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Djavanear a Mãe-Terra

Frente à relação cada vez mais predatória e dominadora entre a díade humano-natureza, Djavan constrói singularidade artística utilizando o meio ambiente como ferramenta de extensão de sentimentos e vivências humanos
Djavan
Por João Zogobi (jvznogueira@usp.br)

Musicista autodidata e incontestavelmente poético, Djavan comemora, em 2026, 50 anos do lançamento de seu primeiro disco: A voz, O violão, A música de Djavan (1976). Desde então, o alagoano sedimentou sua marca na Música Popular Brasileira (MPB) ao recorrer à natureza enquanto apoio metafórico para questões existenciais, amorosas e cotidianas.

 Presente em toda a linha do tempo artística do cantor, a alegoria do meio ambiente perpassa grandes hits como Açaí (1982) e Flor de Lis (1976). É possível observá-la, também,  em diversas obras do “Lado B” do trabalho do músico, como Água (1978), Limão (1994) e Romance (1986). A presença constante de elementos naturais na discursiva poética caracteriza Djavan não somente como artista exímio, mas também como possível foco de resistência moderna contra uma arquitetura ideológica moderna que visa, a todo tempo, apartar os ecossistemas e o sentimentalismo dos seres humanos.

Capa do álbum de Djavan
Com estilo  de samba característico, Djavan discorre sobre ascensão da carreira, adversidades da vida, episódios particulares e questões amorosas no álbum [Imagem: Reprodução/DJAVAN]

Meio ambiente como parte que sente

A leitura, ainda que rápida, de notícias sobre questões ambientais tornam o dia de qualquer preocupado com a continuidade da vida na Terra mais agonizante. O aumento do desmatamento e a fragmentação da mata nativa, a infestação da natureza por resíduos eletrônicos, o aumento das emissões de gases de efeito estufa e um deadline climático – que, segundo especialistas, se aproxima mais a cada ano. As notícias são definitivamente desanimadoras. 

Parte da culpa sobre esse possível colapso climático, segundo o professor da Universidade de Oregon John Bellamy Foster,  está contida no modelo de produção que rege o planeta desde a consolidação das Revoluções Industriais e na ineficiência de órgãos estatais em frear avanço descontrolado. Ao ser pulverizada, a ideologia do capital estabelece uma cisão entre sociedade e natureza. Para Foster, citando Marx, isso seria uma  “fratura metabólica”, que coloca o conjunto de biomas, florestas e a natureza em geral  como descolada da essencialidade humana e, portanto, passível de ser explorada até seu esgotamento.

“A dinâmica historicamente específica da produção capitalista constitui a
subordinação da natureza às necessidades de máxima acumulação de capital.”
– Kohei Saito, professor da Universidade de Tóquio, em “O Ecossocialismo de Karl Marx”

O resultado desse apartamento entre humanos e natureza é metrificado por dados da Organização das Nações Unidas (ONU). Eles  apontam, por exemplo, o aumento de 23 centímetros dos níveis oceânicos médios devido ao derretimento de geleiras pela intensificação do aquecimento global; o risco de extinção que 29% das espécies corre até 2100 como consequência do aumento da temperatura global; e 3 bilhões de pessoas vivendo em áreas ambientalmente mais vulneráveis e suscetíveis aos aumentos da temperatura do globo, avanço dos oceanos (como países insulares) ou destruição de safras pela falta de chuva advinda do desmatamento excessivo de determinadas áreas, por exemplo.

Gráfico analisa o consumo de energia
Gráfico analisa a evolução do uso de combustíveis fósseis desde 1800. A liberação de gases, como o metano e o carbono, em quantidades excessivas contribui para o aumento gradual da temperatura global [Imagem: Reprodução/Our World In Data]

Estranheza ou revolução epistêmica?

Diante do afastamento entre os componentes da  díade natureza-homem, toda tentativa de reestruturação dessa unidade ou busca pela preservação do meio ambiente – mesmo como ser exterior – precisa ser entendida como uma forma revolucionária de resistência.

