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Turma da Mônica para jovens e adultos
Na Estante
01 jul 2019 | Por Bianca Muniz (biancamuniz@usp.br)

Mônica, Magali, Cascão e Cebolinha: esses são alguns dos personagens criados por Mauricio de Sousa e que marcaram a infância de milhões de brasileiros através dos gibis da Turma da Mônica. Como a leitora Camila Yano, 23, que é fã da turma do bairro do Limoeiro desde criança: “não sei exatamente como eu conheci a Turma da Mônica, talvez tenha sido na escola ou então meus pais apresentaram pra mim. Eu tinha uma coleção bem grande de quadrinhos da Turma”. Essas histórias, antes destinadas ao público infantil, vêm se destacando nos últimos anos entre leitores mais velhos, a partir de reinvenções dos personagens criados por Mauricio pelas mãos de outros artistas, em formato de graphic novels do selo Graphic MSP.

O termo graphic novel (em português, “romance gráfico”) não é muito bem definido, mas suas obras vêm ganhando espaço nas prateleiras brasileiras. Geralmente é utilizado para nomear HQs que apresentam um tratamento especial, narrativas mais longas (algumas vezes, aproximando-se da prosa) e temas densos, tendo como seu principal público jovens e adultos. 

A primeira graphic novel do selo Graphic MSP foi lançada em 2012, mas a idealização do projeto começou anos antes, com o lançamento da publicação “MSP 50” (2009). O projeto surgiu para comemorar o aniversário de 50 anos de carreira de Mauricio de Sousa e contou com a participação de nomes do quadrinho brasileiro recriando histórias da Turma da Mônica. 

O sucesso do trabalho foi tanto que gerou duas continuações: o “MSP mais 50” (2010) e “MSP novos 50” (2011). Sidney Gusman, editor da Mauricio de Sousa Produções, enxergou nessa recepção uma oportunidade: “Quando eu estava no ‘MSP mais 50’, falei para o Mauricio ‘aqui nós temos um caminho muito legal pra produzir graphic novels, porque o público e a crítica estão adorando’”. Ele diz ainda que o criador da Turma da Mônica se preocupou com os caminhos que seus personagens poderiam seguir, receoso com a ideia de que a essência de suas criações não fosse preservada: “Mauricio me perguntou ‘você vai cuidar bem dos meus filhos?’ e eu falei ‘vou cuidar como se fossem meus, vou editar esse material, não vou deixar ninguém matar personagem, ninguém fazer a Mônica ser algo que ela não é’”.

Vitrine para o quadrinho nacional

Sidney é o responsável por decidir os artistas e os personagens que eles irão trabalhar. Para ele, a escolha é baseada no portfólio dos quadrinistas brasileiros e na afinidade que eles apresentam com o projeto. “A seleção é muito importante, porque desde o momento que eu faço o convite pra pessoa é muito legal de ver a emoção do autor em trabalhar com os personagens do Mauricio”. O editor conta que esses autores são conhecidos no meio dos quadrinhos, mas através da “vitrine Mauricio de Sousa” eles conseguem atingir o grande público.

Estande da Panini na Bienal do Livro de São Paulo, com destaque para algumas edições do selo Graphic MSP. Imagem: Bianca Muniz.

Foi o que aconteceu com o quadrinista Vitor Cafaggi. Vitor já tinha seu trabalho conhecido pela Mauricio de Sousa Produções por ter participado do “MSP 50” com uma história do Chico Bento. Na Graphic MSP, ele é responsável pela trilogia da Turma da Mônica (“Laços”, “Lições” e “Lembranças”), junto com sua irmã, Lu Cafaggi. Ele conta que teve liberdade para criar a história desses personagens, com poucas exigências do editor. “A única coisa que o Sidney nos pediu foi que a história tivesse alguma cena mostrando os personagens ainda mais novinhos. Essa cena seria desenhada pela Lu, porque ela tem um traço ainda mais fofo do que o meu”.  

Os trabalhos de Vitor passaram a ganhar mais leitores após a publicação de ‘Turma da Mônica – Laços’. Camila é uma dessas pessoas que, ao conhecer as Graphic MSP, buscou mais produções dos artistas envolvidos: “depois de ter lido as graphics da Turma da Mônica fui atrás de mais trabalhos dos irmãos Cafaggi. Comecei a ler ‘Valente’ do Vitor Cafaggi, também li um pouco de “Bear” da Bianca Pinheiro, que desenhou a graphic ‘Mônica – Força’”.

