Por Sofia Matos (sofi.matos@usp.br) futevôlei
Durante décadas, o futevôlei foi visto como um jogo típico de praia, associado ao lazer, ao verão e à informalidade das areias cariocas. A imagem de atletas descalços, em partidas sem compromisso competitivo, marcou o imaginário popular. No entanto, essa percepção já não corresponde à realidade do esporte no Brasil. O futevôlei passou por um processo de organização, expansão territorial e profissionalização que o transformou em uma modalidade estruturada, com campeonatos oficiais, atletas de alto rendimento e entidades responsáveis por sua regulamentação.
Hoje, o esporte está presente em praias, arenas urbanas e centros de treinamento espalhados pelo país. Mais do que uma prática recreativa, o futevôlei se consolidou como um campo esportivo competitivo, que exige preparo físico intenso, técnica apurada e dedicação constante. A trajetória dessa transformação ajuda a explicar por que a modalidade se tornou uma febre nacional.

A altura da rede no futevôlei segue o padrão do vôlei de praia: 2,43m no masculino e 2,24m no feminino, o que exige potência física e precisão técnica dos atletas [Imagem: Reprodução/Wikimedia Commons]
Das praias do Rio à expansão nacional
O surgimento do futevôlei está diretamente ligado às praias do Rio de Janeiro. Na década de 1960, restrições impostas à prática do futebol na areia levaram jogadores a buscar alternativas para continuar jogando. A solução foi utilizar as quadras de vôlei de praia e adaptar o futebol a um novo formato: a bola agora deveria passar por cima da rede e não poderia ser tocada com as mãos. Nascia, assim, o esporte que mais tarde seria conhecido como futevôlei.
Inicialmente chamado de “pévolei”, o jogo ganhou popularidade rapidamente entre frequentadores das praias cariocas. A prática se espalhou de forma espontânea, sem regras unificadas ou estrutura formal, mas com forte adesão popular. Nos anos seguintes, ex-jogadores de futebol profissional e atletas amadores passaram a adotar o futevôlei como forma de lazer e condicionamento físico, o que contribuiu para a sua difusão.
A partir da década de 1990, o esporte começou a ultrapassar os limites do Rio de Janeiro. Estados do Nordeste, do Centro-Oeste e do Sudeste brasileiros passaram a incorporar o futevôlei às suas praias e espaços urbanos. Esse movimento marcou o início de uma nova fase — a transição de uma prática informal para um esporte que buscava identidade própria e reconhecimento institucional.
O caminho da profissionalização
Com o aumento do número de praticantes, surgiu a necessidade de organização. Federações estaduais e entidades nacionais passaram a estruturar regras, formatos de competição e calendários. A criação da Confederação Brasileira de Futevôlei, em 1998, foi um marco nesse processo, ao estabelecer parâmetros técnicos e competitivos para a modalidade.
A profissionalização também alterou a rotina dos atletas. O futevôlei passou a exigir treinos regulares, acompanhamento físico, preparação técnica e participação constante em torneios. A lógica do alto rendimento se impôs: para competir em alto nível, já não bastava talento ou experiência de praia; era preciso disciplina, planejamento e investimento.
Esse cenário se reflete na trajetória de Felipe Alves, conhecido no meio esportivo como Ballo. Campeão brasileiro do campeonato Team Águia Footvolley Cup (TAFC) Amador, bicampeão baiano, campeão pernambucano e sete vezes campeão feirense, o atleta representa a consolidação do futevôlei como profissão. Ballo iniciou no esporte quando começou a deixar o futsal de lado e encontrou na modalidade um novo caminho competitivo.

Além das competições, Ballo atua na formação de novos atletas em seu centro de treinamento, em Feira de Santana, Bahia [Imagem: Reprodução/Instagram/@baloftv]
Segundo o atleta, o maior desafio para quem busca viver do futevôlei ainda é financeiro. A necessidade de patrocínios para custear viagens, inscrições e preparação física faz parte da rotina de profissionais. Apesar disso, Ballo destaca que o esporte evoluiu significativamente nos últimos anos, tanto em visibilidade quanto em nível técnico.
“Hoje, o futevôlei é um esporte de alto rendimento, a preparação física pesa muito e define quem chega sempre às finais.”
Ballo
A rotina de treinos envolve academia, treinos em quadra, cuidados fisioterapêuticos e organização semanal que varia conforme o calendário de competições. O preparo físico, segundo Ballo, tornou-se um diferencial decisivo nas disputas, o que reflete a transformação do futevôlei em um esporte cada vez mais exigente.
Apesar das dificuldades, o atleta vê com otimismo o futuro do futevôlei. Para ele, a modalidade está em um momento de expansão que pode colocá-la em patamares ainda mais altos nos próximos anos, talvez inclusive com maior visibilidade institucional e espaço em grandes eventos esportivos. “Espero que o futevôlei consiga se consolidar mais e alcançar patamares ainda maiores, até quem sabe nas Olimpíadas”, comenta o atleta.
Campeonatos, federações e estrutura competitiva
A consolidação do futevôlei como esporte organizado passa diretamente pela criação de campeonatos e circuitos competitivos. Atualmente, o Brasil conta com torneios regionais, estaduais, nacionais e até internacionais, que reúnem atletas de diferentes níveis e regiões do país.
Campeonatos como o TAFC, além de circuitos estaduais e ligas independentes, contribuem para a formação de um calendário esportivo mais amplo. Esses eventos permitem não apenas a competição entre atletas de elite, mas também a inserção de jogadores amadores que buscam experiência e visibilidade.

