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Woody Allen, um estranho familiar

O que esperar do diretor quando o conhecemos à distância

CINÉFILOS
01 jun 2019 | Por Isabel Teles (isabel.teles@usp.br)

A definição de “estranho familiar” foi elaborada pelo psicólogo Stanley Milgram, em 1972, como um fenômeno social em que se tem a sensação de conhecer determinada pessoa de tanto observá-la, mesmo sem nunca interagir com ela. O exemplo clássico é daquele sujeito que sempre pega o seu ônibus ou, atualmente, de alguém cuja rotina você acompanha nas redes sociais.

Woody Allen é um estranho familiar. Você já assistiu a algum de seus filmes ou pelo menos já ouviu alguma referência ao seu nome. Desde sua estreia no cinema, em 1966, ele dirigiu 51 filmes, o que resulta numa média de aproximadamente um lançamento por ano.

Em muitas de suas produções, ele também atua, o que colabora para estreitar a relação com o espectador. Quando não interpreta um papel nos filmes, há outros personagens com traços de personalidade parecidos com aqueles que achamos ser os Allen.

No entanto, o diretor não deve ser confundido com o personagem que ele interpreta em seus filmes, conforme destacou Letty Aronson, sua irmã e produtora, em uma entrevista ao jornal The New York Times. Ela explica que trata-se de um alter-ego que Allen consegue interpretar com facilidade, mas que não tem relação com quem ele é na vida pessoal.

Ele faz tudo sempre igual

Com humor ácido e um tanto pretensioso, há alguns temas queridinhos que sempre aparecem em suas obras sem, no entanto, repetir fórmulas. Citações filosóficas, referências à religião judaica, críticas à sociedade americana e personagens neuróticos são uma constante.

Quem assistiu a mais de um filme do diretor provavelmente percebeu que não há muito acontecendo no pano de fundo. Os roteiros, que Allen também assina, abordam simplesmente as relações entre pessoas, com destaques para os diálogos afiados e naturais. A familiaridade com sua produção começa por aí, ele trata de temas que são possíveis e frequentes na vida real.

O assunto campeão abordado por Woody Allen são relacionamentos amorosos. Na imensa maioria deles há uma crise despertada por infidelidade ou pela perda de interesse de algum dos personagens devido à questões externas. Em um primeiro momento, isso parece razoável para alguém que retrata o cotidiano, no entanto, há um detalhe que chama a atenção.

 

Maturidade

Dos 51 filmes dirigidos por Allen, 10* apresentam enredos em que o relacionamento entre um homem e uma mulher mais jovem é tema central. Esta reportagem define como “mais jovem” uma diferença de idade superior a 20 anos, verificada pela data de nascimento dos atores, ou aquela  insinuada no filme com o intuito de ressaltar a desigualdade.

Tudo começou com Manhattan (1979), cujo enredo foca no esfriamento do relacionamento de Isaac, (Woody Allen) de 42 anos, e Tracy (Mariel Hemingway), uma estudante de 17 anos. Isso ocorre quando ele conhece Mary (Diane Keaton), uma jornalista com idade mais próxima a sua e que, num primeiro momento, não o atrai.

Um destaque mais recente é o longa Tudo pode Dar Certo (2009), em que Boris, personagem alter-ego de Allen interpretado por Larry David, ajuda a jovem Melody (Evan Rachel Woods) a se estabelecer em Nova Iorque que acaba se envolvendo romanticamente com ela.

Em ambos os filmes, as personagens femininas são atraídas pelo intelecto masculino, ressaltando em diversas situações o quanto seus companheiros são geniais. Nos dois casos, os protagonistas tentam afastá-las, sugerindo que vivam sua vida e se relacionem com pessoas da mesma faixa etária.

Apesar de gravitarem no entorno dos homens, as personagens de Evan Rachel Woods e Mariel Hemingway não são secundárias ou desinteressantes. Pelo contrário, elas desempenham papel central nas produções.

* Os 10 filmes apontados são: Manhattan (1979), Sonhos Eróticos de Uma Noite de Verão (1982), Maridos e Esposas (1992), Poderosa Afrodite (1995), Todos Dizem Eu Te Amo (1996), Celebridades (1998), O Escorpião de Jade (2001), Tudo Pode Dar Certo (2009), Magia ao Luar (2014) e Homem Irracional (2015)

Tracy (Mariel Hemingway) é apaixonada por Isaac (Woody Allen) e sofre com o distanciamento entre os dois.  [Foto: IMDB]

Mulheres

Allen admite que, depois de trabalhar com Diane Keaton em Noivo Neurótico, Noiva Nervosa (1977), passou a escrever histórias sob à ótica feminina como forma de traduzir sua admiração por ela como mulher e como atriz, além de se sentir mais confortável escrevendo para mulheres.

