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Studio Ghibli e a atemporalidade de suas animações

O estúdio japonês se destaca ao provar que animação não é só para crianças

CINÉFILOS
21 ago 2021 | Por Adrielly Kilryann (adriellykilryann@usp.br) e Ana Paula Medeiros (anapaulasmedeiros@usp.br)

As animações são frequentemente tidas como um gênero infantil por muitas pessoas, incluindo apreciadores do cinema. Esse estigma vem sendo revertido, já que muitas produções famosas, como os últimos longas da Pixar, têm alcançado um público adulto cada vez maior. O Studio Ghibli, no entanto, sempre partiu da premissa de que filmes animados não são necessariamente para crianças.

O Studio Ghibli é um estúdio de animação japonês, fundado em 1985 por Hayao Miyazaki, Isao Takahata, Toshio Suzuki e Yasuyoshi Tokuma. Ele conta com 23 longas-metragens até o momento e está produzindo o próximo.

Seus filmes tratam de diversos temas, desde aqueles que também são normalmente abordados em obras direcionadas a crianças, como amizade, amor e família. Até temáticas que não aparecem com frequência (ou, quando aparecem, com certa cautela), como guerras, mortes e outros conflitos complexos.

Isso ocorre porque, diferente do ocidente, o Japão reconhece a animação mais como uma técnica de storytelling do que como um gênero fílmico de fato. Nesse sentido, as animações podem possuir diferentes públicos-alvo, desde crianças pequenas até pessoas adultas.

Em entrevista ao Cinéfilos, Bruno Miliozi, estudante de Jornalismo pela ECA-USP e diretor de Audiovisual da Jornalismo Júnior, contou sua opinião sobre os paradigmas em torno das animações serem tidas como necessariamente infantis: “eu gosto muito de animação e eu sou totalmente contrário desse pensamento. Eu assisto todo esse tipo de coisas, animes, desenhos, isso tudo, e eu acho que [o paradigma] se formou muito porque as crianças gostam mais de animação e meio que ficou como um gênero renegado”.

Ele ainda complementa: “tem muitos filmes como os do Studio Ghibli que provam que não tem nada a ver, dá para ter profundidade, dá pra ter conteúdo, história. Eu acho que qualquer obra tem possibilidade de te tocar, tanto desenho quanto live-action, tudo isso tem potencial e tem que ser valorizado. A história é o que vale para mim, independente da forma.”

 

Logo do Studio Ghibli que utiliza Totoro, um de seus mais memoráveis personagens. [Imagem: Divulgação/Studio Ghibli]

Logo do Studio Ghibli que utiliza Totoro, um de seus mais memoráveis personagens. [Imagem: Divulgação/Studio Ghibli]

As críticas ao sistema capitalista

No que se refere a tópicos complexos, mais facilmente compreendidos a partir de uma visão adulta, o Studio Ghibli aposta em críticas ao capitalismo e ao consumismo da sociedade atual em filmes como A Viagem de Chihiro (Sen to Chihiro no Kamikakushi, 2001) e O Serviço de Entregas da Kiki (Majo no Takkyūbin, 1989), ambos dirigidos pelo Miyazaki.

Em A Viagem de Chihiro, Chihiro Fujisaki, uma garota de 10 anos, se muda de cidade com seus pais e, durante a viagem, eles se perdem no caminho e acabam chegando a uma cidade fantasma. Enquanto a menina explora o ambiente, seus pais param para se alimentar em um restaurante aparentemente sem dono. Ao ser avisada que corria perigo se não saísse da cidade antes do sol se por, Chihiro procura por seus pais, mas, de tanto comer, eles foram transformados em porcos. Anoitecendo, a garota, então, se vê presa em um mundo mágico, rodeado por espíritos e precisa aprender a se cuidar sozinha para trazer seus pais de volta à forma humana.

A cena da transformação dos pais da menina em porcos é por si só simbólica, já que, na cultura popular, os porcos são comumente associados ao capitalismo, como no livro A Revolução dos Bichos, de George Orwell. Tomados pelo extremo e desnecessário consumismo, os dois se transformam em animais incapazes de pensar criticamente, como marionetes do sistema. Ainda sobre esse ponto, Bruno acrescenta: “aquela cena dos pais virando porcos é muito representativa, como o capitalismo corrompe e toda aquela questão da ambição dentro da casa de banho. Isso uma criança não percebe nunca.”

