal, o que vou comer depois, o que eu desejaria poder comer, o que eu desejaria não comer.” confessou Lovato em Simply Complicated. A batalha de Demi contra a balança e seu distúrbio alimentar é parte significativa de sua história. Em 2010, a cantora foi internada em uma clínica de reabilitação. Segundo ela, em seu primeiro dia, era incapaz de terminar uma refeição simples. Demi não tem a pretensão de afirmar estar curada, não nega ter tido recaídas e sabe que a recuperação é um processo constante. Na costela, sua primeira tatuagem é a frase “You Make Me Beautiful” (Você me faz bonita) para lembrá-la da própria beleza ao encarar-se no espelho.

Em outubro de 2017 Demi compartilhou em seu Instagram um comparativo que mostra a mudança do seu corpo no processo de recuperação. Fonte: Daily Mirror

Ao longo dos anos, a estrela utilizou sua história para defender a autoaceitação e mostrar que não existe um modelo ideal de corpo. “Eu sinto que é preciso alguém levantar a voz e dizer que você não precisa forçar a si mesma a perder peso ou aparentar ser de certa forma”, disse a estrela em entrevista à People. Em 2015, lançou um ensaio fotográfico em que aparece nua, sem maquiagem e sem retoques para a revista Vanity Fair. Fotos de cara lavada ou com celulites à mostra não são incomuns para ela. Demi, como qualquer pessoa que já passou e lida com a recuperação de distúrbios alimentares, apresenta fases distintas. É comum vê-la ganhar e perder peso em períodos de tempo relativamente curtos para quem nunca teve problemas com alimentação. Ela usa a malhação e a luta como formas de manter-se em equilíbrio com o próprio corpo e diz que quanto menos pensa em comida, mais fácil é para ela viver uma vida normal. “Eu praticamente me rendi a esse processo de me amar e eu acho que isso pode ser percebido pelas minhas fotos. Eu quero mostrar aos meus fãs que é possível para eles também terem amor próprio.”, declarou à Ellen DeGeneres.

Demi sem maquiagem ou retoques para a Fanity Fair. Fonte: Vanity Fair

 

As marcas físicas

Fotos contam histórias, e foi assim que os problemas de Demi Lovato com automutilação vieram a público. Em 2008, a recém lançada estrela da Disney foi clicada com cortes nos pulsos. As imagens circularam na internet e alertaram os fãs e alvoroçaram a mídia. Conhecida como “self-harm” ou “automutilação”, a prática consiste em ferir a si mesmo e está geralmente associada a outros distúrbios psicológicos como depressão ou bipolaridade. “Comecei com 11 anos. Era uma forma de expressar a vergonha que tinha de mim mesma em meu corpo. Era como colocar para fora o jeito com que eu me sentia.” revelou Demi sobre seus cortes.

Imagens de paparazzis mostram cortes de Demi Lovato. Fonte: gritosenelsilencio1

Após as fotos, Lovato deixou de cortar os pulsos, mas os ferimentos não pararam por aí, apenas migraram para lugares menos visíveis. “Eu estava lidando com essa dor emocional e me sentia culpada e envergonhada. Eu decidi descontar em mim. Eu me machuquei” revelou Demi em documentário após deixar a reabilitação. Para ela, os cortes são também uma forma de vício. “Um vício é um obsessão em algo que toma conta da sua mente e de todo o seu pensamento. Pra mim era não comer, vomitar e me cortar.”

As marcas de Demi, entretanto, deram lugar à sua força. Com uma palavra tatuada em cada pulso, “Stay Srong” (fique forte) veio para cobrir de vez as cicatrizes deixadas pelos cortes e logo foi adotada como inspiração e imitada por fãs que lidavam com problemas similares. Segundo ela, a tatuagem é uma lembrança da importância de manter-se firme e do apoio constante de seus admiradores, que adotaram a expressão como um mantra.

