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O legado de Shakespeare: Da literatura até as histórias em quadrinhos

O autor notável da literatura também aparece como base de uma revolução na cultura geek de histórias em quadrinhos

Por Eduardo José (edujs0207sp@usp.br)

Na próxima quinta-feira (23), aniversário de William Shakespeare, datam 462 anos de seu nascimento. O legado do inglês ultrapassa quatro séculos da história humana, e mantém enraizado seu sobrenome nos livros didáticos e na cultura pop ao redor do mundo. Seu legado para a literatura moldou o teatro ocidental, a língua inglesa e a narrativa contemporânea. A influência do autor transcende o tempo, e foi uma peça fundamental para a legitimação das Histórias em Quadrinhos (HQs) como arte, em um episódio curioso.

Nascido na pequena cidade mercantil de Stratford-Upon-Avon, Inglaterra, o autor é tido como o maior dramaturgo da história. Dentre suas obras mais notáveis, destacam-se as peças: ‘Romeu e Julieta’, ‘Hamlet’, ‘O Mercador de Veneza’, ‘Sonho de uma Noite de Verão’, dentre outras. Esta última, por sua vez, ajudou um jovem quadrinista a consolidar as histórias em quadrinhos como arte quase quatro séculos após a sua morte.

“Shakespeare foi o maior contador de histórias que já existiu.” 
Neil Gaiman

Trata-se de Neil Gaiman, em seu seriado em quadrinhos Sandman, publicado pela DC Comics, através do selo ‘Vertigo’ —focado em produções voltadas ao público adulto. A revista durou 75 edições, publicadas entre 1989 à 1996, e deixou um grande legado para os quadrinhos que viriam a seguir, ao provar que essas histórias podem atingir o público erudito. 

‘Sandman’: A melhor Fantasia de 1991

Sandman foi inicialmente uma publicação de horror que narra a trajetória de Sonho, uma entidade que rege sob o mundo dos sonhos, sendo, ao mesmo tempo, uma personificação e um rei dos domínios do sonhar. Sonho e seus irmãos, Destino, Destruição, Morte, Delírio, Desespero e Desejo, são perpétuos — seres místicos e imortais que personificam esses conceitos tão importantes da vida humana.

A publicação alcançou uma expressiva quantidade de vendas, mas foi apenas na edição 19, que, para além do sucesso mercantil, Sandman alcançou o status mundial de melhor obra de fantasia. A edição “Midsummer Night’s Dream” — “Sonho de uma Noite de Verão” — foi a única história em quadrinhos a vencer a premiação World Fantasy Award, em 1991, na categoria de melhor curta ficcional. 

Titânia, Oberon e Puck representados em Sandman nº 19 – Sonho, à direita, recepcionando os seres mágicos para assistir a peça
[Imagem: Arte por Charles Vess/Reprodução / TVTropes]

Na HQ, Sonho assiste à peça “Sonho de uma Noite de Verão”, que havia encomendado ao próprio William Shakespeare em edições anteriores. Durante a narrativa, o perpétuo leva um grupo de seres mágicos para assistir ao espetáculo. A presença das entidades surpreende o jovem Shakespeare pois são as mesmas criaturas que o autor buscou inserir na peça, como Oberon, o rei dos elfos, e Titânia, rainha das fadas.

“Você não sabe quando está lendo algo que foi escrito por Shakespeare, ou algo escrito pelo Gaiman. Ao estar propositalmente se confundindo com Shakespeare, Gaiman também está, confundindo quadrinhos com literatura”
Alexandre Linck

Para Alexandre Linck, autor e pesquisador de HQs do canal no YouTube  Quadrinhos na Sarjeta, a narrativa se confunde entre diálogos originais e diálogos da peça clássica. “Dizer que o texto shakespeariano pode se confundir com o texto de um criador de HQs, é dizer que essas duas formas de arte se equivalem”, aponta Linck. O pesquisador destaca a importância desse aspecto da obra, pois coloca a produção de artistas que trabalham com quadrinhos no mesmo nível de qualidade que a da literatura de Shakespeare. 

A vitória do quadrinho na renomada premiação World Fantasy Award, desencadeou uma série de polêmicas no cenário literário. Trata-se da primeira e única conquista de uma HQ no concurso, o que causou revolta por parte de críticos que não encaram os quadrinhos como literatura. O episódio resultou em restrições de quadrinhos na categoria, inviabilizando possíveis premiações futuras à esta arte. Por outro lado, permitiu que tal forma artística começasse a adquirir o respeito de leitores eruditos. Norman Mailer, premiado escritor estadunidense  e autor de “Os Nus e os Mortos (1948)”, ressaltou que  “Sandman é uma história em quadrinhos para intelectuais”. 

O legado para além da dramaturgia

Roberto Elísio, jornalista, pesquisador e vice-coordenador do Observatório de Histórias em Quadrinhos da ECA-USP, em entrevista à Jornalismo Júnior, aponta que essa valorização dos quadrinhos se deu, inicialmente, pela publicação das famosas Graphic Novels — histórias contidas em publicações únicas, com parte artística refinada.

“A grande valorização se dá nos anos 70. Aí começaram a surgir Graphic Novels, com roteiro muito mais literário e personagens conflitantes”. Roberto ainda exemplifica que mesmo as editoras mainstream investiram neste tipo de publicação. Essas edições serviam como uma forma de marketing para a indústria: “As editoras diziam ‘olha, isso aqui não é um quadrinho, é uma Graphic Novel !’”, conclui.

“Maus” de Art Spiegelman foi um importante Graphic Novel. Lançada em 1986, foi a primeira HQ vencedora do prêmio Pulitzer [Imagem: Reprodução / Pitacos UFRJ]

Sobre o dramaturgo inglês, o pesquisador reconhece sua importância: “Shakespeare e outros grandes escritores foram utilizados pelas HQs e também pelo cinema. Seja adaptação da obra desses escritores, seja histórias que tem o ‘plot’ principal em cima dessas obras”. Para Roberto, o autor consegue ser universal e atemporal, por tratar de temas comuns, como amor não correspondido, inveja e ciúmes. “A partir das constatações de que a vingança é um mote muito forte para se construir uma narrativa, por exemplo, muitas obras beberam dessa fonte.”, aponta.

A fala de Elísio deixa explícito que, para além de movimentar o cenário literário, Shakespeare traz consigo o fardo de expandir para a sociedade a importância do meio artístico em suas diferentes roupagens. Se hoje, os quadrinhos alcançaram o patamar cult na cultura pop, servindo de base para filmes multimilionários e formando uma legião de leitores assíduos, isso se deve um pouco, ainda que por influência, ao dramaturgo inglês. 

“Nós somos feitos da matéria de que são feitos os sonhos”
William Shakespeare

Shakespeare faleceu por causas desconhecidas na sua cidade natal, no dia 23 de abril de 1616, data em que completou 52 anos. Seu legado vai muito além das quase 40 peças e 154 sonetos publicados, pois sua linguagem se encontra enraizada em diferentes formas de criar uma história: em poesias, peças, filmes, músicas e quadrinhos.

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