Esta tentativa de reconstrução pode ser encontrada em uma interpretação moderna da  poética ‘djavanesca’.Ela ressalta que  é possível reunir o corpo subjetivo da natureza , o entendimento desta enquanto extensão do nosso próprio ser, a ponto dos ecossistemas tornarem-se forma de traduzir, enquanto ferramenta metafórica, temas como amor, cotidiano e enfrentamento às adversidades da vida. 

Desde a época em que começou o trabalho de composição em Alagoas, o cantor é conhecido pela estranheza das poesias. Apesar disso, o enredo imaginativo converge para uma proposta de entendimento de mundo que tensiona a lógica industrial. Este tensionamento já pode ser diagnosticado em seu primeiro álbum A voz, o violão, a música de Djavan (1976), no qual, segundo Ivan Teixeira, professor da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP), o cantor  mistura suas raízes negras e nordestinas com uma singular subjetividade ecossistêmica e jazz americano

Na música Para-raio, por exemplo, o artista cria uma paisagem sonora quase cubista numa primeira estrofe aparentemente desconexa. Mas que revela, após leitura cuidadosa, forte apelo social:

Descalço num pequeno espaço
Deitado em quarto crescente
Pálido, cálido, espírito ausente
Calado, de corpo fechado

Não traço, não sigo, não sou obrigado
Não faço segredo, não sou bem dotado
Cabeça feita, visão na estrada
Esqueço do medo, não choro por nada

O fato do eu-lírico estar “descalço” pode inaugurar um quadro de pobreza material, afinal a vestimenta de sapatos era determinante para a diferenciação social no século XIX, por exemplo. Este panorama agoniza o eu-lírico e o deixa com espiritualidade ausente, mas determinado a seguir com “a visão na estrada”, sem resmungar ou chorar, mas vislumbrando uma possível ascensão social. Segue ao pré-refrão:

No braço do mar
Bem na ponta da areia
A terra treme, o tempo serra
Quem manda na chuva é o vento

O eu-lírico recorre à figura da natureza para materializar sua aflição, possivelmente criada no subjetivo do autor ao experimentar a possibilidade de uma carreira, solidificada pelo importante momento do lançamento do primeiro disco, em São Paulo, o que o faz sentir a terra tremer e a atmosfera se modificar. 

Invoca, ainda, o imagético natural para ressaltar que a realização do sonho depende também de outros fatores além do próprio esforço, assim como a chuva depende do vento para precipitar, enfrentando o conceito de self made man, formatação cultural característica da ideologia neoliberal-individualizante contemporânea e que designa indivíduos que acreditam ter criado a si próprios ou conquistado o que possui sem auxílio de ninguém.

Entre a brutalidade da vida e a sofrência do coração

A ferramenta discursiva não é usada somente para falar sobre resignações e invocar força frente às adversidades da tentativa de uma vida mais digna, mas também para materializar amor, solidão e traições, como em Lambada de Serpente:

Cuidar do pé de milho
Que demora na semente
Meu pai disse, “meu filho Noite fria, tempo quente”
Lambada de serpente
A traição me enfeitiçou
Quem tem amor ausente
Já viveu a minha dor

Aqui, o eu-lírico se refere ao plantio agrícola para simbolizar que, tal como um “pé de milho”, as relações amorosas demandam tempo, irrigação de atenção, carinho e dedicação para florescer. Trata-se de um processo não-linear, composto de “altos e baixos”, os quais podem transformar uma noite fria em tempos de quentura, seja ela acalentadora ou problemática.

Toda essa construção lenta, atenciosa e cuidadosa   se esfacela de forma sorrateira, repentina e abrupta com uma suposta traição que arrebata o eu-lírico como uma lambada, expressão que, além de um tipo de dança, designa um golpe ou um ataque, neste caso, de uma serpente.