Tatuagem que recobre as cicatrizes e lembra apoio dos fãs. Fonte: Pinterest

 

Disney, Sucesso e a espiral das drogas

A primeira atuação de Demi na Disney foi na série Quando Toca o Sino (2007). Pouco tempo depois, a jovem recém descoberta pelo canal conseguiria o papel que mudaria a sua vida: Mitchie Torres, a estrela de Camp Rock (2008) ao lado dos já consolidados Jonas Brothers. O filme foi sucesso instantâneo e a jovem de 15 anos foi alçada ao patamar de popstar, ídolo adolescente. “Tudo aconteceu tão rápido, de repente eu estava em turnê com o filme, escrevendo músicas para o meu álbum com os Jonas Brothers, e então eu estava na minha própria turnê. Olhando para trás, seria demais para qualquer um, principalmente para uma adolescente.” reconhece em seu documentário. O sucesso de Demi foi tão grande que ela ganhou uma série própria: Sunny Entre Estrelas (2009). Entre a série, filmes, turnês e álbuns, Lovato sentiu a pressão e seus problemas começaram a se agravar.

Marissa Calahan, amiga de infância da cantora, afirmou que ambas começaram a beber ainda muito cedo, parecia divertido e todos os jovens faziam. Aos 17, Demi usou cocaína pela primeira vez junto de seus colegas da Disney. Segundo disse Phil McIntyre, empresário da estrela, em entrevista ao Simply Complicated, Lovato estava vivendo duas vidas. “De repente ela precisava ser esse modelo de conduta e eu não acho que ela estava pronta para isso.” Ela passou de doce para rude e a postura rebelde assustou a equipe, mas em meio a uma turnê mundial de sucesso estrondoso, todos preferem acreditar que é apenas um comportamento da adolescência.

 

Demi Lovato e os companheiros de elenco e turnê Jonas Brothers em imagem promocional de Camp Rock. Fonte: Todateens

 

O ápice

Era fim de Outubro de 2010, a turnê de Camp Rock passava pela Colômbia e Demi chamou alguns amigos e membros da equipe para um jantar. A bebida ficou por conta dela. Nesse ponto, Lovato estava sob o efeito de anfetaminas, drogas estimulantes. A festa causou problemas para o hotel, e alguém contou ao Phil, ao empresário de Kevin Jonas e a Eddie, pai (padrasto) de Demi sobre as drogas que ela vinha usando. No dia seguinte, Lovato descobriu o delator, Shorty, uma de suas dançarinas, e em um acesso de raiva a socou no rosto dentro do avião. Demi Lovato deixou a turnê em meio à manchetes sobre uso de drogas, distúrbios alimentares e automutilação e internou-se em uma clínica de reabilitação sob um ultimato de seus pais, que ameaçaram afastá-la da irmã mais nova, Madison. Segundo Demi, a ideia da clínica não foi dela, mas a mesma não ofereceu resistência.

Demi Lovato e Alex Welch, Shorty, a dançarina agredida. Fonte: weandthefamous

 

Rehab e Bipolaridade

Em meio a um turbilhão de notícias e fãs desesperados, Demi Lovato deu entrada no Centro de Reabilitação Timberline Knoll, em Illinois, para tratar de seus vícios e distúrbios. Na clínica, recebeu o diagnóstico de transtorno bipolar. Segundo o manual da MDS, o transtorno caracteriza-se por episódios de mania (agitação extrema) e depressão que podem alternar-se, embora a maioria dos pacientes tenha predominância de um ou do outro. “Quando fui diagnosticada com bipolaridade… apenas fez sentido. Quando eu era mais nova não sabia porque ficava até tarde escrevendo e tocando músicas. Eu aprendi sobre episódios de mania e percebi que era provavelmente isso. Eu era maníaca. De um jeito que não era mais minha culpa” disse Demi em documentário.

Lovato ficou reclusa por 3 meses. Durante esse período, seu contato com o mundo externo era limitado às visitas que recebia. A cantora foi acompanhada por uma série de profissionais e medicada para o diagnóstico recebido. Eram cerca de 14 horas de terapia diárias, entre sessões privadas e em grupo. No dia 28 de Janeiro de 2011, Demi deixou o centro de reabilitação e causou comoção ao aparecer feliz e sorridente. A data, a partir de então, foi adotada pelos fãs como o “lovatic day”, Dia dos lovatics, simbolizando a recuperação da cantora.

