Por Loren Tangi (lorentangi@usp.br)
O Museu de Arte de São Paulo (MASP) é reconhecido como o museu mais relevante e abrangente do Hemisfério Sul. Fundado em 1947 pelo jornalista e empresário Assis Chateaubriand sob a direção do crítico de arte e historiador Pietro Maria Bardi. A criação da instituição foi impulsionada pela situação econômica durante a Segunda Guerra Mundial, quando era possível adquirir obras europeias extremamente valiosas por um valor muito abaixo do comum.
Inicialmente o museu estava situado na sede dos Diários Associados, o maior conglomerado de mídias da época, que pertencia a Assis Chateaubriand. O local ficava no centro de São Paulo, na Rua Sete de Abril, mais especificamente no segundo andar do Edifício Guilherme Guinle.
Entre concreto e cultura: a preservação da paisagem urbana paulista
Em 1968 foi inaugurado o atual prédio do MASP. O terreno foi cedido pela prefeitura de São Paulo sob uma condição: a vista para o centro da cidade não poderia ser prejudicada. A arquiteta ítalo-brasileira Achillina Bo, mais conhecida como Lina Bo Bardi, seguiu essa exigência com excelência ao projetar um vão livre, que foi considerado por muitos anos o maior do mundo e segue sendo um marco na arquitetura brasileira.
Pensado para ser um local de encontro cultural e social da população, ele possui 74 metros e é sustentado por quatro vigas, oferecendo uma bela vista para a avenida Nove de Julho. Toda a construção é considerada um ícone da arquitetura brutalista, principalmente pelo uso do concreto aparente.
A nova localização, além de proporcionar uma nova identidade ao museu a partir de sua arquitetura revolucionária, também influenciou a dinâmica da Avenida Paulista, onde está localizado, e se tornou um relevante ponto turístico. O local também é palco de atividades, como yoga, discotecagens, e de instalações, como “O Outro, Eu e os Outros”, do artista colombiano Iván Argote.

Experiências artísticas e renovação
No primeiro andar da construção está localizado o espaço destinado às exposições temporárias, que geralmente duram de 3 a 4 meses, porém quando são de artistas mais conhecidos podem ficar até 6 meses, devido a alta demanda de visitas. Isso faz com que o local esteja em constante mudança, oferecendo novas percepções e experiências ao público.
Entre as exposições de maior destaque que passaram pelo local estão A ecologia de Monet (2025), Tarsila Popular (2019) e, no dia 15 de maio de 2026, a primeira exibição do artista mexicano Damián Ortega na América do Sul foi iniciada. Damián Ortega: matéria e energia apresenta 35 obras que variam de esculturas e instalações a fotografias e vídeos. O principal objetivo da mostra é convidar o público a uma reflexão sobre narrativas sociais e econômicas. Ao desmontar objetos como carros, tijolos e pedras, propõe um olhar diferenciado para materiais cotidianos, o que oferece um novo significado a partir de sua reorganização e instalação suspensa.

Acervo: a arte em constante transformação
Devido a história de sua construção, o acervo se concentrava principalmente em obras europeias, apesar da presença de obras de artistas brasileiros renomados como Portinari e Tarsila do Amaral. Porém, principalmente a partir de 2017, se tornou perceptível o esforço do atual diretor artístico do museu, Adriano Pedrosa, de inserir obras com uma maior pluralidade de origens e significados e formalizou a missão do museu.
“O MASP, museu diverso, inclusivo e plural, tem a missão de estabelecer, de maneira crítica e criativa, diálogos entre passado e presente, culturas e territórios, a partir das artes visuais. Para tanto, deve ampliar, preservar, pesquisar e difundir seu acervo, bem como promover o encontro entre públicos e arte por meio de experiências transformadoras e acolhedoras”.
Carta de apresentação do MASP
Essa mudança reflete nas composições presentes nas exposições temporárias, com a seleção de artistas latinos, e nas exposições de longa duração, com a presença de obras mais atuais. A construção do segundo prédio do MASP, o qual leva o nome de Edifício Pietro Maria Bardi, em homenagem ao primeiro diretor do local, deixa a mudança ainda mais visível.
O segundo edifício ainda apresentará uma mostra baseada na apresentação de trabalhos unicamente de artistas latino-americanos. A exposição Histórias latino-americanas ocorrerá a partir do dia 4 de setembro e contará com núcleos distintos em seus cinco andares, cada uma de um artista diferente. Essas mudanças são recentes, principalmente quando se pensa na idade do museu, fundado em 1947.
Em entrevista à Jornalismo Júnior, Janaína Corteze, professora e historiadora da arte, aponta que a obra As cinco moças de guaratinguetá de Emiliano di Cavalcanti é uma das primeiras a fazer parte do acervo. Entretanto, o pintor não tinha um destaque tão grande quanto artistas internacionais como Sandro Botticelli, Auguste Rodin, Paul Cézanne.