Personagens desconhecidos, temas notáveis

As HQs do selo Graphic MSP se distanciam da temática fofa e infantil dos quadrinhos clássicos, e se aproximam algumas vezes de personagens com menor destaque e temas mais profundos. É o caso da publicação que começou o selo em 2012, “Astronauta – Magnetar”. “Todo mundo pergunta ‘por que você não estreou com a Turma da Mônica?’ Porque eu precisava mostrar para o público geral que era graphic novel, que a história é voltada para o público jovem e adulto. Assim, tinha que começar com uma mais hard, então saí com ‘Astronauta’, uma ficção pesada em que o protagonista quase morre e fica preso no espaço”, conta Sidney. 

Apesar desse direcionamento de público, o editor argumenta que isso não significa que os quadrinhos não são para as crianças: algumas referências são voltadas aos leitores mais velhos, mas a história continua perceptível para o público infantil. Esses diferentes níveis de entendimento, segundo Sidney, é fruto de “sacadas espetaculares” dos artistas responsáveis pelas HQs, pelo estilo próprio deles e pela temática diversificada.

Cena da graphic novel “Astronauta – Magnetar”. Fonte: Reprodução.

É o caso de um dos últimos lançamentos do projeto, “Jeremias – Pele” (2018), de Rafael Calça e Jefferson Costa, que receberam o convite de Sidney com a proposta de fazer uma HQ contendo a temática do racismo. Ao ser questionado sobre como foi trabalhar com esse tema em uma Graphic MSP, Rafael relata a importância que tem para a representatividade de grande parte da população brasileira, resgatar o personagem Jeremias de sua posição de figurante tornando-o protagonista. “A força do carinho que os personagens do Maurício de Sousa possuem é gigantesca, por isso ‘Jeremias – Pele’ atingiu tantas pessoas. Por conta dessa responsabilidade Jefferson e eu fomos o mais honestos possíveis”. O roteirista diz que trabalhar com o tema foi natural, já que ele e Jefferson foram meninos negros cresceram em meio ao racismo, como o personagem Jeremias.

Imagem da graphic novel “Jeremias – Pele”. Fonte: Reprodução.

Até mesmo os personagens principais Mônica, Cascão, Magali e Cebolinha, receberam uma história com perspectiva mais densa nas mãos de Vitor Caffaggi. “Foi um privilégio muito grande, poder mostrar numa história minha o que eu via nesses personagens. Mostrar características que eu sempre vi neles, que fossem além das mais conhecidas, poder mostrar as relações entre eles e como elas surgiram”, comenta o quadrinista.

Uma das preocupações que surge quando se recria uma produção de sucesso é que a nova roupagem “estrague” a reputação já estabelecida. Não foi isso o que ocorreu na Graphic MSP: segundo Vitor, as histórias do selo abordam uma visão diferente, mas não inferior sobre os personagens do bairro do Limoeiro. Ele diz também que, a primeira vista, esse trabalho pode causar estranhamento naqueles que só leram Turma da Mônica e não estão habituados a ler HQs, mas que o projeto foi bem aceito pelo público. 

Rafael declara que frequentemente recebe depoimentos a respeito de “Jeremias – Pele” sobre a abordagem de um tema tão delicado em uma franquia conhecida por ser leve: “Há uma grande surpresa, sempre positiva. Muita gente sente falta de que se toque nesses assuntos, ao mesmo tempo que quer se distrair, não pensar neles. Unir os dois certamente agradou o fãs”. 

Ao lançar o projeto das graphics, o Sidney percebeu que aquelas pessoas que interromperam a leitura de quadrinhos após a infância se surpreendem ao descobrir que há quadrinhos para elas, já adultas. “O que eu e o Mauricio mais ouvimos é ‘você me fez voltar a ler quadrinhos depois de 20, 30 anos’, e não ‘você me fez voltar a ler Turma da Mônica’”. O editor se diz orgulhoso por esse fato, pois contribui para a popularização e para o mercado do quadrinho nacional: “Essas pessoas estão voltando a ler HQs e indo atrás de outros quadrinistas. Isso pra mim é uma recompensa incrível”.

Diante de tanto sucesso, são esperados novos ares para o projeto com a transposição das graphic novels da MSP para outras mídias, como o cinema e TV (com o “Turma da Mônica – Laços, o filme” e com a animação do “Astronauta” para fora do país). Está na hora de vermos a Turma da Mônica sair do bairro do Limoeiro e ganhar as telonas e páginas do mundo.

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