Ao falar sobre a bipolaridade, Demi evita rotulações. “É verdade, eu sou bipolar. Mas não gosto quando as pessoas usam isso como um rótulo. Isso é algo que eu tenho e não o que eu sou” afirmou Demi em entrevista ao programa Label Defiers, da iHeart Radio.

Demi deixando a clínica de reabilitação na qual passou 3 meses. Fonte: Daily Mail

 

Skyscraper, Unbroken e Stay Strong

O tão aguardado retorno de Demi ao mundo da música não demorou a acontecer. Em julho de 2011, Skyscraper era lançado como o primeiro single do álbum Unbroken, marcando sua volta. A canção foi originalmente gravada em 2010, antes de sua ida a rehab, e regravada no ano seguinte. A versão mantida, entretanto, foi a original, onde Demi aparece com uma voz enfraquecida pelos vômitos constantes da bulimia e transmite toda a aflição do período mais sombrio da sua vida em tom embargado. A música virou símbolo de superação e inspirou fãs ao redor de todo o mundo. Unbroken foi lançado e ela saiu novamentente em turnê. Lovato seguia em uma campanha de sobriedade, mas nem tudo era como parecia em frente às câmeras, e os bastidores guardavam segredos perigosos.

Em julho de 2012, seu primeiro documentário, intitulado Stay Strong, foi lançado. O título faz referência à tatuagem da cantora, que por sua vez foi tirada da frase de apoio usada pelos fãs durante os meses em que ela passou na reabilitação. No filme, ela conta sobre a espiral de problemas que a levaram até aquele ponto, o seu período na clínica e os desafios de manter-se saudável. Em 2017, entretanto, com seu segundo documentário, Demi revelou que ao gravar o Stay Strong estava sob o efeito de cocaína.

O clipe de Skyscraper mostra Demi sozinha em um deserto, andando sobre vidros e se reerguendo, como uma narrativa de sua jornada. Fonte: Reprodução

Segundo Phil, Lovato manipulava a sua equipe e amigos, mas todos sabiam que algo não estava certo. A própria cantora afirmou que usava cocaína escondida, adulterava os próprios testes de urina e não estava comprometida com seu programa de recuperação. “Eu chegava a esconder drogas. Não conseguia ficar de trinta minutos a uma hora sem cocaína e a levava nos aviões. Eu praticamente contrabandeava e esperava até que todos da primeira classe fossem dormir para usar ali mesmo”. De acordo com Mike Bayer, conselheiro de Demi, a estrela estava em uma jornada para o suicídio.

A saída encontrada foi uma intervenção. Phil reuniu os membros da equipe e fez com que concordassem em dizer que sairiam do time caso ele saísse. “A coisa que a Demi mais tem medo é perder pessoas, ser abandonada”, disse ele. Ao ver que o que diziam era realmente verdade, Lovato chorava e perguntava o que deveria fazer. Phil pediu para que ela quebrasse o celular, onde segundo ele estavam todas as influências que a levaram até aquele ponto, e assim ela o fez, iniciando pra valer o seu processo de recuperação.

Durante o documentário Stay Strong (2012) Demi estava sob o efeito de cocaína como revelou em 2017. Fonte: Imdb

 

Casa de Sobriedade e nova esperança

Após a intervenção da equipe, Demi passou a comprometer-se com o seu tratamento. Para certificar-se de que se manteria no processo, Lovato passou a morar em uma “casa de sobriedade”. A cantora tinha colegas de quarto e acompanhamento profissional. Durante o dia mantinha as suas atividades normais como jurada do reality The X Factor em seu primeiro ano de sobriedade, mas retornava para o apartamento compartilhado para passar a noite. Demi não tinha acesso a celulares e estava 100% comprometida com a sua recuperação enquanto encabeçava campanhas em prol da saúde mental.

“Você realmente tem que confiar em pessoas que estão tentando te apoiar”, disse a cantora. Lovato passou alguns anos nesta residencia até que estivesse segura para seguir com o tratamento sem o apoio diário. Ela manteve-se sóbria durante 6 anos e nesse período abriu-se para o público quanto às suas lutas. Com isso, teve papel fundamental ao dar voz à importância da saúde mental na indústria do entretenimento e fora dela, sempre incentivando a busca por ajuda. “Estou aprendendo a ser uma voz, não uma vítima”.

