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Vivian Maier no MIS: selfies nos anos 50
Eu Fui
11 jun 2015 | Por Jornalismo Júnior

Realizando pelo quarto ano consecutivo o Maio Fotografia, o MIS dedica todo o seu espaço a seminários, exposições e oficinas relacionadas à fotografia. Nesta edição, que teve início em 21 de abril e se estenderá até 14 de junho, o evento se divide em quatro principais exposições, duas mostras e uma instalação interativa.

Uma das exposições é “O Mundo Revelado de Vivian Maier”, com 101 fotografias (cuja maior parte nunca foi mostrada em exposição) e nove filmes no formato super-8 mm. Trata-se de um resumo da trajetória da artista, descoberta há pouco tempo, mas já considerada um marco na história da street photography.

Foto: Reprodução.

Foto: Reprodução.

Sobre Vivian Maier

A artista, nascida em 1926 em Nova Iorque, passou grande parte de sua infância e juventude numa pequena cidade francesa. Há quem diga que daí vem seu gosto pela fotografia humanista, à influência de nomes como Henri Cartier Bresson e que futuramente inspiraria projetos como o Humans of New York. Esse estilo preza pela representação de imagens do cotidiano, demonstrando o lado marcante de temas aparentemente irrelevantes.

O retorno de Maier a Nova Iorque, por volta de 1950, deu início a uma coleção de mais de 150 mil fotografias tiradas com uma câmera Rolleiflex, que apesar de já considerada precária à época, servia muito bem ao seu propósito: o tamanho compacto e o peso reduzido facilitavam a mobilidade, possibilitando fotos mais espontâneas.

Também prezando a mobilidade, Maier trabalhou a vida inteira como babá, especialmente na cidade de Chicago. O emprego permitia que ela vivenciasse ainda mais o dia a dia na cidade, prestando atenção aos detalhes e se identificando com os personagens que encontrava, especialmente os de classes sociais mais baixas – elementos que colaboraram significativamente para a construção do estilo típico da fotógrafa.

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Foto: Luiza Missi.

 

Sobre a exposição

Na abertura da exposição, no dia 21 de abril, a curadora Anne Morin (que já trabalhou com o MIS numa exposição sobre a atriz e fotógrafa Jessica Lange) estava presente e apresentou uma palestra em que explicou os quatro principais eixos temáticos da obra da fotógrafa: famílias (em especial crianças), ambientes urbanos, retratos de pessoas anônimas e autorretratos. Estes dois últimos são os mais interessantes por parecerem contraditórios: como uma fotógrafa que valorizava tanto pessoas desconhecidas acabou desenvolvendo uma quase obsessão pelo autorretrato?

Morin explica que, mesmo em seus autorretratos, Vivian Maier não se colocava como o foco principal da imagem. Sempre havia algo entre ela e o espectador, fosse uma sombra, um reflexo, um objeto ou uma moldura dentro da própria foto. Assim, mesmo que estivesse na foto, seu objetivo era dar destaque ao mundo exterior – em geral, aspectos dele que costumam ser ignorados.

Maier estimava tanto o anonimato que não somente o colocava em suas obras; ela mesma não foi reconhecida até depois de sua morte. Em 2007, o historiador John Maloof comprou por 400 dólares um caixote com 30 mil negativos e 1600 rolos de filmes não revelados. Maloof esperava encontrar apenas retratos da cidade de Chicago, mas ficou surpreso com a qualidade e originalidade das imagens.

Foi só depois da morte da fotógrafa, em 2009, que ele abriu um grupo de discussão no Flickr com a seguinte mensagem, em tradução livre:

 

Eu comprei um lote gigante de negativos numa pequena casa de leilões aqui em Chicago. É o trabalho de Vivian Maier, uma fotógrafa francesa que recentemente faleceu em abril de 2009 em Chicago, onde ela residia. Eu abri um blog com o seu trabalho aqui: www.vivianmaier.com

Eu tenho muito de seu trabalho (entre 30 e 40 mil negativos), que abrange o período entre os anos 1950 e 1970. Acho que a minha pergunta é, o que eu faço com essas coisas? Veja o blog. É o tipo de trabalho que merece exposições, um livro? Ou conjuntos de obras assim surgem frequentemente?

Qualquer recomendação seria ótima.

 

As respostas foram quase exclusivamente positivas, o aconselhando a entrar em contato com museus locais para expor as obras. Desde então, o historiador dedica sua vida a difundir o trabalho de Maier. Anne Morin ressaltou, em sua palestra, que esse é também o objetivo principal da exposição: dar à fotógrafa e à sua obra o reconhecimento que mereciam em vida.

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Chamada na entrada da instalação. Foto: Luiza Missi

Além da exposição em si, Vivian Maier está presente também numa instalação interativa no museu: A Propaganda no Tempo de Vivian Maier. A instalação, fruto de uma parceria entre o MIS e a agência FCB Brasil, apresenta peças publicitárias de cada década desde os anos 50, quando Maier iniciou a produção de suas obras. Destaca-se o contraste entre o feminismo e a individualidade da fotógrafa (apresentada como “precursora das selfies”) e a massificação da propaganda, bem como o seu conteúdo sexista ao longo da história. No espaço dedicado a cada década, há pequenas câmaras em que é possível ver as fotos tiradas por Maier no período.

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Uma das fotos mais famosas da artista dentro de uma câmara. Foto: Luiza Missi

Para fechar a mostra com chave de ouro, a organização instalou uma cabine fotográfica em que os visitantes podem tirar uma selfie “com Vivian Maier”. Funciona assim: a foto é colocada em segundo plano na icônica “selfie” de Vivian na vitrine de uma loja, e exposta no final da instalação em uma de várias telas colocadas na parede. A foto também aparece no site do museu.Tanto a exposição quanto a instalação propõem reflexões muito interessantes: a primeira, sobre o anonimato e a excentricidade de cenas cotidianas. A segunda, sobre o contraste entre a massificação da propaganda e a individualidade do público. Ambas estão nos últimos dias, mas recompensam o esforço – ainda há tempo!

Por Luiza Missi
missiluiza97@gmail.com

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Oloko
O loko :D
11 jun 2015
 
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