O pai da Chihiro após virar um porco. [Imagem: Divulgação/Studio Ghibli]

O pai da Chihiro após virar um porco. [Imagem: Divulgação/Studio Ghibli]

No novo universo da Chihiro, a única maneira de sobreviver é arranjando um trabalho. Quando é contratada para trabalhar na casa de banhos da Yubaba, a garota tem o seu nome tomado pela bruxa e passa a ser dominada por ela, assim, ela perde sua identidade e esquece aos poucos o seu verdadeiro nome. No Kanji, Sen, o seu novo nome, significa 1000. Ou seja, o seu nome também perde o seu significado e se reduz a um simples número em meio a multidão de outros trabalhadores.

Os aposentos de Yubaba são, no primeiro momento, excêntricos e cheios de objetos de valor, os  quais se contrastam com as condições dos seus empregados, que dormem amontoados em um mesmo quarto pequeno, sem nenhuma outra distração. Quando a menina é apresentada ao Kamaji, ele se descreve como “o escravo das caldeiras que aquecem os banhos”. Não diferente do Kamaji, os empregados de Yubaba também podem ser considerados escravos do seu trabalho, sendo controlados pela bruxa que os força a produzir o máximo possível no menor tempo em troca de mínimas regalias.

Não é por menos que os personagens de A Viagem de Chihiro fiquem deslumbrados com a possibilidade de obter ouro do Sem Rosto. O espírito, ao mesmo tempo que oferece aos indivíduos a chance de mudar de vida, literalmente consome as suas almas nessa procura obsessiva pelo dinheiro.

Uma cena também significativa do filme é a do trem a caminho da casa de Zeniba. Nesse trem, Chihiro vê a silhueta de sombras humanas, mas não consegue ver as suas faces, nem escutar as sombras ou falar com elas. Esses personagens parecem viver no modo automático, apenas indo de casa para o trabalho e vice-versa, sem se questionarem o porquê disso e se estão vivendo a sua vida de forma autônoma.

Os empregados da casa de banho oferecem comida ao Sem Rosto em troca de ouro. [Imagem: Divulgação/Studio Ghibli]

Os empregados da casa de banho oferecem comida ao Sem Rosto em troca de ouro. Consumismo exacerbado e ganância em uma mesma cena. [Imagem: Divulgação/Studio Ghibli]

No tocante à Síndrome de Burnout, O Serviço de Entregas da Kiki narra a trajetória de uma bruxinha de 13 anos que, junto ao seu gato preto Jiji, sai de casa para iniciar o seu treinamento bruxo e passa a trabalhar com serviço de entregas para se sustentar.

Kiki começa a história confiante e cheia de energia, disposta a enfrentar os piores desafios para fazer bem as suas obrigações e não decepcionar as pessoas que confiam nela. Dessa maneira, ela perde momentos de lazer e até compromete o êxito em outros compromissos por sentir a necessidade de realizar as tarefas perfeitamente.

Os obstáculos vão se acentuando ao ponto da Kiki não se sentir mais disposta para levantar da cama e fazer o que ela gostava, como voar na vassoura, antes dela se tornar o seu objeto de trabalho. Em uma certa cena, ela ainda diz: “voar costumava ser divertido até eu começar a fazer isso para viver”.

A bruxinha, assim como as sombras do trem de A Viagem de Chihiro, aos poucos perde a consciência sobre a sua própria vida, passa a existir no automatismo e se desencontra com o que realmente importa para ela. O vício no trabalho teve inclusive um custo alto para Kiki, que ao chegar no estado de exaustão, perdeu o controle sobre os seus poderes.

 O ciclo da vida e o amadurecimento

Uma temática comum nos filmes do Studio Ghibli é a passagem do tempo e, com ela, o consequente amadurecimento pessoal. Os longas do estúdio refletem esse aspecto natural humano de modo tocante e garantem que os adultos possam se identificar e sentir afeto pela história.

 A Viagem de Chihiro e O Serviço de Entregas da Kiki são também obras sobre a transição da infância para a fase adulta. Um ponto interessante da jornada de Chihiro é a mudança de uma criança mimada, infantil e assustada para uma pessoa corajosa, independente e de forte personalidade. Em um universo totalmente diferente do seu, é necessário que a protagonista se adapte às regras para conseguir viver em sociedade. Nesse sentido, o crescimento dela é enorme, visto que aos poucos ela se desamarra dos seus medos para encarar as suas responsabilidades.

