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‘Xica da Silva’: um olhar para trás para encarar  o presente

Restauro do filme após 50 anos do histórico lançamento reconecta a obra emblemática do cinema brasileiro com uma nova geração
por Alícia Simões (aliciasimoes@usp.br)

Você conhece a história de Xica da Silva? Não? A ideia do relançamento de Xica da Silva (1976), que reestreiou nos cinemas do Brasil nesta última quinta-feira (16) após uma restauração de imagem e som, é te fazer conhecê-la. 

Dirigido por Carlos Diegues e roteirizado por ele e Antônio Callado, o filme é baseado no livro Memória do Distrito Diamantino da Comarca do Serro Frio (Typ. Americana, 1856), de Joaquim Felício dos Santos, escrito na segunda metade do século XIX.

O enredo acompanha a história de Francisca da Silva de Oliveira, conhecida como Xica da Silva (Zezé Motta), mulher escravizada e posteriormente alforriada que viveu entre 1732 e 1796, no Arraial do Tijuco (atual Diamantina), em Minas Gerais. Ela viveu uma união estável consensual com o Comendador João Fernandes (Walmor Chagas). O casal viveu com muito luxo e ela mudou completamente de vida, atingindo posição de destaque naquela sociedade mineradora. 

A produção se torna ainda mais relevante no cenário da época em que foi lançada por ser um dos primeiros longas brasileiros a ter como protagonista uma mulher negra. Em seu ano de lançamento, o filme levou milhões de brasileiros ao cinema para assisti-lo, o que permitiu narrar uma história que foi apagada durante muito tempo. A obra consegue dar visibilidade a uma temática muitas vezes contada pela mesma ótica – a do colonizador – e consegue subverter esse olhar. Durante o auge da ditadura militar, com o AI-5 em vigor, usar dessa história como alegoria para aquele momento de repressão é um verdadeiro ato de coragem e resistência.

A proposta da restauração é aprimorar a resolução da imagem e qualidade do som e atingir um novo público que não havia tido contato anteriormente, ou mesmo revisitar aqueles que já tinham assistido à versão original. Nenhuma característica original do filme foi modificada, como dimensões da tela ou cores. 

A restauração foi feita para melhor preservação dessa obra histórica, visto que na película original já se encontravam problemas de conservação como fungos e mofo. Em  2026, para 4K, foi produzida a partir de outra restauração já realizada pela Cinemateca Brasileira, para não correr riscos ao mexer no material original. 

E de fato, a proposta cumpre seu objetivo, muitos que não assistiram à versão de 1976 estão motivados a assistir a atual.  É perceptível o aprimoramento da qualidade da imagem, que se tornou praticamente impecável, e também do som, que foi bastante melhorado. Além disso, remasterizar esse filme é também parte de um processo de preservação de materiais primordiais para a história do cinema brasileiro e recolocar em discussão essa temática da escravidão que precisa ser debatida constantemente.

O longa foi divisor de águas na carreira de Zezé Motta e consolidou sua consagração no imaginário brasileiro 
[Imagem: Divulgação/Sessão Vitrine Petrobrás]

A interpretação de Zezé Motta é brilhante. Ela consegue transmitir de forma excepcional o carisma, ousadia e coragem de Xica. Em algumas partes, inclusive, é isso que continua prendendo o espectador em momentos um pouco mais cansativos. Ela foi um grande acerto na seleção de elenco para encenar esse papel revolucionário da história e do cinema.

A história é bem conduzida pela direção de Cacá Diegues, levando em conta os limites envolvidos em fazer um filme histórico atingir os espectadores, visto que é uma realidade distante (apesar de continuar fazendo parte da sociedade contemporânea, claro) – que circunda outra mentalidade, outra cultura, outro vocabulário – praticamente outro país. Em alguns momentos o enredo se torna um pouco monótono e com uma linguagem cansativa, o que torna a obra enfadonha em certos pontos.

Um ponto de destaque interessante são as cores utilizadas. Todo o filme é bastante colorido, principalmente associado à imagem de Xica, que colore os lugares por onde passa, seja pelas próprias roupas, ou até mesmo pela música e dança. 

Nesse sentido, a fotografia de Rui Medeiros é primorosa. Trazendo uma atmosfera que mescla a exuberância da época colonial com algo teatral, o trabalho se torna muito bonito esteticamente. Por esse ângulo, a execução da restauração pôde valorizar ainda mais esse aspecto, ao refinar a definição das imagens.

