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‘Pai Mãe Irmã Irmão’: uma representação da complexidade que permeia as relações familiares | 49º Mostra Internacional de Cinema de SP

Vencedor da principal categoria do Festival de Veneza fala por meio do silêncio, mas sofre com o distanciamento entre os personagens e o público
Por Hellen Indrigo (hellenindrigoperez@usp.br)

A arte e a vida estão intrinsecamente conectadas, e não é uma surpresa observar representações de elementos do cotidiano dos seres humanos estampando as telas de cinema. Um exemplo são as relações familiares 一 ou a ausência delas 一, utilizadas como força motriz para a construção de diversas tramas e para o desenvolvimento de personagens. 

Em seu mais recente longa, Pai Mãe Irmã Irmão (Father Mother Sister Brother, 2025), o diretor e roteirista Jim Jarmusch não só constrói uma história com o auxílio de elementos importados da vida real, mas utiliza-os como a trama em si. No filme, a complexidade das relações familiares coloca-se como protagonista absoluta, de forma que todos os acontecimentos que emergem ao decorrer da obra têm a função de reforçar algum aspecto sobre esse tópico central.

Após vencer o Leão de Ouro, principal categoria do Festival de Veneza, Pai Mãe Irmã Irmão foi exibido na 49º Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, mas ainda não possui uma data oficial de estreia no Brasil. A obra conta com um elenco de nomes bastante conhecidos, como Tom Waits, Cate Blanchett e Adam Driver, e é dividido em três partes que contam histórias independentes umas das outras.

Além da temática familiar, os capítulos também se relacionam entre si por meio da repetição de elementos comuns, mas que nem sempre fazem sentido. Em cada uma das partes, é possível notar vestimentas em tons de vermelho, skatistas passando em câmera lenta pelas ruas e relógios Rolex, embora a motivação para muitas dessas repetições não seja devidamente clara.

Por outro lado, há elementos em comum que são mais facilmente digeríveis, como os brindes e as longas cenas dentro de carros, embora essas sejam afetadas pelo uso descoordenado de tela verde. Um exemplo é quando o personagem de Luka Sabbat dirige por uma virada de esquina, mas o volante permanece imóvel como se o veículo passasse por uma reta.

O longa foi produzido pela Saint Laurent Productions, administrada pela marca de moda luxuosa Saint Laurent [Imagem: Reprodução/TMDb]

A primeira história é, sem dúvidas, a mais consistente. Em Pai, a trama gira em torno do contraste da conduta de uma dupla de irmãos durante uma visita a seu genitor controverso e distante (Tom Waits). Enquanto Jeff (Adam Driver) preocupa-se com a estabilidade financeira do pai e sacrifica constantemente os próprios recursos para atender a seus pedidos de ajuda, sua irmã Emily (Mayim Bialik) surge como a metade cética da equação ao contestar de forma recorrente a índole do personagem de Waits.

O clima constrangedor de tensão que permeia o episódio é o resultado de uma tentativa infrutífera de resgate da intimidade que deveria estar ali, mas que foi desgastada por conflitos e pelo afastamento. Ao longo do breve encontro, os silêncios arrastados sob medida e a estranheza palpável na atitude dos personagens são uma analogia à quebra das expectativas que rodeiam os núcleos famíliares. Porém, apesar de não ser completamente ignorada, a sensibilidade potencial perde impacto pelo uso do desconforto dos irmãos e das inconsistências do pai como artifícios para transformar a história em algo que mais se aproxima de uma comédia.

Em Mãe, uma senhora elegante e perfeccionista (Charlotte Rampling) tenta manter a tradição anual de tomar um chá da tarde com as duas filhas em seu casarão em Dublin. A evidente compulsão da personagem com a ordem e a perfeição das aparências 一 como demonstra a casa milimetricamente organizada e a roupa sob medida 一 se reflete na rigidez das três mulheres durante o encontro. A insegurança de Timothea (Cate Blanchett) e a falsa arrogância de Lilith (Vicky Krieps) se destacam como respostas ao temperamento da mãe, em meio a uma coreografia desconfortável que, mais uma vez, tem o silêncio como peça chave do desenvolvimento.

As relações familiares representadas no longa são marcadas pela persistência hesitante, pela necessidade de aprovação e pelo companheirismo [Imagem: Reprodução/TMDb]

Por fim, em vez do desconforto e da hesitação demonstrada pelos demais personagens, o luto é o sentimento dominante dos protagonistas de Irmã Irmão. Os gêmeos Skye (Indya Moore) e Billy (Luka Sabbat) precisam encarar a perda dos pais e organizar o antigo apartamento da família em Paris. Apesar de desenvolver a expressão dos sentimentos de forma mais explícita, essa última parte tem um impacto mais superficial ao apostar em diálogos que convencem menos do que o silêncio do capítulo anterior.

Por meio da representação de três encontros de poucas horas, Pai Mãe Irmã Irmão deixa décadas de história subentendidas e provoca a curiosidade para o passado que conduziu as famílias até aqueles momentos específicos. Porém, não há vestígios concretos desse passado. A menção vaga a pequenos detalhes sobre ele é uma faca de dois gumes: ao mesmo tempo em que evita o perigo das informações excessivas, também fabrica um distanciamento responsável por mascarar parte da sensibilidade que a obra parece ter a intenção de transmitir.

A narrativa torna-se frágil ao apenas criar contextos identificáveis por meio dos personagens, ao invés de fazer com que o público se identifique diretamente com eles. Os rostos em cena parecem apenas meios para um fim, e a ausência de uma conexão faz com que os sentimentos em resposta surjam com menos intensidade. Apesar de ser uma experiência agradável, o longa poderia ter sonhado mais alto. Pai Mãe Irmã Irmão emociona, arranca algumas risadas, mas dificilmente acompanha o espectador para fora da sala de cinema.

Esse filme fez parte da 49ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Para mais resenhas do festival, clique na tag no começo do texto.

Confira o trailer:

*Imagem de capa: Reprodução/TMDb

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