Chihiro chorando sozinha na floresta. [Imagem: Divulgação/Studio Ghibli]

Mesmo esperançosa quanto ao futuro, a nova vida de Chihiro é marcada por momentos de solidão, medo e saudade dos pais. [Imagem: Divulgação/Studio Ghibli]

Esse processo, no entanto, não foi fácil para a menina. Se forçar a ser independente, viver sem a presença dos pais e lidar com a falta deles, passar sozinha por situações de perigo e sem saber se os problemas se resolverão no final são alguns enfrentamentos de Chihiro durante a animação. Mas, mesmo em momentos difíceis em que ela pensa em desistir, a garota se mostra determinada a continuar. É reconfortante a cena em que ela tira um tempo para chorar e depois se levanta firme, o que mostra que até as pessoas mais fortes podem se sentir vulneráveis às vezes.

Outro aspecto significativo de A Viagem de Chihiro é a valorização das coisas mais importantes da vida. Uma atitude determinante para o êxito da protagonista acontece pelo foco no seu objetivo maior. Sob essa perspectiva, ela recusa presentes que não precisa, como ouro e objetos materiais que quase todos à sua volta fazem imensa questão pois o mais importante para ela no momento é conquistar a sua segurança e a da sua família. É a partir dessa escolha que Chihiro não se torna mais uma vítima tomada pela ambição como outros personagens.

A trajetória de Kiki é um pouco diferente. Ela se mostra forte e determinada no começo, mas, com o passar do tempo e com as dificuldades que aparecem, ela vai se fechando e deixando de acreditar em si mesma. O processo de entender os seus próprios limites é, muitas vezes, doloroso. A garota também estava se tornando independente, tinha responsabilidades como trabalhar, realizar as tarefas domésticas, cuidar do seu gato, e, por ser dona de uma forte personalidade, ela sentia que não podia decepcionar ninguém, se forçando a ter uma carga produtiva inviável. Esse é um aspecto habitual na vida adulta, e ao precisar repousar é que ela consegue compreender a importância de preservar a sua energia e de não ser tão dura consigo mesma, revelando um aspecto mais maduro da personagem.

E esse processo é doloroso assim como encontrar o seu verdadeiro eu. As pessoas a volta de Kiki tinham paixões, vocações inatas e ela ainda precisava se encontrar. Achar que está no caminho certo e de repente se deparar com dúvidas existenciais é algo comum não só durante as transições de fases, mas durante toda a vida. Nesse sentido, as pausas que a protagonista fez para refletir durante o filme foram extremamente necessárias para a sua jornada de autoconhecimento e o desenrolar dos acontecimentos posteriores.

Kiki e Jiji. [Imagem: Divulgação/Studio Ghibli]

Kiki e Jiji. [Imagem: Divulgação/Studio Ghibli] 

“Uma coisa que acontece muito nos filmes do Studio Ghibli é o momento que é uma pausa pra reflexão, e eu acho muito louco, porque você para pra refletir junto com o personagem”, opina Bruno. “Na Kiki, é quando ela tá lá no quarto dela e ela para e deita, ela não tá legal, ela olha pela janela, é uma cena que é longa e tem vários detalhes e você fica ali junto com ela”.

“Em A Viagem de Chihiro, é essa cena que ela para no trem, senta, e depois de tudo que aconteceu, ela tá assim sentadinha, calminha, e você fala ‘cara, o que vai acontecer agora?’. Eu acho uma das coisas mais diferentes do Studio Ghibli”, acrescenta.

A Viagem de Chihiro e O Serviço de Entregas da Kiki são lições sobre os enfrentamentos da vida adulta e as animações mostram como essa mudança de fase é dura, mas necessária e engrandecedora.

Bruno diz que O Serviço de Entregas da Kiki é o seu filme favorito e acha que ele está longe de ser um filme apenas para crianças. “Você fica muito triste assistindo. Eu acho linda a parte que ela vai para o meio do mato com a Úrsula e tem toda aquela coisa dela reencontrar o que ela gosta de fazer”, relata.

Memórias de Ontem (Omoide Poro Poro, 1991), dirigido por Isao Takahata, é mais um filme do Studio Ghibli que aborda o contraste de uma mente mais madura com o seu passado infantil. Taeko Okajima, ao sair da vida acelerada de Tóquio e viajar para a sua cidade natal no interior do Japão, retorna a sua infância por meio das suas memórias.

