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Observatório | Regras de cortes de cabelo e uniformes reacendem polêmicas no governo Bukele

Padronização da apresentação dos estudantes gera debate em meio às recentes decisões do governo salvadorenho; entenda

Por Gabriella dos Santos (gabriella.santos12@usp.br) e Victor Gama (victorgamasilva@usp.br)

Uniforme limpo e organizado, corte de cabelo adequado, apresentação pessoal correta e entrada em ordem com saudação respeitosa. Essas são algumas das medidas instituídas nas escolas públicas de El Salvador pela recém nomeada Ministra da Educação, Karla Trigueiros

Médica e Capitã das Forças Armadas de El Salvador, Trigueiros foi nomeada ao cargo no dia 14 de agosto pelo controverso presidente salvadorenho Nayib Bukele e os cortes de cabelo medidas conservadoras em sua atuação. A padronização de cortes de cabelo foi responsável por lotar barbearias de todo o país. Crianças e adolescentes foram obrigados a erradicar o moicano e o “cabelo tigelinha”, populares entre os jovens latinos, e aderirem a um corte mais baixo.

No primeiro dia das diretrizes, as autoridades verificaram cerca de 1.200 alunos e emitiram 320 advertências por cortes de cabelo ou uniformes incompleto [Imagem: Divulgação/Ministério da Educação de El Salvador]

O documento oficial publicado pela ministra quatro dias após sua posse é voltado aos diretores das escolas públicas do país. Nele, Trigueros estabelece que os diretores devem ser  responsáveis pelo cumprimento das medidas disciplinares e os “modelos de ordem e disciplina para estudantes, docentes e pessoal administrativo”. 

A ministra determinou que o memorando tem caráter obrigatório e que o não-cumprimento por parte dos diretores será considerado uma falta grave de responsabilidade e dará lugar a ações correspondentes, segundo o documento.

Caso não siga as regras, o aluno recebe uma notificação e têm três dias para fazer as correções. Caso contrário, é punido com cinco horas de serviço comunitário dentro da escola, além de receber redução na nota de conduta por rebeldia [Imagem: Reprodução/X/@KarlaETrigueros]

No último dia 24, Trigueiros publicou outro despacho que prevê um regulamento para promoção da cortesia no ambiente escolar. O documento exige o uso de expressões como “obrigado” e “por favor”. A partir do dia primeiro de setembro, alunos que não cumprimentarem professores ao entrar e sair da aula, não falarem “por favor” ao pedirem algo e “obrigado” ao receber um favor ou ainda usarem “tom grosseiro” com os colegas de sala ou profissionais serão punidos por má conduta. O acúmulo de penalidades acarretará em punições gradativas e, ao cometer 15 infrações, o aluno poderá ser reprovado.

A nota também determina: “Os alunos poderão eliminar deméritos (punições por má conduta) acumulados se cumprirem uma semana completa com saudações respeitosas, ajudarem voluntariamente na limpeza escolar e participarem de campanhas de valores organizadas pela escola”.

Garotas também estão sendo avaliadas em relação às suas vestes, cabelos e unhas, que estão sendo revisados diariamente  [Imagem: Reprodução/X/@PresidenciaSV]

Das bases políticas ao autoritarismo

Ao contrário de sua identidade política atual, Bukele nasceu na política salvadorenha de esquerda, no partido Frente Farabundo Martí de Libertação Nacional (FMLN). Ele iniciou sua carreira como marqueteiro e logo migrou para a política institucional, quando se tornou prefeito de Nuevo Cuscatlán, município salvadorenho. Anos depois, foi prefeito de San Salvador, capital do país. 

Próximo às eleições do país, Bukele foi expulso pelo Tribunal de Ética do FMLN após ser acusado de promover a divisão do partido e de agressões verbais e físicas contra uma deputada. Com sua saída em 2017, ele assumiu a figura de outsider na política: alguém cansado do “jeito velho de organização”, disposto a trazer mudanças profundas e inovadoras para a área. 

Em sua eleição em 2019, o presidente de El Salvador utilizou o partido de centro-esquerda, Gran Alianza por la Unidad Nacional (GANA, na sigla em português), como um “partido de aluguel”. Após ser eleito com mais de 80% dos votos, Bukele se desfiliou e criou o Nuevas Ideas, seu próprio partido político. Segundo o professor e historiador Fábio Luís Barbosa, da  Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), Bukele foi eleito ao se posicionar como uma alternativa à política tradicional salvadorenha, e condenar seus partidos convencionais.