Na imagem, Demi Lovato ao lado dos também jurados do reality The X Factor Simon Cowell, Paulina Rubio e Kelly Rowland. Lovato estava sóbria e vivendo em apartamento de sobriedade. Fonte: Ego

 

O ativismo de Demi Lovato

Em 2015, Demi se tornou o rosto da campanha “Be Vocal: Speak Up For Mental Health” que incentiva a discussão aberta sobre doenças mentais. Seu ativismo chegou ao congresso americano quando cobrou dos deputados e senadores uma maior atenção ao problema que atinge um grande número de pessoas no país. “Precisamos de um sistema de saúde melhor no que diz respeito à saúde mental. Precisamos de mais reformas. Isso é muito importante para que nossas comunidades e nosso país possam crescer e prosperar”, disse Lovato ao The Huffington Post.

Em sua turnê conjunta com Nick Jonas, a cantora iniciou um projeto de sessões de terapia gratuitas antes dos shows aos fãs que sentiam precisar de ajuda. Eram palestras motivacionais dadas por especialistas e sobreviventes que incentivavam a busca por tratamento. “O meu objetivo de vida é inspirar outras pessoas, acho que é importante usar a plataforma que eu tenho para outras coisas além de cantar, usá-la para contar histórias que vão incentivar pessoas a procurar ajuda ou se conhecer melhor. Não importa o que seja, só quero que meus fãs saibam que eles não estão sozinhos porque estou aqui para ajudar”, contou ela ao Good Morning America. A iniciativa foi expandida em sua última turnê e ficou conhecida como “Cast On Tour”. O Cast é um centro de ajuda psicológica fundado por Mike Bayer, ex conselheiro de Lovato, que auxilia no tratamento de pessoas com problemas psicológicos como os de Demi, e do qual a cantora fazia parte até maio deste ano. A desvinculação de Demi do projeto, ao que parece, está ligada a desentendimentos pessoais dela com Bayer e a uma possível cláusula contratual relacionada a sua sobriedade.

Demi é o rosto da campanha que busca incentivar pessoas com problemas psicológico a compartilharem suas histórias. Fonte: BeVocalSpeakUp

 

Em 2017, a estrela foi nomeada embaixadora da saúde mental pela Global Citizen, uma organização que luta contra a pobreza e auxilia pessoas de regiões carentes em várias frentes, inclusive nas questões mentais. Lovato, junto com a ONG, é responsável pelo projeto “Cura e Educação através das Artes”, voltado à saúde mental de jovens iraquianos que vivem em áreas de violência extrema. “Acabar com o estigma em torno das condições de saúde mental e apoiar as crianças deslocadas para construir resiliência física e mental através da educação e do acesso à justiça não é uma escolha, precisa acontecer e precisa acontecer agora” declarou ela sobre a responsabilidade assumida.

Demi em evento da Global Citizen pela qual foi nomeada embaixadora da saúde mental. Fonte: Globalcitizen

O papel da música e suas histórias

Não é segredo que a música é a grande paixão de Demi Lovato. A estrela é também atriz e atualmente gerencia a sua própria gravadora, mas a carreira musical é o que faz seus olhos brilharem. A música esteve presente na vida de Demi desde pequena e a acompanhou durante todos os seus momentos sombrios, tendo papel fundamental na sua evolução pessoal. “Eu sei como a música pode te ajudar a superar. Eu sei o que ela pode fazer por alguém, eu mesma passei por isso e queria oferecer isso para outras pessoas.”

Ao longo de sua discografia, algumas canções ficaram marcadas por abordar os dilemas enfrentados por Demi, o que angariou uma legião de fãs que se identificaram com os desafios enfrentados pela cantora e tomaram sua letras sinceras e pessoais como hinos motivacionais. Em seu primeiro álbum de estúdio, Don’t Forget (2008), a música Believe In Me tem como tema as inseguras de Lovato. “Não quero ter medo, quero acordar me sentindo bonita hoje e saber que estou bem porque todos são perfeitos de formas diferentes. Você vê, eu só quero acreditar em mim” canta ela no refrão, expondo sua vontade de vencer os receios com a autoimagem. A canção ainda fala sobre as mentiras mostradas no espelho, fruto de distorções típicas de transtornos alimentares.