Contraposição da versão criança da Taeko com ela adulta. [Imagem: Divulgação/Studio Ghibli]

Contraposição da versão criança da Taeko com ela adulta. [Imagem: Divulgação/Studio Ghibli]

Mesmo com um enredo trivial, que foge das habituais fantasias do estúdio, Memórias de Ontem surpreende o espectador pela fácil identificação com as vivências da protagonista. O longa passeia por assuntos usuais da infância, como a pureza do primeiro interesse amoroso, os sonhos e os medos pessoais, as decepções com a escola, o ciúme entre irmãos, até a constante busca pela aprovação dos pais e as marcas que os desentendimentos com eles geram.

Nesse cenário, o filme mostra como as experiências, boas e ruins, marcam os indivíduos de modo que as recordações do passado continuam a rodear seus pensamentos e ainda explicam os comportamentos que possuem na maioridade. Em Memórias de Ontem, os flashbacks aparecem como cenários mais apagados e com pouca cor, contrastando com o presente vívido e realçando um passado melancólico, mas que se reflete nesse presente.

Mesmo que a animação foque, em grande parte, na vida de uma criança, os adultos conseguem se identificar não só pelos assuntos que são comuns a todos, mas também pela reflexão madura que a protagonista traz, agora com seus 27 anos. É a medida que se cresce que se entende os erros e os sentimentos do passado, e assim, pode-se progredir como pessoa.

Um filme do Studio Ghibli também dirigido por Isao Takahata e que aborda a ciclicidade da vida, ainda que ligeiramente, é O Conto da Princesa Kaguya (Kaguya-hime no Monogatari, 2013). Baseado na lenda do folclore japonês “O Conto do Cortador de Bambu”, o longa conta a história de uma menina que nasceu em um broto de bambu e é encontrada por um camponês que, junto a sua esposa, passa a cuidar dela como se fosse sua filha. Convencido de que é o destino dela se tornar uma nobre princesa, o homem se muda com a sua família para a capital, onde cria a Kaguya para se encaixar nas tradições aristocráticas do Japão da época.

Kaguya bebê e seus pais. [Imagem: Divulgação/Studio Ghibli]

Kaguya bebê e seus pais. [Imagem: Divulgação/Studio Ghibli]

Um elemento instigável de O Conto da Princesa Kaguya é o crescimento acelerado da menina que, em frações de momentos, se desenvolve mais rapidamente que as outras pessoas. Sob essa ótica, a infância e a adolescência que já são, nos moldes habituais, as fases mais curtas da vida humana, se esvaem ainda mais cedo, o que torna mais difícil, tanto para ela, quanto para as pessoas à sua volta, aproveitar bem cada uma de suas etapas.

Ao final de O Conto da Princesa Kaguya, quando a protagonista é levada de volta ao seu reino espiritual, seus pais ficam para trás e a olham indo embora de longe. Essa cena exprime a característica natural dos filhos de, depois de crescidos, saírem da casa dos pais para seguirem seus caminhos. Em vista disso, a animação tem o poder de envolver quem já têm filhos e entende os altos e baixos da criação de uma outra pessoa com individualidades e desejos próprios.

Para o Takahata, em entrevista ao site Wired, a vida na Terra é cíclica: tudo nasce, cresce, morre e renasce. Considerando esse princípio a base de tudo, seus filmes abordam-no continuamente.

As guerras

Outro tema recorrente nos filmes do estúdio são as guerras. Mais precisamente, a visão do Japão a partir dos acontecimentos históricos ao longo do século XX. Um dos maiores exemplos disso é O Túmulo dos Vagalumes (Hotaru no Haka, 1988), dirigido por Takahata, que narra a história de dois irmãos que fazem de tudo para sobreviver durante os bombardeios contra o país na Segunda Guerra Mundial.

Devido a convocação de seu pai pelo exército e o grave estado de saúde de sua mãe, Seita, um menino de 14 anos de idade, se vê como responsável pelos cuidados de sua pequena irmã Setsuko. A jornada dos irmãos se desdobra a partir das dificuldades que insistem em surgir a cada dia e que, apesar de serem devastadoras, demonstram o forte elo familiar que os protagonistas possuem entre si.