A trilha sonora de Jorge Ben Jor e Roberto Menescal também é muito cuidadosa e bem-feita. As músicas, de maioria instrumental, se encaixam bastante ao longo das cenas, e a música tema, “Xica da Silva”, funciona muito bem como uma linha guia ao longo da montagem.

Walmor Chagas também é um dos destaques do elenco
[Imagem: Divulgação/Sessão Vitrine Petrobras]

A respeito da temática, vale valorizar a escolha de Cacá Diegues em resgatar essa história de uma figura tão relevante para a resistência negra e feminina. Apesar de ser uma das poucas exceções daquele contexto colonial, é muito admirável a determinação de Xica que levou à sua ascensão. Uma mulher que subverte o sistema e consegue se tornar figura de poder em um cenário tão opressor merece muito respeito, reconhecimento e admiração. O roteiro é construído de forma a evidenciar essa ascensão, ao mostrar a brusca mudança de vida. A imagem de Xica é transformada e o figurino, maquiagem, trilha sonora e até mesmo a edição acompanham muito bem essa mudança.

Nesse sentido, muitas pessoas associam a decisão de falar dessa personagem histórica transgressora que quebra algumas estruturas opressoras como uma certa analogia ao regime militar autoritário vigente. Evidentemente, levantar essas questões políticas e sociais foi uma grande provocação. Para a própria Zezé Motta, depois de interpretar a personagem, ela se aproximou do ativismo. “Com o sucesso de Xica da Silva, me perguntavam como era ter protagonizado um filme sendo uma mulher negra. Ficava frustrada, pois tinha o sentimento da mulher negra, mas não o discurso articulado. Fui fazer um curso com a antropóloga, socióloga e ativista Lélia Gonzalez, que disse: ‘Não temos tempo para lamúrias. O que temos que fazer é arregaçar as mangas e virar esse jogo’”, contou em entrevista à revista TPM em 2019.

Grande parte da produção é baseada no livro de Joaquim Felício dos Santos, que narra a percepção de uma terceira pessoa sobre a figura de Xica da Silva, sem um contato direto com os materiais históricos. Isso levou a uma espécie de mito ao redor de sua figura, em que ultrapassa-se um pouco os limites do erótico e do bom senso, sem forte compromisso com a realidade. No próprio filme, a sensualidade é exagerada, e isso por si só não seria um problema. A questão é que retratar Xica dessa forma pode minimizar a sua trajetória ao dar a entender que ela só conseguiu aquelas conquistas por causa da sexualidade.

Além de reforçar estereótipos da visão branca a respeito das mulheres negras, a falta de contato direto com os registros históricos produziu certos anacronismos, levando a uma certa visão fantasiosa do período colonial. Também há a falha de que, na vida real, Xica teve vários filhos e manteve seu status mesmo após a partida do contratador, mas a escolha no longa é mostrar uma decadência, mais uma vez, associada a esse mito.

A obra de Cacá Diegues é marcada pelo sincretismo, tanto na vida de Xica, quanto nos gêneros cinematográficos. O longa mistura drama histórico e romance com um pouco de comédia, e também bebe um pouco da pornochanchada. É uma boa escolha da direção, na medida em que é interessante por se tornar um filme diverso e cativante. Ao mesmo tempo, por justamente abordar temas históricos mais sensíveis, há uma certa insegurança em rir das partes mais humoradas, justamente por ser delicado.

O filme reuniu mais de 3 milhões de espectadores em 1976 e recebeu prêmios de Melhor Filme, Melhor Diretor e Melhor Atriz no Festival de Brasília
[Imagem: Divulgação/Sessão Vitrine Petrobrás]

A reexibição desse filme, cinco décadas após seu lançamento original, faz refletir o quanto se precisa de inspirações de figuras questionadoras e transgressoras em meio a uma nova onda de ultraconservadorismo e retrocesso em muitos aspectos de direitos humanitários que já haviam sido superados. A direção e o roteiro se unem para conduzir a história de maneira muito interessante, apesar de alguns momentos desgastantes. A montagem contribui para o tom único do filme, que mistura a dimensão festiva e carnavalesca com as críticas políticas e sociais. O equilíbrio entre a parte musical (coreografias e trilha sonora) é equilibrado de forma consistente com a dimensão crítica.

Xica da Silva já está disponível nos cinemas. Confira o trailer:

*Imagem da capa: [Divulgação/Sessão Vitrine Petrobrás]

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