“Sem a música seria realmente muito difícil sobreviver e realmente muito difícil de me manter em recuperação.” Fonte: Stay Strong Reprodução

Em World Of Chance, presente no álbum Here We Go Again (2009), o pano de fundo é a relação com o pai. Demi narra em uma melodia triste todas as chances que deu a ele e as despedidas que teve que fazer. O mesmo tema aparece também em seus outros álbuns. Unbroken (2011), lançado após seu período na reabilitação, traz a dolorosa For The Love of A Daughter. “Quatro anos com as minhas costas na porta, tudo o que eu conseguia ouvir era a guerra familiar” inicia ela voltando aos dilemas da infância. A música segue com Lovato implorando ao pai para que abaixe a garrafa pelo amor de uma filha, referenciando seus problemas com o alcoolismo. Shouldn’t Come Back traz novamente a temática das despedidas. A música de seu quarto álbum, autointitulado, é uma confissão sobre as idas e vinda com o pai. Father veio após a morte de Patrick e é uma redenção. “Sempre te desejo o melhor, eu rezo pela sua paz, mesmo que você tenha iniciado toda essa guerra em mim” canta ela em um misto de perdão e reconhecimento.

Patrick Lovato e a filha tiveram uma relação conturbada retratada em diversas canções. Fonte: Demibrasil

Um dos seus maiores sucessos, Skyscraper é símbolo da luta de Lovato. A música veio após a reabilitação e é um hino de resistência. “Vá em frente e tente me derrubar, eu me levantarei do chão como um arranha céu”. A letra é entoada por fãs como símbolo de força e é constantemente apontada como inspiração. Outra presente no Unbroken e que cita os distúrbios de Demi é Fix a Heart. “Eu tentei aproximar os laços e acabei unindo feridas, é como se você jogasse sal nos meus cortes” diz ela citando os problemas com automutilação. My Love Is Like a Star estabelece uma relação de apoio mútuo entre a estrela e seus fãs. “Meu amor é como uma estrela, você nem sempre pode me ver mas saiba que estou sempre lá.” A cantora costumava dizer a seu público que apesar de não poder estar presente, sua música sempre estaria ali para eles nos momentos solitários. Warrior é outro marco de batalhas. A letra é tão significativa que virou tatuagem, “Now I’m a Warrior” (agora sou uma guerreira) marca as costas de Demi como uma lembrança eterna de que ela é capaz de superar diversos obstáculos. A letra também faz referência a um possível abuso sexual sofrido pela cantora ainda na infância “minha armadura é feita de aço, você não pode penetrá-la” e “tem uma parte de mim que eu não posso recuperar, uma garotinha cresceu rápido demais. Bastou uma vez e eu nunca mais fui a mesma” são trechos que endossam a teoria.

 

Tatuagem com um trecho da letra de Warrior nas costas da cantora. Fonte: Portal Lovato

Seus últimos álbuns, Confident e Tell Me You Love Me, trazem Demi no ápice de sua autoconfiança e sobriedade. Confident, a faixa título, é a exaltação da atitude e confiança em si mesma, afinal, o que há de errado em ser confiante? Em Old Ways a estrela narra os seus problemas passados sob a ótica de quem sabe que não pode se render. “Estou ouvindo todos dizerem que vou voltar para os meus velhos hábitos, eu digo ‘de jeito nenhum’” afirma ela enfaticamente. A letra mostra a determinação de Demi, que apesar de travar uma luta eterna contra demônios do passado, não pretende deixá-los rendê-la novamente. You Don’t Do It For Me Anymore traz uma metáfora interessante. “Eu vejo o futuro sem você, o que é que eu estava fazendo no passado? Agora que sei tudo sobre ti, um amor como o nosso não duraria” diz a letra que em um primeiro momento parece direcionada a algum ex namorado. Entretanto, com um pouco de interpretação, a música é como uma conversa entre a versão atual, limpa e sóbria, de Demi, com ela própria no passado, e a partir daí ganha um significado muito mais profundo e especial, mostrando que a cantora enfim tomou o controle sobre a própria vida.