Setsuko e Seita brincado com os vagalumes na beira do rio. [Imagem: Divulgação/Studio Ghibli]

Mesmo com as dificuldades, Setsuko e Seita tentam viver sua infância com o mínimo de normalidade que conseguem. [Imagem: Divulgação/Studio Ghibli]

Além do conceito geral da guerra, questões como a fome, doenças, a morte e o luto também são retratadas com sensibilidade no longa. O que se torna ainda mais dramático ao ter como ponto de vista o cotidiano de duas crianças em meio a múltiplos eventos trágicos. O contraste entre a inocência dos protagonistas e o mundo caótico em que estão inseridos, que os força a amadurecer precocemente, comove o público independente de sua faixa etária.

Não só o amadurecimento é precoce, como também a morte. É aí que entra a analogia com os vagalumes, a partir de uma fala de Setsuko: “por que os vagalumes têm de morrer tão cedo?”. Nós, enquanto espectadores, nos perguntamos o mesmo sobre as inúmeras crianças, assim como Seita e Setsuko, que acabam falecendo em meio às guerras.

O filme pode até ser considerado pesado demais para um público infantil, não somente pelos temas sensíveis e profundos que expõe, mas também pela forma. Alguns elementos, como a violência e a aparência debilitada dos personagens em decorrência da guerra, podem ser tidos como inapropriados para crianças. No entanto, um fato curioso é que, na época de seu lançamento, O Túmulo dos Vagalumes estreou nos cinemas junto a Meu Amigo Totoro (Tonari no Totoro, 1988), que pelo contrário, é um dos filmes do estúdio que pode ser tido como infantil, devido à sua grande carga de elementos mágicos e fantasiosos. 

Seita em meio às vítimas dos ataques da guerra. [Imagem: Divulgação/Studio Ghibli]

Seita em meio às vítimas dos ataques da guerra. [Imagem: Divulgação/Studio Ghibli]

Outras obras do Studio Ghibli também mencionam as guerras, mas, por vezes, em um tom um pouco mais sutil e menos melancólico do que o observado em O Túmulo dos Vagalumes. Em Vidas ao Vento (Kaze Tachinu, 2013), obra de Hayao Miyazaki baseada no romance homônimo de Tatsuo Hori, é narrada a biografia do engenheiro aeronáutico Jiro Horikoshi, que foi responsável por desenvolver o avião de caça Mitsubishi A6M Zero, um dos mais mortíferos modelos usados na Segunda Guerra Mundial.

Vidas ao Vento deixa clara a paixão de Miyazaki pela aviação, que é referenciada também em outros filmes do estúdio, como Porco Rosso (Kurenai no Buta, 1992) e O Serviço de Entregas da Kiki. Nesse caso, no entanto, a fantasia presente em muitas das obras do Studio Ghibli é deixada de lado, com exceção de algumas cenas, como os sonhos de Jiro. O foco narrativo é no processo de produção dos aviões, a partir da carreira do protagonista, além de outros eventos pessoais de sua vida, como a ocorrência de um terremoto em Tóquio e o desenvolvimento de sua relação amorosa com Nahoko.

Apesar de Jiro ter contribuído para os ataques do Japão na Segunda Guerra a partir do desenvolvimento do Zero, essa questão muitas vezes é deixada como segundo plano no filme, que aborda mais a paixão pela aviação do protagonista em si do que o papel de destruição que as máquinas adquirem no contexto. Diferente de O Túmulo dos Vagalumes, em Vidas ao Vento, as consequências da guerra não são tão explícitas, surgindo geralmente como menções do conflito interno que o personagem adquire ao presenciar sua genialidade ser utilizada como uma arma.

Segundo Bruno, a humanização de Jiro através da animação é um ponto forte do filme: “se você for ver muito por fora, o cara contribuiu pra Segunda Guerra, o que é uma coisa horrível, muita gente morreu, mas ele tem um lado humano. Esse filme é muito louco e uma criança não ia entender muita coisa, não ia curtir”.

Jiro Horikoshi durante o processo de desenvolvimento do avião de caça Zero. [Imagem: Divulgação/Studio Ghibli]

Jiro Horikoshi durante o processo de desenvolvimento do avião de caça Zero. [Imagem: Divulgação/Studio Ghibli]

Os costumes culturais japoneses

Algumas obras do Studio Ghibli abordam a cultura japonesa como um assunto mais sério e sensível. Sob essa ótica, O Conto da Princesa Kaguya retrata a opressão feminina causada pelos antigos costumes japoneses e as consequências deles para as mulheres do período histórico em questão. Para se tornar uma princesa como o seu pai queria, Kaguya precisou se encaixar nos moldes aristocráticos e, nesse cenário, pouco a pouco ela foi se afastando da sua essência, o que marca o início de um estágio de melancolia da protagonista.