O presidente, junto de seus apoiadores, aprovou no final de julho um projeto de lei que prevê o aumento do mandato presidencial de cinco para seis anos e acaba com o segundo turno. Dessa forma, uma brecha pode ser aberta para Bukele continuar no poder por tempo indeterminado. Para Carolina Pedroso, professora especialista em América Latina do curso de Relações Internacionais da Unifesp, essa medida de extensão de mandato é inconstitucional, uma vez que a Constituição salvadorenha impossibilita a reeleição imediata de um chefe de Estado.

“A Constituição de El Salvador tem mais de um dispositivo dedicado a evitar a possibilidade de reeleição por conta da experiência histórica do país com governos que chegavam ao poder e não saíam. Então do ponto de vista legal e institucional, houve uma violação direta à constituição”, afirma Pedroso.

De acordo com Barbosa, o presidente Bukele se firmou no poder com um “golpe por dentro”. O controle do parlamento, as mudanças na constituição e a sua influência cada vez maior dentro das instituições têm a função de erradicar a independência dos poderes e, consequentemente, centralizar o poder todo para si, sem que haja a necessidade de um golpe com a abolição violenta das estruturas atuais do Estado, explica o historiador.

Nayib Bukele, que se autointitula como o “ditador mais legal do mundo”, destaca-se pela popularidade entre grande parte da população, mas também por uma série de decisões e atitudes controversas que preocupam  os estudiosos sobre a democracia do país. Sua política repressiva contra a criminalidade, acompanhada de decisões como a destituição de juízes e perseguição a opositores, classifica seu governo como autoritário de acordo com estudiosos.

“El Salvador não tem democracia. Sob Bukele, os espaços de livre pensamento e de produção de jornalismo crítico estão sufocados.”
Fábio Luís Barbosa

Todas as prisões realizadas são amplamente utilizadas para a propaganda do governo, que publica vídeos de detenções em massa, exibe presídios superlotados e promove a imagem de “guerra ao crime”. O investimento na política do espetáculo tornou Bukele o presidente que “resolveu” a violência no país.

De acordo com dados do governo, a taxa de homicídios caiu de 2,4 para 1,9 a cada 100 mil habitantes em 2024, após Bukele declarar guerra às maras, gangues do país. Entretanto, ONGs como a Anistia Internacional, a Human Rights Watch (HRW) e a Cristosal, denunciam torturas e milhares de prisões arbitrárias nas quais pessoas inocentes foram encarceradas sem processo legal e sem direito à defesa.

Após alavancar sua presença nas mídias sociais e fazer campanha em uma plataforma populista e anticorrupção, Bukele ganhou a presidência com quase 53% dos votos em 2019 [Imagem: Reprodução/X/@PresidenciaSV]

O presidente salvadorenho, por outro lado, mostra-se indiferente às acusações. Em reação às críticas, Bukele escreveu em seu perfil no X (antigo Twitter) que “90% dos países desenvolvidos permitem a reeleição indefinida de seu chefe de Governo, e ninguém se incomoda” e afirma que as críticas à decisão são motivadas por ela partir de um país “pequeno e pobre”.

As medidas excessivas do presidente não diminuíram sua popularidade. Para Carolina, a população tem aceitado esse cenário em troca da queda dos índices de homicídio. “A população sacrifica a democracia em troca do controle da criminalidade”, avalia. 

Entre o conservadorismo e o liberalismo 

Embora se apresente como um líder contrário às estruturas de poder da sociedade, Bukele mantém políticas conservadoras nos costumes e liberais na economia.Um dos marcos de sua gestão foi a adoção do Bitcoin como moeda oficial do país em 2021, alvo de críticas nacionais e internacionais. No início de 2025, quase quatro anos depois, o presidente desistiu da decisão devido à pressão do Fundo Monetário Internacional (FMI) em “mitigar os riscos de lavagem de dinheiro e a instabilidade do preço do Bitcoin“.

“Nos costumes, tem uma agenda conservadora; na economia, aposta em maior liberalização dos mercados.”
Carolina Pedroso

Apesar de fracassada, a medida serviu para reposicionar a imagem internacional de El Salvador. Antes conhecido pelos altos índices de violência, hoje Bukele tenta importar a imagem de um país inovador e vanguardista, que superou seus problemas e que olha para o futuro. O estilo confrontador, as campanhas nas redes sociais e o discurso com “soluções rápidas” para problemas complexos consolidam sua imagem como um exemplo a ser seguido para setores conservadores da região.

[Imagem de capa: Reprodução/Wikimedia Commons]

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