 

O clipe de Confident mostra Demi em ação e mais confiante do que nunca. Fonte: Reprodução

Sober e a nova queda

No mês de Junho, Demi Lovato lançou uma música intitulada “Sober”. Segundo posts no Twitter, a partir dela os fãs saberiam a sua verdade. A canção foi lançada e causou comoção entre seus admiradores e qualquer um que tenha acompanhado sua jornada de lutas. Na letra, Demi diz não estar mais sóbria e pede desculpas à mãe por ter recaído, ao pai pelas bebidas no chão, aos fãs, e aos que nunca a abandonaram. É uma letra pesada, profunda e extremamente sincera que mostra o lado mais vulnerável de Lovato. “Me desculpe por estar aqui novamente, eu prometo que vou conseguir ajuda. Não foi minha intenção, eu sinto muito por mim mesma” canta ela arrependia

Nos últimos meses, Demi afastou-se de pessoas que sempre estiveram presentes em sua caminhada até a sobriedade. Phil, seu empresário, Mike, o conselheiro, e amigos próximos como Nick Jonas e Marissa Calahan são alguns dos nomes dos quais Demi distanciou-se. Após ser encontrada inconsciente vítima de uma overdose, fontes próximas à cantora afirmam que Lovato está disposta a buscar ajuda e retornar à reabilitação. Em uma de suas últimas interações no Twitter, Demi Lovato deixou para seus seguidores um misterioso “You make mistakes too” (vocês também cometem erros), que a julgar pelos últimos acontecimentos, faz referência às recaídas da estrela.

 

Capa da música mostra Demi vulnerável. Fonte: iTunes

Na letra da canção, a pressão para ser um exemplo aparece novamente. “Eu queria ser um modelo perfeito, mas sou apenas humana”. Demi já havia relatado a dificuldade de lidar com as cobranças e expectativas sobre ela anteriormente. A dependência química, assim como distúrbios alimentares e qualquer tipo de transtorno psicológico não possuem cura e Lovato sabe disso. “Eu sempre fui transparente sobre a minha jornada com o vício. O que eu aprendi é que esta doença não é algo que aparece ou desaparece com o tempo. É algo que eu devo continuar a superar e ainda não o fiz” declarou a cantora em seu Instagram alguns dias depois da nova recaída. Ao compartilhar sua história e dar voz para a causa das doenças mentais, Demi passou a ser tida como uma inspiração e modelo ideal de superação, entretanto, como qualquer vítima desses problemas, está sujeita a deslizes e recaídas, e a cobrança pela perfeição acaba tornando-se um facilitador de episódios como o acontecido nos últimos dias.

Fontes próximas à cantora declararam à ET que nos últimos meses a jovem estava tendo problemas com a autoimagem. O ganho de peso incomodou Lovato que passou a colocar uma pressão extra sobre si. “Demi é muito autoconsciente sobre seu peso e ela coloca pressão adicional em si mesma para parecer ótima, porque sente que é o que o público e seus fãs esperam”. As antigas inseguranças combinadas ao ritmo de festas e viagens com a turnê podem ter sido um gatilho para a recaída da estrela. “Ela não queria falar sobre o uso de drogas ou álcool, queria discutir sobre dieta. Demi começou a ganhar peso nos últimos meses e seus amigos sabiam que ela estava festejando demais e estava em um lugar terrível”, disse a fonte.

Demi Lovato visivelmente emocionada em primeira performance de Sober. Fonte: Reprodução

 

#HowDemiHasHelpedMe e a relação com os fãs

A overdose de Demi Lovato causou comoção entre os fãs que prontamente mobilizaram-se nas redes sociais para demonstrar apoio à cantora. Uma hashtag foi parar nos assuntos mais comentados do Twitter, onde os fãs expunham as formas com que ela ajudou-os ao longo da vida. “Durante 4 anos eu lutei contra um transtorno de ansiedade generalizada. Nos meus momentos mais sombrios eu passava lendo essas coisas que Demi dizia e escutava suas músicas, eram as únicas coisas que me faziam ter força para continuar o tratamento” relatou uma usuária do site. “Ela me trouxe paz e força na pior fase da minha vida, me trouxe felicidade apenas com esse sorriso e suas músicas, eu sou muito grata por essa mulher existir e por Deus ter lhe dado uma segunda chance” disse outro fã.