Junto de seus pais, Kaguya mudou de cidade repentinamente e sem se despedir dos seus amigos, deixando para trás as suas primeiras vivências e as suas memórias mais felizes e levando consigo o questionamento de “será que eu seria mais feliz aqui?”. A infelicidade da menina, então, se fortalece ao chegar no palácio, onde ela é obrigada a seguir os ensinamentos da corte e os comportamentos de uma dama. Tais comportamentos fazem com que ela se sinta presa, sem autonomia, sem liberdade e ainda submissa.

Kaguya não entendia o motivo de ter que sentir dor para a vaidade de tirar as sobrancelhas, ou de não poder suar para não estragar as camadas de maquiagem que precisava passar no seu rosto e nem de não poder sorrir por pintar os dentes de preto como as práticas tradicionais pediam. Além disso, era imposto a ela maneiras específicas para se sentar e levantar, o uso de vestes pesadas que a impediam de correr, como ela gostava de fazer, e um casamento sem a possibilidade de conhecer a fundo o seu pretendente.

Mesmo cercada de homens a bajulando, de membros da corte preparados para ajudá-la e de seus pais, a garota se sente sozinha e incompreendida, já que as pessoas que deveriam torcer pelo seu bem não o fazem, como o seu pai, cego pela ganância, e a sua mãe, que mesmo enxergando a sua insatisfação, permitia os acontecimentos que se seguiam sem contestar. Assim, apesar de ser uma figura feminina forte como as outras protagonistas dos filmes do Studio Ghibli, Kaguya vai cedendo às tradições e, em consequência, mergulha em grande angústia.

Pelos desejos da menina de fugir do palácio para se desprender do que a aprisiona e para voltar a sua antiga vida, O Conto da Princesa Kaguya, além de mostrar que fortuna e felicidade não estão necessariamente relacionados, reflete acerca das marcas da estrutura patriarcal sobre as mulheres.

Kaguya sendo vestida com as vestimentas de princesa. [Imagem: Divulgação/Studio Ghibli]

Em contraste às roupas leves que Kaguya usava antes de se tornar princesa, suas novas vestimentas eram pesadas e não ofereciam a liberdade que ela almejava. [Imagem: Divulgação/Studio Ghibli]

Além disso, em muitos filmes, há a presença de elementos tradicionais da cultura japonesa. Em A Viagem de Chihiro, por exemplo, é possível observar logo ao início do filme estátuas que remetem às crenças do xintoísmo, que é o principal conjunto de costumes tradicionais espirituais do país e que é referenciado ao longo de toda a animação.

Muitos dos seres que aparecem no mundo mágico da película foram inspirados pelos Kami, as divindades da natureza xintoístas, e pelos yōkai, seres que integram o folclore do país. Eles são vistos sobretudo ao chegar à cidade para serem hospedados na casa de banho de Yubaba. Aliás, a própria casa de banho é uma referência às tradições do Japão. Os sentos, como são chamados, são locais públicos em que os japoneses tomam banho e que surgiram no período Heian, séculos atrás.

Miyazaki contou, no livro ilustrado de A Viagem de Chihiro,  que uma de suas inspirações para a criação do filme foi o festival Shimotsuki Matsuri, que ocorre na província de Nagano, no Japão. O evento consiste na dança de aldeões em torno de caldeirões de água fervente, enquanto recitam os nomes de deuses convidando-os a se banharem.

A preservação e a adoração do meio ambiente é algo importante para os japoneses, e Miyazaki representa isso ao longo da obra. Em uma cena em específico, quando um “deus fedido” chega à casa de banho, Chihiro fica encarregada de seus cuidados. Posteriormente, descobre-se que por baixo de toda a sujeira, que se tratava de uma grande quantidade de objetos imundos, estava um “espírito do rio”. Nesse caso, pode-se estabelecer uma possível analogia à poluição da natureza que os humanos cometem.

Essa analogia fica ainda mais clara quando é revelado que Haku, amigo de Chihiro, é também um espírito do rio. O rio Kohaku, em que habitava, foi destruído e, posteriormente, utilizado para uma alocação de apartamentos, o que fez com que Haku ficasse desabrigado e fosse forçado a se transportar para o mundo espiritual, onde encontrou a casa de banho de Yubaba.