O enfrentamento a esse provável adultério é efetivado com a retomada do eu-lírico a suas raízes com uma metáfora relacionada ao solo, efetivando a ligação de Djavan com sua ancestralidade não pelo meio racional, mas pelas extensões dos braços, pernas e pés no “chão da minha terra”. Os últimos versos suscitam duas interpretações.

No chão da minha terra
Num lamento de corrente
Um grão de pé de guerra
Pra colher dente por dente

A primeira consiste numa ideia de que o eu-lírico faria uma elaboração vingativa ao retomar a ideia de “olho por olho, dente por dente”. A outra possibilidade consiste na ideia de que o autor estaria se planejando para digerir a dor da lambada, remoendo à frustração e à decepção com a pessoa amada, recorrendo ao ato de colher, um por um, os “grãos de pé de guerra” como uma atividade monótona responsável como meio de ponderação e, finalmente, degustação da dor de forma dostoievskiana, que afirma a tendência de todos os humanos sentirem, no fundo de suas dores mais profundas, algum tipo de prazer.

“eu roía, roía a mim mesmo com os dentes, serrava e sugava a mim mesmo, até que a amargura se transformasse, afinal, numa espécie de doçura infame, maldita e, por fim, num prazer definitivo e grave.”
– Fiódor Dostoiévski em Memórias do Subsolo (Penguin/Companhia das Letras, 2020), p.27

Exaltação indígena e perspectiva de futuro

Parte da reformulação ética que garante nossa sobrevivência e futuro ecologicamente possíveis no planeta pode ser realizada com o olhar às perspectivas indígenas de natureza. 

“Acreditamos que a natureza faz parte de nós. As pessoas protestam nas ruas pelos direitos humanos, mas se esquecem de lutar pelo direito à vida, e esse direito à vida é um direito de todos os seres vivos.”  
– Karai Djekupe (Thiago), jovem líder Guarani, em entrevista à UNESCO

Ao costurar novamente esse metabolismo único entre homem e natureza, as filosofias originárias estabelecem contraponto à ideologia do capital, observando na natureza uma ampla rede de inter-relações entre humanos, ‘tudo o que veio’ e a existência da floresta. 

Djavan bebe dessa influência ao escrever Curumim (1989), por exemplo, canção que relata a tentativa de um jovem indígena em conquistar sua amada por meio de flores, lápis de cores e “tudo o que se pensar”. Após todas as tentativas, o eu lírico se pergunta “eu já fiz de tudo/ cadê que adiantou” e se reafirma superando a situação ao professar nomes que remetem tanto à línguas quanto a líderes indígenas, buscando, na ancestralidade, modos de lidar com a frustração, tal como em Lambada de Serpente.

Em Cara de Índio (1978), por sua vez, a mensagem é de perspectiva de futuro, mas de dificuldade frente à marginalização dos povos indígenas.

Índio quer se nomear
Duvido índio
Isso pode demorar
Te cuida índio

Ao querer se afirmar enquanto povo pertencente e dono desse território , o eu-lírico, em tom de aviso, ressalta que, por maior que seja essa vontade, pode demorar para que isso aconteça, clara crítica ao ethos social e burocrático de exclusão das comunidades originárias e de predação de suas terras.

Tanto as comunidades indígenas, quanto Djavan, estabelecem bússolas para o enfrentamento das crises climáticas – a transformação ético-cultural é uma delas. Como aproximação entre ambos, é possível estabelecer que só existirá se for pensado a partir da relação de extensão do homem com a natureza.

Relação entre homem e ambiente é explorada em obra de autor indígena
“Altas e cintilantes casas de pedras amontoadas sobre o chão nu e estéril em uma terra fria e chuvosa sob um céu em chamas, – e com o que ela sonha, assombrada por um desejo sem limites – sonha com suas mercadorias venenosas”, Davi Kopenawa escreve em A Queda do Céu [Imagem: Reprodução/Companhia das Letras]

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