Isso fez com que Allen se tornasse reconhecido por seu trabalho com personagens femininas e uma referência na direção de atrizes. No elenco de suas produções já figuraram Meryl Streep, Kate Winslet, Cate Blanchett, Scarlett Johansson e, mais recentemente, Emma Stone e Kristen Stewart. Segundo o jornalista Dave Itzkoff, para muitas atrizes, trabalhar em um filme de Woody Allen significava uma validação de suas carreiras.

As mulheres de Woody Allen são complexas e, mesmo que por vezes seu lado emocional seja mais desenvolvido, tem nuances fortes de caráter, mostrando independência, garra e, sobretudo, inteligência, qualidade extremamente valorizada pelo diretor.

Assim, ele supostamente presta uma homenagem às mulheres ao escrever filmes em que figuram em papéis de destaque, com dramas próprios e ao escalar atrizes importantes para interpretá-las.

Apesar das qualidades dessa abordagem, Allen deixa escapar, talvez não intencionalmente, estereótipos machistas em suas produções, evidentes sobretudo na forma como personagens femininos e masculinos se relacionam em cena.

 

A vida imita a arte

O fato de os filmes de Allen retratarem romances com grandes diferenças etárias seria menos relevante não fosse o fato de ele viver esta realidade em sua vida pessoal.

Em 1992 ele se separou de Mia Farrow, com quem se relacionou por mais de uma década, para se casar com Soon-Yi, uma das filhas adotivas de Farrow, então com 21 anos. O diretor tinha 57 anos.

Apesar de ambos serem maiores de idade, o romance causou polêmica por conta de insinuações de que Allen mantinha uma relação estranha e não paternal com Soon-Yi antes de tornar o namoro público e de que ele havia abusado sexualmente de outra filha adotiva de Mia Farrow, Dylan, quando ela tinha quatro anos.

A criança foi submetida a exames médicos que não confirmaram indícios de abuso e, por isso, Allen nunca foi processado. Ainda assim, Dylan e Mia mantêm sua posição quanto à acusação.

Allen e Farrow nunca foram casados e não viviam juntos. Tanto Soon-Yi quanto Dylan foram adotadas por Mia Farrow antes de seu envolvimento com Woody Allen.

 

#MeToo

A turbulenta separação teve pouca influência na vida pessoal e profissional de Allen, ele e Soon-Yi permaneceram casados e ele continuou a produzir filmes. Isso até 2017 quando o movimento Me Too, de atrizes denunciando abusos no meio artístico, veio à tona.

Allen não foi acusado por atrizes de se portar de maneira inadequada durante filmagens. O fato responsável por trazê-lo para o centro do movimento foi um artigo escrito por Dylan Farrow no jornal Los Angeles Times em que ela critica o fato de Allen ter saído impune das acusações de abuso sexual contra ela durante a infância. Ela diz que há uma névoa criada em torno do diretor, em que artistas de primeira linha linha aceitam participar de seus filmes e a imprensa evita o assunto do abuso.

O último filme do diretor, Um dia chuvoso em Nova Iorque (2018), estrelado por Selena Gomez, apesar de já concluído teve sua distribuição cancelada por conta da pressão do Mee Too. A Amazon, distribuidora do filme, que não havia dado previsão para o lançamento do longa, decidiu encerrar relações com Allen por conta de seus comentários desrespeitosos sobre o movimento.

 

E agora, Woody?

A distribuição de Um dia chuvoso em Nova Iorque é objeto de um complexo processo judicial referente às obrigações contratuais das partes. Isso quer dizer que a posição da Amazon pode não ser mantida diante dos tribunais e o filme pode vir a ser distribuído.

Neste caso,  o desafio para Woody Allen será conseguir público para assisti-lo, uma vez que o ativismo e a solidariedade às mulheres vítimas de agressão tem se mostrado poderoso no boicote contra produções que as desrespeitam. Ao que tudo indica, a tradição de assistir a um novo filme do diretor todos os anos está com os dias contados.

Aos que optarem pelo benefício da dúvida, o diretor deixa um legado de 51 produções que abordam o comportamento humano. Assistindo aos filmes de Allen é possível conhecê-lo melhor e saber como pensa. Esta aproximação pode levar à conclusão de que, no caso de alguns estranhos, pode ser melhor afastar qualquer familiaridade.

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O Cinéfilos é o núcleo da Jornalismo Júnior voltado à sétima arte. Desde 2008, produzimos críticas, coberturas e reportagens que vão do cinema mainstream ao circuito alternativo.
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