A menção a essas tradições culturais japonesas pode ser vista como uma forma dos mais velhos se reconectarem e não se esquecerem de suas origens, bem como apresentá-las às novas gerações.

Os espíritos, retratando símbolos xintoístas, desembarcam no mundo espiritual. [Imagem: Divulgação/Studio Ghibli]

Os espíritos, retratando símbolos xintoístas, desembarcam no mundo espiritual. [Imagem: Divulgação/Studio Ghibli]

A questão Homem X Natureza

Grande parte das obras do Studio Ghibli aborda o conflito entre o homem e a natureza, o que mostra um lado preocupado dos diretores com a questão ambiental. Longas como O Castelo Animado (Howl no Ugoku Shiro, 2004), Memórias de Ontem, A Viagem de Chihiro e Ponyo – Uma Amizade que Veio do Mar (Gake no ue no Ponyo, 2008) tratam dessa temática de forma secundária. Outros como Nausicaã do Vale do Vento (Kaze no Tani no Naushika, 1984) e Princesa Mononoke (Mononoke Hime, 1997) dão destaque ao tema e o retratam por meio de uma guerra física entre os personagens.

Em um futuro distópico de Nausicaã do Vale do Vento, após a destruição da civilização industrial, a sobrevivência humana é ameaçada por uma floresta que libera substâncias tóxicas no ar, capazes de matar um ser humano rapidamente. Em contraste aos enormes desertos que se formaram na Terra, a floresta, chamada de Mar Podre, é protegida por insetos gigantes e pela princesa Nausicaã que tentam impedir que os humanos a destruam por completo.

Nausicaã entende a importância do Mar Podre para a humanidade quando descobre que a floresta na verdade tinha o objetivo inicial de limpar o ar poluído da atmosfera, absorvendo-o para si. Assim, intermediando os dois lados do conflito, a garota coloca a sua vida em risco para restaurar tanto a vida da civilização quanto a natureza, já que essa acabou se tornando prejudicial à medida em que foi agredida pelas ações humanas.

É importante perceber como o filme configura as práticas antrópicas como causadoras do fim da própria humanidade. Em Nausicaã do Vale do Vento, a natureza deixa de ser uma figura benevolente e se torna vingativa, característica que serve de reflexão para a realidade além das telas, também ameaçada por catástrofes de raízes nas atividades humanas.

Menina utiliza máscara e recolhe substância de plantas.  [Imagem: Divulgação/Studio Ghibli]

No mundo pós-apocalíptico de Nausicaã, os seres humanos precisam usar máscaras para não morrerem intoxicados pelo ar. [Imagem: Divulgação/Studio Ghibli]

A Princesa Mononoke se passa no início da destruição do meio ambiente. Ao ser ferido por um monstro que atacou a sua vila, Ashitaka vai à Floresta Sagrada à procura de uma cura para a sua maldição. Tal floresta é ameaçada pela Lady Eboshi, que quer explorá-la para avançar com a sua mineradora. Ashitaka, então, conhece também a San, uma garota que cresceu com os lobos e luta contra Lady Eboshi para proteger a floresta.

O longa mostra batalhas violentas travadas entre os dois lados da trama e novamente há a presença de um mediador do conflito que questiona: “não pode haver paz entre a floresta e os seres humanos?”. Ashitaka tenta compreender a visão de Eboshi sobre os avanços tecnológicos resultarem em lucro para os habitantes da vila e a de San, que percebe as consequências ruins que eles apresentam aos seres da floresta.

No intermédio dos dois pensamentos, Ashitaka entende que os seres humanos, enquanto estão devastando o meio em que estão inseridos, arriscam não apenas a vida selvagem da floresta, mas também a sobrevivência da sua própria espécie. Dessa forma, ele se torna a chave para romper com a visão limitada de apenas uma das faces da moeda, estabelecendo um vínculo entre as partes que torna possível instituir a paz.

Os dois filmes interpretam a figura mediadora como heróica, não buscando vencer ou perder para a natureza, mas conviver em harmonia com ela. As histórias tem aplicabilidades reais e do mesmo modo que os personagens das animações precisavam de salvadores preocupados com a paz e dispostos a lutar por ela, fora da ficção a população precisa encontrar líderes que também se importem com essas causas para evitar um futuro extermínio da vida ou garantir a sua renovação.