O acervo do museu está em constante transformação e expansão, o que cria um grande contraste com o fato de que apenas 1% de seu acervo é exposto. Devido a fatores relacionados à preservação das obras como a exposição à luz, muitas delas são exibidas apenas em mostras temporárias ou nem mesmo chegam a ser expostas. A construção do segundo prédio também visa solucionar limitações físicas presentes no atual museu, já que aumenta as possibilidades de novas obras nunca vistas antes no MASP, tanto de seu acervo quanto externas, a serem reveladas.
A expografia única
Um dos aspectos que mais chama a atenção dos visitantes do local é a expografia — conjunto de técnicas que compõem a estética e organização de exposições artísticas. Lina Bo Bardi revolucionou com os famosos cavaletes de cristal, usados no Acervo em transformação, principal exposição da coleção do museu. São estruturas de vidro que permitem dispor uma quantidade maior de quadros no local e possibilita uma circulação mais livre pelo espaço, diferente do convencional onde os quadros costumam ser suspensos na parede e deixam um vão livre no local, além de permitirem ver o verso da obra, o que pode falar muito sobre ela.
“As telas suspensas são um convite muito particular e único à participação do indivíduo, ao engajamento do espectador.”
Janaína Corteze
Porém, não é uma estrutura que agrada a todos, algumas pessoas não gostam da percepção que elas causam, como a visitante Alexandra Domingues. Ela afirma que, ao ser possível ver as pessoas andando atrás das obras, a atenção aos quadros é um pouco ofuscada. Outra questão debatida sobre os cavaletes está no posicionamento dos nomes das obras e dos artistas, colocados atrás dos quadros. Janaína Corteze, entretanto, diz ser fascinante por dar a possibilidade de interpretação pessoal antes de receber mais informações sobre a composição.
Esse estilo nada convencional de cavaletes ainda permite que a disposição das obras seja explorada com mais liberdade. Como no dia das mulheres, momento em que o local costuma virar obras de artistas masculinos ao lado oposto da entrada do andar, o que garante mais destaque para as autoras mulheres.

Entre 1996 e 2014 as estruturas deixaram de ser usadas por fatores como mudanças na curadoria e dificuldades na preservação das obras. Em 2015, réplicas dos cavaletes voltaram a ser utilizadas e resgataram a identidade original do design.
O Acervo em transformação se comporta como uma máquina do tempo, devido à organização das obras. No início estão as mais atuais e, conforme o espaço é adentrado, trabalhos mais antigos são dispostos, o que dá a sensação de volta no tempo.
A crise de 2014 e a reestruturação
Ao visualizar a atual situação do museu — em expansão física e com patrocinadores — , pensar que a instituição já esteve endividada pode causar estranhamento, mas em 2014 o cenário era de uma crise financeira e uma dívida de milhões de reais. O curador da época, Teixeira Coelho, dizia que a prefeitura de São Paulo não estava oferecendo apoio financeiro o suficiente, porém até hoje não se sabe ao certo os fatores exatos que levaram a instituição à crise. Mas é de conhecimento público que o local também lidava com o baixo número de visitantes.
De acordo com o sociólogo francês Pierre Bourdieu, o capital cultural dá mais poder de acessibilidade ao indivíduo em relação àquilo que nós consumimos. O afastamento da arte no Brasil pode ser analisado a partir dessa noção, ao considerar as baixas condições de incentivo à arte no país.
Ainda na teoria de Bourdieu, a falta de estímulo à cultura e a falta de exposições que reflitam o capital cultural de grande parte da população podem auxiliar no afastamento de visitantes. Janaina Cortez diz que isso é muito bem ilustrado em exposições do MASP que recebem obras de artistas como Tarsila do Amaral. Segundo a historiadora da arte, essas mostras batem recordes de visitas, pois uma grande parcela da população já teve contato com a artista, até mesmo em atividades didáticas, ao pintar um quadro dela durante a escola, o que gera conexão e estímulo para a visita.

Diante da situação financeira, a solução foi uma reestruturação completa, assim a iniciativa privada foi instaurada com apoio do Itaú Unibanco, da lei Rouanet e com a contratação de Adriano Pedrosa, diretor artístico do MASP até os dias atuais.
Durante a nova direção, a instituição continua a aumentar a ações que garantem retorno financeiro, com programas como o Empresa Amiga MASP, onde empresas acima de 100 funcionários oferecem aos seus colaboradores acesso gratuito ao museu. Também existem os planos de associação, exemplo disso é o Amigo MASP, onde os participantes contribuem mensalmente e recebem acessos gratuitos, desconto nas lojas e entre outros benefícios. As iniciativas privadas possibilitam ações sociais como os dias de gratuidade, proporcionados por instituições parceiras.

Esses patrocínios permitem políticas sociais que ajudam a democratização do acesso à arte. Às terças-feiras, durante todo o dia, e às sextas-feiras, das 18:00 às 20:00, as entradas são gratuitas, um exemplo de que essas parcerias funcionam como uma via de mão dupla, onde as instituições apoiadoras se beneficiam com a visibilidade.
“As políticas de gratuidade influenciaram a minha visita ao museu, e acredito que ela ajude não só a mim mas todos que não tem condições”
Alexandra Domingues
A Ascensão do MASP
Apesar da crise, o MASP se recuperou e bateu o seu recorde em 2025, com 1 milhão de visitantes, em que 55% deles acessaram o museu com entradas gratuitas. Está presente na lista global dos 100 museus de arte mais visitados do mundo, ocupando o 64º lugar e é amplamente reconhecido por sua arquitetura, curadoria e expografia.
Alguns dos principais prêmios já recebidos foram Sotheby’s Prize (2019), pela qualidade da curadoria na mostra Histórias Indígenas, Audrey Irmas de Excelência Curatorial pelo pelo CCS Bard (Nova York), reconhecendo a gestão do museu, entre outros que reafirmam o impacto da arte através do museu.
[A capa desta matéria usa uma imagem editadas de Seija183 disponível no Flickr]
