Home Descobrir Cinema Um texto que você não pode recusar – Parte I
Um texto que você não pode recusar – Parte I
CINÉFILOS
03 mar 2013 | Por Jornalismo Júnior

Segundo os leitores do Cinéfilos, o maior clássico do cinema é a trilogia “O Poderoso Chefão”, dirigida por Francis Ford Coppola. Saiba mais sobre esses filmes que marcaram a história da sétima arte.

O Poderoso Chefão (The Godfather, 1972) é um dos maiores clássicos do cinema. A primeira parte da trilogia, dirigida por Francis Ford Coppola e produzida por Albert S. Ruddy na Paramount Pictures, completou 40 anos em 2012. Em 1974 foi lançado O Poderoso Chefão parte II (The Godfather: part II) e em 1990 foi a vez de O Poderoso Chefão parte III (The Godfather: part III).

O primeiro filme e partes do segundo são baseados no romance homônimo de Mario Puzo (1969). O produtor executivo da Paramount, Peter Bart, comprou os direitos do romance antes mesmo de sua conclusão, quando havia apenas 20 páginas escritas. O filme, por ser muito fiel ao livro, foi chamado de Mario Puzo’s The Godfather (O Poderoso Chefão de Mario Puzo). A ideia original do estúdio era fazer um filme de gângsters que se passasse na atualidade (anos 1970), de baixo orçamento e que revertesse grandes lucros. Baseado nessa ideia, o primeiro roteiro feito por Puzo foi rejeitado por Coppola, mas concessões foram feitas até que todos concordassem.

De acordo com Coppola, a expressão “Don Corleone” é usada incorretamente. Em italiano, “Don” seria uma palavra semelhante a “tio”, sendo adequado o uso do primeiro nome, como Don Vito, mas como Puzo não falava italiano, ele supôs que o uso seria mais adequado com o sobrenome e assim ficou registrado na cultura popular.

O livro e o filme baseiam diversos de seus personagens em pessoas que Puzo e Coppola conheciam. Um exemplo é Vito Corleone: ele teve como modelo de vida Joe Profaci e Vito Genovese, chefes da máfia americana, e sua personalidade reproduz a mãe de Puzo. Kay Adams é inspirada por Eleanor Coppola, esposa de Francis Ford.

Apesar de possuir quase 10 anos de experiência no cinema e vencedor do Oscar de 1971 na categoria de Melhor Roteiro Adaptado por Patton (1970), o diretor Francis Ford Coppola nunca foi a primeira opção da Paramount. Os primeiros nomes foram Sergio Leone (Era uma vez na América, 1984), Peter Bogdanovih (A última sessão de cinema, 1971) e Costa-Gavraz (Z, 1969). Coppola foi escolhido por Robert Evans, o produtor chefe da Paramount na época, devido a sua ascendência Siciliana. Ele relutou em aceitar a direção do filme, com receio de que o filme glorificasse a máfia. Ele apenas resolveu aceitar quando chegou a conclusão que o filme poderia ser uma crítica ao sistema capitalista americano e foi lembrado por George Lucas de que estava em dívida com o estúdio Warner Bros. Até mesmo depois de contratá-lo, a Paramount cogitou substituir Coppola por Elia Kazan (O último Magnata, 1976), na esperança que ele soubesse lidar melhor com o difícil Marlon Brando. Ao saber da possibilidade, Brando ameaçou pedir demissão caso Coppola fosse retirado da direção.

Marlon Brando também causou dúvidas e grandes impasses na produção. Ele foi escalado para interpretar Vito Corleone na primeira parte da série, contudo também não era a primeira opção do estúdio. A Paramount cogitou a contratação dos atores Ernest Borgnine, Edward G. Robinson, Orson Welles, Danny Thomas, Richard Conte, Anthony Quinn, George C. Scott e até mesmo  Frank Sinatra queria ter assumido o papel de Vito Corleone, apesar de se opor ao filme. Brando não era opção devido a sua personalidade difícil e o medo de que ele fosse responsável por algum tipo de atraso nas filmagens. Enquanto o estúdio não queria Brando, Coppola só tinha dois nomes em mente, o de Brando e de Laurence Olivier. Olivier recusou o papel, alegando estar muito doente, à beira da morte (Olivier morreu em 1989, 17 anos depois das filmagens de O Poderoso Chefão). Coppola brigou até conseguir a contratação de Brando.

O papel de Michael Corleone também foi bem disputado. Inicialmente foi oferecido a Warren Beatty, Jack Nicholson e Dustin Hoffman, mas todos o recusaram. O papel foi dado a James Caan, porém Coppola queria Al Pacino. Devido à insistência de Robert Evans, Caan foi escalado como o irmão de Michael, Sonny Corleone. Robert De Niro fez teste para Michael e Sonny, mas acabou sendo escalado para o papel de Paulie Gatto. De Niro recusou interpretar Paulie na última hora  para assumir o papel que pertencia a Al Pacino em outro filme: Quase, Quase uma Máfia (The Gang That Couldn’t Shoot Straight, 1971)

A escalação de diretor e atores não foi o único problema que ameaçou a produção. A comunidade italo-americana tentou impedir a gravação do filme. Robert Evans recebeu ligações com ameaças de Joe Colombo, um dos maiores chefes da máfia americana. Durante a pré-produção, a Paramount recebeu diversas cartas de italo-americanos influentes dizendo que o filme era “Anti-Italiano”. Para garantir a segurança e a continuidade das gravações, o produtor Albert S. Ruddy reuniu-se com Colombo que pôde ler o roteiro e dar opiniões. Colombo exigiu que as palavras “máfia” e “cosa nostra” não aparecessem no filme porque eram ofensivas, então foram substituídas pela palavra “família”. Colombo também exigiu que alguns integrantes da máfia fossem contratados para estrelar no filme. O dono da Paramount, Charlie Bluhdorn, repudiou o acordo, mas as filmagens continuaram.

