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‘São Paulo Sociedade Anônima’: sobrevida na metrópole

Clássico de Luiz Sergio Person adensa o desespero urbano travestido de progresso; relançamento marca o 60º aniversário da obra
Por João Lucas Casanova (joaolcasanova@usp.br)

Com frequência, as tentativas de assimilação de São Paulo vêm por meio de seu retrato. Nada como ver de novo, por diferentes ângulos, para se obter um maior senso de compreensão do que a metrópole pode representar. São Paulo, Sociedade Anônima (1965), de Luiz Sergio Person, que volta aos cinemas nesta quinta-feira (26) numa versão restaurada, faz isso como poucos.

É verdade que talvez ninguém tenha sido mais assertivo que Mário de Andrade quando escreveu: “São Paulo é outra coisa, não é amor exatamente, é identificação absoluta, sou eu. E eu não me amo. Mas me persigo”. Embora a descrição de Caetano Veloso não fique muito atrás quanto à veracidade: o lugar “de onde não se vê quem sobe ou desce a rampa”.

E há um motivo para isso tudo: a cidade cosmopolita, moderna e antiquada, é um eterno encontro e contravenção de si mesma. Por vezes atende a seus estereótipos, outras o subverte. Nunca para de ser, no fim, eu. E há muitos eus que se perdem na massa mais ou menos uniforme de cabeças que passeiam por suas ruas abertas e subterrâneas todos os dias.

Se a música, a literatura, a pintura e o teatro trouxeram contribuições mil à acepção de São Paulo, não é com afronta que o cinema se consolida como a forma natural de representação da metrópole. Há, como em Andrade, identificação absoluta entre um e outro. E provavelmente nenhum filme explora tão bem essa semelhança como o clássico São Paulo, Sociedade Anônima.

Nele, uma São Paulo em plena efervescência da industrialização. A cidade da vanguarda, como passou a ser desde 1922, materializa-se para além das ideias. Como afirmou Elis Regina em uma entrevista nos anos 1980, “ser contemporâneo é ser paulistano”. O filme de Person capta esse momento singular do lugar onde tudo acontece, quando o progresso parece mais inevitável que o declínio. Ou assim se pensava.

A repetição opressiva do capital, aqui percebido na produção em massa da indústria, é parte central do longa de Person
[Imagem: Divulgação/Vitrine Filme]

Entre o fim dos anos 1950 e o início dos 60, um jovem de classe média, Carlos (Walmor Chaga), flutua entre o prazer da deselegância discreta das meninas e o trabalho em uma fábrica automobilística, indústria que despontava na época. O longa altera a percepção do tempo, brincando com os casos amorosos do jovem, embaralhando-os, um pouco como viver em São Paulo faz. O pano de fundo das cenas, por sua vez, nunca se altera. Ali sempre estão os prédios engolidores, a volúpia sonora dos carros, o bando de pessoas a atravessar por eles, a indiferença que emerge disso…

Na faceta mais evidente, a obra de Person é sobre o desespero urbano, que ora se mostra intensamente individual, fruto de uma série de particularidades, ora mingua numa área comum, irresolvível tamanha sua cotidianidade. Como extensão disso, surge a repetição, central para Carlos, as atividades da indústria, a consolidação de sua família, a própria existência, enfim, São Paulo.

É, no fim, um filme de retornos. Volta-se sempre, seja por vontade da narrativa, que retoma acontecimentos, ou pela força da imagem e do som. As engrenagens sendo postas nas ferrarias de onde sairão os veículos, as vitrines dos estabelecimentos, os prédios altos (que hoje soam pequenos), tudo tão igual num esforço unilateral de soar diferente. Os pensamentos de Carlos, ouvidos apenas pelo espectador, rondando, predizendo, pouco revelando além da angústia pela angústia que não apresenta fim.

Nesse sentido, o filme de Person alude aos dramas sobre incomunicabilidade burguesa de Michelangelo Antonioni. A referência se dá por tema, mas também abordagem. Há nos longas do italiano a profusão do mundo moderno, do capital que não vê limites, como se dá no brasileiro. Mas, enquanto a perspectiva de redenção ou o mínimo entendimento nunca abdica da possibilidade de ser ressignificado em A Aventura (1960) ou A Noite (1962), em São Paulo Sociedade Anônima o beco em que se encontram os personagens não apresenta saída.

Em um dos planos mais famosos, drama particular e cotidiano da cidade convergem [Imagem: Divulgação/Vitrine Filme]

Carlos é de uma personalidade brusca, responsável por pouquíssimos momentos agradáveis. Suas crenças são despropositadas, mesmo que não soem ilegítimas. Ainda assim, a predileção da câmera se mantém por ele e seu colapso. Quando observamos as mulheres de sua vida, estão invariavelmente manchadas por seu olhar — fator que não tira delas o peso capaz de se contrapor ao efeito da vida urbana no protagonista.

Luciana (Ewa Wilma), a esposa, é a juventude que rapidamente se condensa em mais um extrato da maturidade, da vida de compromissos que Carlos atrela ao desespero. Ana (Darlene Glória), a impossibilidade de fugir da decadência, dos meandros sujos ao qual o protagonista não sabe bem se olha com condenação ou interesse. E Hilda (Ana Esmeralda), a figura distante e, por isso, atrativa, a vítima final do terror ao qual o personagem de Walmor Chaga parece sempre obrigado a continuar, cair, recomeçar…

É Hilda quem protagoniza uma das mais angustiantes composições de planos de Person, responsável pelo efeito deslumbrante do humano condensado ao cimento. A mulher na frente da janela, seu perfil, seu fantasma a perder forma perante os prédios que parecem avançar sobre ela, enquanto a câmera se distancia, prestes a pular para outro canto, outra engrenagem, outro começo.

São Paulo Sociedade Anônima é uma conjunção de muitas coisas. A velocidade da cidade, do cinema, da indústria — elementos relegados a sina de ser massa e indivíduo ao mesmo tempo, sem nunca se consumar em nenhum deles. Person apresenta não uma ode à metrópole, mas seu mais puro estado de reconhecimento: o avesso do avesso do avesso do qual não se pode fugir.

São Paulo Sociedade Anônima já está em cartaz nos cinemas brasileiros. Confira o trailer:

*Imagem de Capa: [Divulgação/Vitrine Filme]

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