A relação de Lovato com os fãs é marcada principalmente pelo apoio e identificação que estes possuem com ela. As experiências em comum aproximam as vivências e geram uma compreensão bonita de se ver. Demi sempre buscou levar conforto para aqueles que viveram o mesmo que ela e essa identificação é própria de sua relação com os chamados lovatics “. Agora eu percebo que não importa onde eu esteja, há um grande propósito de usar a minha voz e inspirar as pessoas, de fazê-las passarem por seus dias e seus problemas e levantá-las quando estão para baixo” resumiu a estrela ao falar sobre a sua motivação na música.

Os relatos dos fãs não pararam por aí, revelando experiências bem pessoais que enfrentaram com a ajuda de Lovato. “Demi entrou na minha vida quando eu mais precisei através da música Warrior! Eu sofri abuso quando criança e essa música me ajudou a ter coragem para contar para os meus pais”, compartilhou um admirador inspirado pela letra da canção. “Você esteve comigo durante toda a minha dor, me ergueu do fundo do poço e me fez acreditar em mim mesmo… Eu estarei com você por toda vida e jamais te abandonarei por dificuldade alguma”, diz outro relato.

 

Dias após a overdose de Demi, fãs se reuniram no festival onde ela iria performar com cartazes e mensagens de apoio. Fonte: E News

Com base na mobilização das redes, Demi Lovato possui um exército de apoiadores que mais do que fãs, são companheiros de batalhas. Seus lovatics, como ela costuma chamá-los, demonstram compreensão pois estiveram em seu lugar em algum momento, e saíram dele por meio do apoio da cantora. Demi deu voz para muitos. Por meio de sua luta, a cantora ajudou jovens a lutarem contra a bulimia, a depressão, a automutilação. Suas canções guiaram uma legião por um caminho de resistência e os inspirou a buscar ajuda. A levantar-se do chão como um arranha céu. A acreditar em si mesmo apesar da imagem no espelho, do bullying sofrido, mesmo após recaídas, deslizes, e todas as dificuldades encontradas no caminho.

Em mais um momento sombrio de sua vida, seus fãs tentam retribuir como podem toda a inspiração e motivação que ela representa para cada um, e a cantora reconheceu o apoio na única declaração que fez após sua hospitalização. “Agora eu preciso de tempo para me curar e focar na minha sobriedade e no caminho para a recuperação. O amor que vocês me mostraram nunca será esquecido e estou ansiosa pelo dia em que posso dizer que saí do outro lado. Vou continuar lutando”. De uma coisa é fato, nada é fácil ou definitivo quando se trata de vícios, mas Demi tem o suporte de muitos e como a mesma já afirmou: uma recaída não apaga todo o progresso que você trilhou para chegar até aqui, e isso serve também para ela.

 

“Me mantendo forte por causa da Demi” diz um dos cartazes. Fonte: GMA

“As pessoas acham que você é como um carro em uma oficina. Você vai lá, eles te consertam, você sai e funciona como novo, mas não funciona assim, sabe? É um conserto constante”, afirmou em documentário. Ao que parece, Demi Lovato terá novamente um longo caminho pela frente, mais um capítulo dramático de uma narrativa repleta de altos e baixos, superações e recaídas. O final da história cabe à ela escrever, mas no que depender de seus fãs, Demi nunca estará sozinha, e a torcida é para que vença mais uma batalha da guerra que travará pelo resto de sua vida. E de batalhas Lovato entende bem, afinal, guerreiros nunca deixam de lutar. A tatuagem nas costas será sempre um lembrete de tudo o que ela já venceu e de toda a força que guarda dentro de si.

Stay Strong, Demi!

Por Amanda Capuano
amandacapuano@hotmail.com

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