Para um filme que tinha tudo para ficar apenas no papel, O Poderoso Chefão venceu as dificuldades e tornou-se um grande clássico. Segundo o Instituto Americano de Cinema (AFI), a frase “I’m gonna make him a offer he can’t refuse” (Farei uma oferta que ele não pode recusar) é a segunda quote mais memorável do cinema, perdendo apenas pra “Frankly, my dear, I don’t give a damn” (Sinceramente, meu querido, eu não ligo) do clássico “…E o vento levou” (Gone with the wind, 1939). A AFI também elegeu O Poderoso Chefão como o segundo melhor filme norteamericano, perdendo apenas para Cidadão Kane (Citizen Kane, 1941).

Parte 1

A trilogia começa de um maneira tipicamente italiana: uma grande festa reunindo toda a família e seus agregados, para comemorar o casamento da única menina e caçula dos Corleone, Connie. É claro que para os afilhados de Don Vito Corleone, a festa é mais uma oportunidade para ir até o padrinho pedir favores, acertos de contas e justiça, além de mostrar lealdade à família.

Já nessa primeira sequência, um fato sobre o elenco chama a atenção. Talia Shire, nome da atriz que interpreta Constanzia “Connie” Corleone, é o codinome artístico de Talia Rose Coppola, irmã mais nova de Francis Ford Coppola. Mas o diretor não queria que a irmã interpretasse a personagem. para ele, ela era bonita demais para interpretar uma personagem descrita como rústica. Mas ela foi muito bem no teste, e Coppola, não querendo negar à irmã o que ele sabia ser a oportunidade de uma vida inteira, acabou consentindo.

Outros membros da família do diretor também apareceram no filme, mas como pontas: sua mãe, Italia, esteve na cena em que Michael (Al Pacino) se encontra com Solozzo (Al Lettieri) e Captain McCluskey (Sterling Hayden); seu pai, Carmine, é o pianista que aparece na sequência onde manchetes de jornais informam sobre a morte dos Dons das cinco famílias nova yorkinas. Seus filhos, Gian-Carlo e Roman, podem ser vistos na cena em que Sonny (James Caan) dá uma surra em Carlo (Gianni Russo) no meio da rua quando descobre que ele havia agredido sua irmã, Connie (Talia Shire). Sofia, a mais famosa entre os filhos de Francis Ford Coppola, também marcou presença no clássico: ela, com apenas três semanas de idade, “interpretou” o bebê Michael Rizzi, filho de Connie e Carlo, na cena em que ele foi batizado pelo tio Michael Corleone.

Embora a fidelidade do roteiro do filme ao livro em que foi baseado seja aclamada, a personagem de Johnny Fontane (Al Martino), um cantor “afilhado” de Don Corleone, teve o seu papel no filme bem reduzido. Tudo porque, embora Mario Puzo jurasse que não, havia grandes suspeitas de que Fontane teria sido inspirado na estrela Frank Sinatra. O cantor, que não era conhecido por seu gênio pacífico, ficou furioso, e, ao encontrar Puzo em um restaurante, ofendeu-o e ameaçou-o. Tudo em alto e bom tom. Além de, é claro, se opor obstinadamente ao filme.

O filme, que contou com um orçamento de apenas 6 milhões de dólares, teve um lucro de 230 milhões de dólares no mercado internacional, ultrapassando a marca do filme …E o Vento Levou. E, além do dinheiro, o filme também rendeu 6 indicações ao Oscar. Para melhor ator coadjuvante, três dos filhos de Vito Corleone foram indicados: Al Pacino (Michael Corleone), Robert Duvall (Tom Hagen) e James Caan (Sonny Corleone). Mas o intérprete do garoto mais novo de Vito não ficou exatamente feliz com a indicação: Al Pacino recusou-se a comparecer ao Oscar, por ter sido indicado a melhor ator coadjuvante, sendo que ele ficou mais tempo em cena do que Marlon Brando, que foi indicado a melhor ator.

E Vito Corleone, além de alavancar a carreira de Marlon Brando depois de todos os contratempos com o estúdio rendeu-lhe o segundo Oscar da sua carreira. Um Oscar que o ator se recusou a receber. No seu lugar, uma moça com trajes indígenas (mais tarde ficou esclarecido que ela era uma atriz contratada por Brando) subiu ao palco no dia da premiação e disse: “Meu nome é Shasheen Littlefeather, eu sou uma índia apache e estou aqui representando Marlon Brando que mandou dizer que não aceita o prêmio em sinal de protesto pela imagem falsa que o cinema e a televisão projetaram do índio norte-americano”.

Outro nome famoso esteve envolvido diretamente na franquia: George Lucas, além de influenciar Coppola para que o amigo aceitasse a direção do filme, foi o responsável pela sequência de fotos e manchetes que informa sobre a guerra das cinco famílias de Nova York. Entretanto, o responsável pela franquia Star Wars pediu para não ser creditado pelo trabalho.

Confira a continuação do texto com a análise de O Poderoso Chefão parte II e III aqui.

Por Odhara Rodrigues
rodrigues.odhara@gmail.com

Por Rúvila Magalhães
ruvila.m@gmail.com

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Cinéfilos
O Cinéfilos é o núcleo da Jornalismo Júnior voltado à sétima arte. Desde 2008, produzimos críticas, coberturas e reportagens que vão do cinema mainstream ao circuito alternativo.
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