Quando questionado se é possível que as crianças não entendam o significado mais complexo das animações do Studio Ghibli, Bruno respondeu que alguns detalhes que os diretores tentam passar podem não ser percebidos, mas que a criança ainda vai refletir sobre o longa: “o filme pode ser avaliado por milhares de camadas né, e a criança não vai ter acesso a todas elas. A Princesa Mononoke é um conflito entre homem e natureza, basicamente. E a gente [adultos] consegue ver isso, já tem muita pesquisa sobre isso”.

“Uma criança não, mas ela vai aprender que os dois podem ser ruins, ela vai ter uma percepção que vai ajudar ela a se desenvolver e acho que todo tipo de questionamento é válido”, conclui.

San, a Princesa Mononoke, e o lobo Moro-no-kimi. [Imagem: Divulgação/Studio Ghibli]

San, a Princesa Mononoke, e o lobo Moro-no-kimi. [Imagem: Divulgação/Studio Ghibli]

Afinal, para quem são os filmes do Studio Ghibli?

Embora os filmes tratem dessas temáticas consideradas por muitos “mais adultas” e até por vezes incompreensíveis pelo público infantil, fica claro que as produções do Studio Ghibli são capazes de cativar todas as faixas-etárias. A capacidade das crianças não é subestimada pelo estúdio e isso, inclusive, se nota diretamente através de seus personagens fictícios: Chihiro, Kiki, Setsuko, Seita, Kaguya, dentre muitos outros, são protagonistas fortes e com grandes transformações em suas respectivas histórias, mesmo sendo muito jovens.

Na verdade, as crianças dos filmes do estúdio são vistas como “a luz no fim do túnel”, a expectativa de um futuro. Chihiro não se corrompe pelo materialismo porque possui a pureza da infância, a generosidade sem pedir nada em troca e a sensibilidade em relação ao mundo que os adultos já não possuem mais. As duas irmãs de Meu Amigo Totoro, que conseguem ver e interagir com os espíritos da floresta ao contrário do pai, que com o tempo perdeu a crença no espiritual, mostram um lado místico e único das crianças.

Miyazaki já disse que é o destino da vida perdermos essa sensibilidade em relação ao universo e que “nos corações e almas das crianças, quando elas nascem, a natureza já existe profundamente. Por isso, o que desejo fazer em meu trabalho é encontrar um caminho para suas almas”. É certo que as animações do Studio Ghibli têm o poder de tocar tanto a juventude quanto os adultos que ainda carregam a sua criança interior.

As irmãs Mei e Satsuki de Meu Amigo Totoro. [Imagem: Divulgação/Studio Ghibli]

As irmãs Mei e Satsuki de Meu Amigo Totoro. [Imagem: Divulgação/Studio Ghibli]

Ainda que as obras incluam observações e críticas profundas e complexas por parte dos produtores, elas conseguem transparecer sua mensagem com êxito, seja através da passagem de um estado de ingenuidade para o amadurecimento dos personagens ou do sentimento nostálgico de suas respectivas infâncias. Da mesma forma, o público é capaz de se espelhar naquilo que assiste. Enquanto espectador, é possível se reconhecer nas situações retratadas e exprimir diversas conclusões em diferentes etapas da vida, e talvez por isso os filmes tenham a capacidade de conquistar até mesmo os adultos mais resistentes.

Quando questionado sobre o porquê de gostar tanto dos filmes, Bruno disse: “tem essa parte da identificação e a parte de imergir num mundo muito louco. Você fica muito imerso e tudo dentro do mundo do Studio Ghibli faz parecer com que ele é real. E estar imerso nesse mundo nem que seja por duas horas durante um dia é muito valioso”.

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O Cinéfilos é o núcleo da Jornalismo Júnior voltado à sétima arte. Desde 2008, produzimos críticas, coberturas e reportagens que vão do cinema mainstream ao circuito alternativo.
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COMENTÁRIOS
Izidória Santos Sousa
A Ana Paula é uma excelente escritora; fico fascinada pelo o modo como ela me faz ficar emocionada com essas histórias 👏👏👏👏💓💓💓
23 ago 2021
 
Zaira Marks
Já vi muitas pessoas falando sobre o Studio Ghibli e nunca me interessei muito. Mas agora depois de ler aqui vou com certeza assistir os filmes!! O que mais me chamou atenção foi O Conto da Princesa Kaguya :) Muito bom, parabéns!!!
22 ago 2021
 
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