Criado no litoral carioca, o futevôlei preserva sua identidade praiana até hoje [Imagem: Reprodução/Wikimedia Commons]
A existência de federações e entidades organizadoras fortalece a modalidade, embora ainda haja desafios relacionados à unificação do esporte. Para Ballo, a falta de integração entre organizadores e criadores de eventos pode dificultar o crescimento coletivo. Ainda assim, ele acredita que a expansão do número de torneios é um sinal claro da consolidação do futevôlei no cenário esportivo brasileiro.
A base do crescimento: novos praticantes
Se o alto rendimento sustenta o topo da modalidade, a base do crescimento está nos iniciantes. Em diferentes regiões do país, jovens têm encontrado no futevôlei uma porta de entrada para o esporte. É o caso de Grazyelle Cruz, que começou a praticar a modalidade há menos de um ano, no interior da Bahia.
Sem histórico esportivo anterior, Cruz conheceu o futevôlei por meio de amigos e da internet, acompanhando torneios antes mesmo da popularização recente do esporte. Para ela, o futevôlei representa não apenas um novo desafio físico, mas uma mudança na sua rotina e estilo de vida.
A prática, no entanto, encontra barreiras estruturais que refletem a realidade de muitos iniciantes fora dos grandes centros esportivos. Para treinar, a atleta iniciante e seus colegas enfrentam a falta de infraestrutura básica. “Aqui, em Baixa Grande, a maior dificuldade está sendo pelo local, a gente não tem energia, não tem material, não tem ajuda. É muito difícil.” Mesmo assim, a jogadora não abdica do sonho de crescer no esporte: ela e o grupo tentam treinar pelo menos duas a três vezes por semana, com recursos próprios.
Além do aspecto físico, ela ressalta o impacto do futevôlei na organização da rotina, na saúde e nas relações sociais. Para a iniciante, o esporte representa superação diária e a possibilidade de crescimento pessoal e reforça o papel do futevôlei como ferramenta de inclusão esportiva.
“O esporte representa superação, porque a cada dia você descobre que pode ser melhor do que foi ontem.”
Grazyelle Cruz
Cruz menciona ainda atletas que admira e que inspiram sua caminhada, como Mariana Cipriani e Iago Porto, cujas trajetórias mostram que o esporte pode ser uma plataforma de construção pessoal e técnica. Isso demonstra um aspecto importante do futevôlei atual: mesmo para quem está começando, existem referências que ajudam a consolidar o caminho esportivo.

Torneio de futevôlei marca mais um passo na trajetória esportiva de Grazyelle [Imagem: Grazyelle Cruz/Acervo pessoal]
Uma febre que vai além da praia
O crescimento do futevôlei no Brasil não se explica apenas pela competição. A modalidade conquistou espaço por unir elementos que dialogam com diferentes públicos: dinamismo, contato com a natureza, alto gasto energético e forte senso de comunidade. Crianças, jovens e adultos passaram a aderir ao esporte, seja como lazer, atividade física ou objetivo profissional.
A expansão para arenas urbanas e projetos esportivos contribuiu para romper a ideia de que o futevôlei pertence apenas à praia. Hoje, o esporte ocupa espaços variados e se adapta a diferentes realidades, reforçando sua popularidade em todo o país.
Entre a trajetória de atletas consagrados, como Ballo, e a vivência de iniciantes, como Grazyelle Cruz, o futevôlei se afirma como um esporte em constante transformação. De jogo improvisado na areia a modalidade competitiva estruturada, o caminho percorrido ajuda a explicar por que o futevôlei deixou de ser apenas lazer e se tornou uma das práticas esportivas que mais crescem no Brasil.
