Por Letícia de Aquino (leticiaalvesaquino@usp.br)
Kim Ji Young, nascida em 1982 (82 nyeonsaeng Kim Ji-yeong, 2019), da diretora Kim Do young, baseado no romance homônimo da escritora Cho Nam joo, acompanha a vida de Kim Ji-young, uma mulher comum que começa a demonstrar sinais de esgotamento psicológico após anos sendo silenciada e limitada pelas expectativas que são impostas a ela.
Casada e com uma filha pequena, abandonou a carreira para cuidar da casa e da maternidade. A narrativa mostra justamente como a experiência feminina é construída sobre pequenas violências diárias acumuladas desde a infância. Em certo momento, o marido percebe que Ji-young às vezes parece incorporar outras mulheres, como a mãe ou a avó, falando com vozes e comportamentos diferentes. Preocupado, ele busca ajuda médica e, aos poucos, entende o quão emocionalmente exausta ela está e como a pressão e os sacrifícios apagaram sua identidade.
Uma das partes mais marcantes do roteiro é como ele trabalha o acúmulo de silêncios. Não há um evento central que transforme a narrativa. O sofrimento da personagem vem justamente da soma de situações consideradas banais pela sociedade: interromper os estudos, abrir mão da carreira, ouvir comentários humilhantes, carregar toda a responsabilidade emocional e doméstica da casa.

O nome do filme também é importante
O objetivo da obra já se revela no título. “Ji-young” foi um dos nomes femininos mais populares da Coreia do Sul nas décadas de 1970 e 1990, enquanto “Kim” é o sobrenome mais comum do país, pertencente a cerca de 21% da população, segundo o jornal The Korea Times. Ao escolher um nome tão recorrente, a autora transforma a protagonista em um símbolo da mulher sul-coreana comum e, por meio dessa figura, sintetiza uma demanda feminina que ganhava força na sociedade: representatividade e visibilidade.

A grande onda feminista sul-coreana
Entre 2015 e 2019, a Coreia do Sul viveu uma forte ascensão dos movimentos feministas, impulsionada principalmente por denúncias de assédio sexual e moral vividas no trabalho, no trnsporte público, nas escolas e até dentro da própria casa. Câmeras escondidas e perseguições eram parte da rotina de mulheres de todas as idades, inclusive crianças e adolescentes. Casos de Sextorsão, que consiste na ameaça de divulgar fotos ou vídeos íntimos para obter algo em troca, como dinheiro, favores ou relações sexuais, também eram comuns.
O estopim ocorreu em 2016, após o assassinato de uma mulher na estação de Gangnam, em Seul, crime que gerou grandes debates sobre violência contra mulheres e levou milhares às ruas.
Pouco tempo depois, o movimento Me Too ganhou força no país, especialmente a partir de 2018, quando diversas mulheres passaram a denunciar publicamente casos de abu.so e assédio envolvendo figuras importantes da política, do entretenimento e do meio artístico sul-coreano. Atrizes, jornalistas, promotoras e trabalhadoras comuns começaram a relatar experiências antes silenciadas por medo, vergonha ou pressão social.

O cinema era um campo dominado por homens
Assim como os demais setores da sociedade, o cinema até então era majoritariamente masculino. As histórias reforçavam a figura do homem “machão”, autoritário, forte, violento, provedor e chefe de família. Mesmo quando falhos ou moralmente ambíguos, seus personagens costumavam receber profundidade psicológica, conflitos internos e narrativas complexas, sendo apresentados como sujeitos completos, capazes de ocupar diferentes papéis sociais e emocionais.
Já as mulheres apareciam frequentemente limitadas a funções secundárias: vítimas de violência, esposas compreensivas, mães dedicadas ou interesses românticos do protagonista masculino. Suas dores e desejos raramente eram explorados com a mesma profundidade, e muitas vezes suas histórias existiam apenas para impulsionar o desenvolvimento emocional dos homens.
Grande parte das produções voltadas ao público feminino concentrava-se quase exclusivamente em romances idealizados, narrativas sobre casamento e histórias que fortaleciam a ideia de que a realização da mulher dependia do amor, da maternidade e da construção de uma família.

Representação, identidade e resistência através de obras produzidas por mulheres
O livro “Flores de Fogo” da jornalista Hawon Jung investiga o processo de luta das mulheres sul-coreanas por direitos constitucionais mais justos e medidas punitivas mais coerentes para seus agressores. A autora passa por diversas movimentações feministas como o “#MeToo #WithYou” e “Tire o Espartilho”, além de reunir o relatos de diversas mulheres que participaram ativamente da causa ou que apenas gostariam de ter suas histórias compartilhadas.
Em entrevista ao Cinéfilos, a historiadora e pesquisadora Susana Veiga, autora do posfácio da obra e especialista em história das mulheres, ressalta a importância de compreender a realidade das mulheres na Coreia do Sul a fim de evitar a universalização das experiências ocidentais. Para isso, considera-se as especificidades da formação da sociedade, como a influência da tradição confucionista, as mudanças provocadas pela rápida industrialização e a recente projeção internacional da produção cultural do país, especialmente das obras produzidas por mulheres.
Em relação à sétima arte, Suzana a considera um espaço de validação emocional. Ela acredita que os filmes chegam onde a literatura não alcança e, por essa capacidade de sensibilizar e ampliar o acesso às narrativas, contribuem para romper o isolamento e despertar uma maior consciência sobre a própria condição. Nesse sentido, o cinema desempenhou um papel fundamental na causa das mulheres, ao favorecer o reconhecimento coletivo de que elas compartilham experiências, formas de opressão e desigualdades estruturais.
Filmes como Microhabitat (Microhabitat, 2017), Senhorita Baek (Miss Baek, 2018) e Kim Ji Young, nascida em 1982 (Kim Ji-young: Born 1982, 2019) são alguns dos exemplos de obras dirigidas e protagonizadas por mulheres que finalmente traziam temas realistas que atravessam a condição feminina contemporânea, como a independência, dificuldades econômicas, traumas psicológicos e maternidade real.
A internet contribuiu para aproximar as mulheres
Com o fortalecimento de comunidades feministas online, viralizou uma campanha chamada “envio de espírito”, em que mulheres compravam ingressos mesmo quando não podiam comparecer às salas de cinema. O objetivo era apoiar as produções e mandar um recado ao público e aos investidores: elas também gostariam de ter espaço nas telas.
O ato de assistir, divulgar e financiar obras feitas por mulheres passou a representar não apenas apoio cultural, mas também um posicionamento político e social. Ao ocupar espaços historicamente dominados por homens, essas diretoras e roteiristas ampliaram as possibilidades de representação feminina no audiovisual, permitindo que mulheres se reconheçam nas telas de maneira mais humana, complexa e verdadeira.
